REALIDADE nº 7, Outubro de 1966
Seu Manuel, o motorista de confiança, parou o Aero-Willis preto um pouco antes da esquina e continuou a pé. Virou à esquerda e preocupado em não ser visto, caminhou rapidamente mais uns 50 metros, até a casa do seu bem amado chefe. Sumiu lá dentro.
Depois de uns cinco minutos – passava um pouco das seis da manhã – Manuel surgiu novamente, pela porta dos fundos, e saiu para trazer o carro até a porta. Viu algumas pessoas paradas, com cara de quem não quer nada, mas Manuel sabia o que queriam.
No momento em que ligava o motor do automóvel, abriu-se a porta da frente da casa. Saiu um moço, em mangas de camisa, com ar agitado, que andou ligeiro e chegou ao portão no instante exato em que Manuel parava o carro. Sentou no banco da frente mesmo. Manuel engatou a marcha, para arrancar, mas era tarde demais. O carro já estava cercado.
O moço, apesar da pressa, sorriu satisfeito. Verificou que, mesmo às seis e meia da manhã e saindo em segredo, era popular. Atendeu, rápida e paternalmente a todos, confirmando o que queria e sentia:
É verdade. Eu já sou, de fato, um líder.
Certamente nenhum habitante de Goiânia, capital de Goiás, entendeu ainda porque aclama e bate palmas, quando vê em algum lugar o seu jovem Prefeito, Íris Resende Machado, 32 anos, casado, ainda sem filhos. Ele é adorado por homens, mulheres, moços, velhos e crianças.
– Olha o Íris! – gritam os meninos das ruas de Goiânia, quando passa o seu Prefeito. Íris Resende, ou “Íris Quadros”, como já o chamam, é capaz de tudo para manter e aumentar esse prestígio. Nem ele próprio sabe porque é tão querido do povo. Mas, para que melhor se esclareça como ele chegou a isso, deve-se voltar ao mês de novembro de 1958, quando houve um pequeno rebuliço nas redações de jornais de Goiânia:
– Então, quem é esse cara? Você conhece?
– Não conheço e ninguém aqui na redação conhece.
– Não interessa. Ache o homem e faça a matéria do mais votado.
Um desconhecido dos cronistas políticos de Goiânia tinha sido, nas eleições daquele ano, o vereador mais votado, com o dobro da votação do segundo colocado, num recorde que não foi batido até hoje. O repórter saiu e achou o homem: um mal vestido estudante de 24 anos. Morava no bairro de Campinas, o mais populoso da capital.
Íris, o estudante, ficou satisfeitíssimo de ser procurado por um jornal. Contou que participava ativamente da política na Faculdade de Direito, foi convidado para candidatar-se e teve a sorte de ser o mais votado. Uma coisa ali não foi dita: Íris, já no tempo de ginásio, metia-se em política estudantil. E sentia que não só gostava da popularidade. Precisa dela para sua felicidade pessoal, em dose cada vez maior.
Quando surgiram as eleições para vereador, tratou de concorrer, pois os partidos realmente achavam que ele poderia trazer alguns votos das faculdades.
Mas Íris, em vez de procurar estudantes, fez a campanha no seu próprio bairro, onde valeu muito a fama de homem honrado que tinha seu pai. Valeram muito mais, porém, suas visitas de casa em casa, seus elogios às crianças na frente dos pais, sua capacidade de notar que a horta estava bem cuidada ou que a casa estava limpa, sua boa memória para nomes e fisionomias. Seguramente, foi muito útil também sua forte autocensura para não falar de política com eleitores. A simpatia pessoal, a cara de menino humilde, as roupas comuns e a simplicidade natural de menino criado na roça até os 16 anos completavam o homem e ajudaram a trazer o voto dos pobres.
Naquela primeira entrevista de Íris para um jornal, seu pai declarou que o filho tinha sido criado com a enxada na mão, fora servente de pedreiro e entregador de lenha. De fato, durante seis meses, quando mudou para Goiânia, logo depois que o pai vendeu a fazenda, Íris ajudou na construção de algumas casas e rachou lenha para o depósito que tinham comprado no bairro de Campinas.
Afinal, no dia seguinte, o jornal saiu com a reportagem na primeira página, e Íris guarda até hoje, com muito carinho, aquela entrevista, com fotografia e tudo, apesar do repórter ter saído em primeiro plano, “tomando anotações sobre o vereador mais votado”.
Íris ficou um pouquinho embaraçado foi no dia da posse. Apareceu na Câmara como nos dias mais importantes da Faculdade: camisa abotoada até em cima e de paletó – diferente da calça, evidentemente. Encontrou os outros vereadores elegantíssimos e engravatados. Mas até que para o trabalho que ele pretendia fazer nos quatro anos seguintes foi útil ter aparecido assim. Pois o seu trabalho, programadinho, era conservar os eleitores que conseguira, ganhar outros e, principalmente, conquistar os medalhões dos partidos políticos de Goiás.
Aconteceu que não se conseguia chegar a um acordo sobre quem seria o presidente da Câmara. Até que alguém lembrou de Íris e quase todos acharam bom: “Será fácil dominar aquele caipira”.
Bom proveito tirou o moço daquela presidência, apesar de ter relutado um pouco em aceitar, pois seus planos incluíam a apresentação de muitos projetos e a conquista de seu bairro inteiro. Começou sendo dedicadíssimo no cargo que lhe entregaram e fazendo sentir que não seria dominado. Foi rigoroso com os vereadores, cortou pagamentos, controlou as verbas. E divulgou bem isso. Como presidente da Câmara, aproximou-se dos políticos mais influentes. Não deixava nunca de visitar e conversar com os seus eleitores, pois pretendia trabalhar o tempo todo pela sua próxima candidatura; queria ser deputado. Mas, hoje, ele confessa:
– Eu senti, logo nos primeiros meses, que a política legislativa não aparece.
O Povo só sente e agradece a política executiva. Resolvi que queria ser prefeito. Só que antes precisava ser deputado.
E tratou de trabalhar sempre para isso. Sendo vereador e presidente da Câmara, nunca perdeu uma oportunidade de aparecer em público. Nunca perdeu festa onde houvesse eleitores em potencial. Nunca deixou de atender as pessoas que o procuravam o dia todo. E, quando não podia atender, arranjava uma boa desculpa.
Essa obsessão pelos votos levou Íris ao cúmulo, uma vez, numa festa de casamento. Estava no último ano de seu mandato, já em plena campanha para deputado estadual. Amigo da casa, Íris estava conversando na sala quando, de dentro do quarto onde a noiva se vestida, gritaram:
– Íris, vem aqui.
O moço não perdeu a chance. Devia haver no quarto pelo menos umas quatro eleitoras. Abriu a porta, entrou, viu as moças se vestindo, ficou vermelho, virou, saiu e fechou a porta. Depois lhe explicaram: tinham chamado a Íris, uma amiga da noiva, e não ele. Acabaram por apresentá-lo à moça. Resultado: dois anos depois, o Íris casou com a Íris e, se o filho que estão esperando for homem, será Íris. Se for mulher o nome vai ser outro.
Quando anunciaram o resultado oficial das eleições para deputado, em 1962, Íris foi de novo procurado pelos jornais. Tinha outro recorde, nas mesmas condições da eleição para vereador. Os jornais já sentiam que ali poderia estar surgindo um novo líder popular.
Em suas declarações, ele deixava bem claro aos bons entendedores o que pretendia:
–Sou contra qualquer forma de reeleição. Mesmo para deputados. Dentro de quatro anos, quando terminar meu mandato de deputado estadual, garanto que não voltarei à Assembléia Legislativa.
Ganhou de novo fotografia na primeira página dos jornais, sempre com o repórter em primeiro plano.
Mais alguma coisa precisa ser ainda esclarecida, para se entender o Íris de hoje, popular prefeito e cidadão goianiense. Pois tendo o seu eleitorado aumentado sensivelmente, já não era mais possível guardar o nome de todos, nem visitar um por um, mesmo em períodos que não fossem de campanha política. Íris, então, reformulou seu processo anterior de conseguir votos e acrescentou mais um item, passando a agir assim:
- Evitar chamar pessoas pelo nome, quando houvesse perto outros eleitores cujo nome ele não conhecesse, e, assim, não provocar ciúmes.
- Continuar as visitas, mas mais rápidas, de modo a poder elogiar o trabalho de 10 donas de casa em 15 minutos.
- Continuar agradando crianças, qualquer criança, pois descobriu que elas influenciam muito os pais.
E, o último, mais novo e importante item:
- Só na base da simpatia, era impossível conseguir mais votos do que já tinha. Era preciso fazer alguma coisa.
E Íris passou a enviar para a Assembléia projetos que o destacassem em Goiânia. Aplicava, ao mesmo tempo e com muita habilidade, os quatro itens, sempre pintados com a mesma historinha sua:
– Meu primeiro trabalho foi na roça. Meus dedos têm as juntas grossas porque eu cresci trabalhando com a enxada. Trabalhei de servente de pedreiro para poder estudar na Escola Técnica. Por isso eu sei quais são os problemas do homem que trabalha.
Íris não fez ginásio. Fez a Escola Técnica Profissional, onde se formou técnico em aparelhos elétricos e telecomunicações. Isto é, podia consertar rádios e ser telegrafista. Depois, fez científico e técnico em contabilidade ao mesmo tempo, para entrar na Faculdade de Direito.
Essas histórias sempre impressionavam qualquer eleitor.
Para que se veja como um líder popular vai fazendo a sua carreira, é bom saber como Íris Resende Machado se candidatou e foi eleito prefeito de Goiânia. Candidatar-se, até que foi fácil, pois além de muito prestígio entre os chefes dos partidos, não havia quem se dispusesse a enfrentar Juca Ludovico, político tradicional, do tipo antigo, que já tinha sido de tudo no Estado de Goiás.
Íris enfrentou, sabendo, ele o seu staff (ele tem até um grupo de assessores), que tinha uma vantagem muito grande sobre o velho político: era um moço, onde a maioria dos eleitores também era de moços.
A campanha foi um sucesso espetacular. Íris juntou seus antigos companheiros de Câmara Municipal, alguns amigos do bairro e usou o que Juscelino já tinha usado muito antes: a palavra metas. O seu grupo criou, nos moldes de Carvalho Pinto em São Paulo, o “Primeiro Plano de Ação Municipal, elaborado pela assessoria técnica do deputado Íris Resende Machado”. O plano previa principalmente a descentralização da administração municipal, metas de limpeza pública, economia, asfaltamento, abertura de ruas, colocação de galerias pluviais, embelezamento dos jardins da cidade.
Mandaram o esboço do plano para uma agência de publicidade, que fez cinco folhetos, um para cada grupo principal de planos. E cada cidadão de Goiânia recebeu a sua coleçãozinha.
Assim foi a campanha, mas para que bem se entenda a eleição é necessário que se saiba como ocorrem as coisas na cidade de Goiânia, desde sua fundação. Goiânia foi projetada há 34 anos, para 30 mil habitantes. Hoje está com 300 mil, não tem plano diretor, cresceu desordenadamente além do núcleo inicial e os serviços públicos não dão nem para a metade da população. Quando a cidade foi fundada, já havia ali uma povoaçãozinha, de nome Campinas, que ficou sendo um bairro afastado da nova Capital. Com o tempo, foi sendo escolhido por todas as pessoas que mudavam do interior para a capital. Hoje tem 80 mil habitantes ciumentíssimos do bairro onde moram. Quando vão ao centro da cidade, não dizem vou ao centro. É “vou à Goiânia”.
E Íris foi o primeiro candidato a prefeito morador de Campinas.
Afinal, o motorista Manuel conseguiu sair com o carro e livrar-se dos admiradores de Íris, o amado prefeito. Agora que já está dito de quem se fala, pode-se voltar àquele dia em que Íris pretendia sair, às seis e meia da manhã, em segredo. É importante sair em segredo, para ele, pois gosta de atender todo mundo, e seus planos de trabalho e seus planos de trabalho nem sempre permitem estar ouvindo gente fora de hora. Tinha escolhido aquela manhã para fiscalizar obras, coisa que faz duas ou três vezes por semana.
É como diz o próprio Íris, em tom de sussurro confidenciado, como quem revela uma grande descoberta:
– O trabalhador vendo a gente chegar no serviço à mesma hora que ele, fica entusiasmado. Percebe que o Prefeito também levanta cedo. E trabalha com mais vontade, em vez de ficar pedindo aumento e fazendo greve.
Enquanto o carro segue, de um ou outro automóvel que cruza com eles, vem o grito já costumeiro em Goiânia:
– Como vai, Governador?
Quando Íris tinha quatro meses de Prefeitura – tomou posse em janeiro deste ano – ninguém mais tinha dúvidas de que – se houvesse eleições diretas – seria ele o próximo Governador de Goiás. Ele, Íris, quando tomou posse na Prefeitura, também já estava com o Governo do Estado na cabeça, apesar de não confessar isso claramente.
Seu Manuel toca o carro para uma rua onde estão abrindo uma galeria pluvial. O prefeito desce, o chefe de obra vem correndo:
– Já fizemos três metros hoje, vamos fazer 30 até o fim da tarde e terminamos amanhã.
Esse é um dos segredos de Íris, fazer obra em tempo recorde, com a ajuda do seu secretário de obras, o Zé Pereira, e do diretor da autarquia municipal encarregada do asfalto, engenheiro Valdércio.
Cumprimentados os trabalhadores, Íris passa a percorrer a obra e cumprir a outra missão que se impôs, ao parar naquela rua:
– Então, dona fulana, sua rua vai ficar boa agora, hein?
– Deus que abençoe o senhor, seu Íris.
– Como é meu chefe, quando a chuva vier, não vai mais alagar sua rua, não é?
– Pois é seu Íris, nóis aqui já tava organizando uma comissão pra agradecer.
Depois de uns três cafezinhos, em três casas diferentes, volta ao automóvel e parte para outra obra.
O carro continua. Sai, praticamente, da cidade, passa por uma enorme placa, onde há somente uma mão estilizada, com quatro pontinhos onde seria a palma da mão e, ao lado, a frase “Estamos trabalhando”. A frase e o desenho foram uma das primeiras coisas encomendadas pelo staff do Prefeito, logo após a posse, pois a previsão de obras era enorme e a cidade, provavelmente, ficaria com muitas ruas impedidas e cheias de poeira. De alguma forma, era preciso justificar e, principalmente, divulgar todo o trabalho do novo Prefeito.
Depois da placa, numa grande área aberta, uns cem pedreiros estão trabalhando na construção de várias casas. Íris desce e o ritmo é o mesmo: o empreiteiro corre logo, para explicar como vão as coisas, os trabalhadores começam a trabalhar com mais vontade, para o Prefeito ver, e Íris anda pelo meio deles, cumprimentando um por um.
– Então, as 500 casinhas ficam prontas para o Natal?
– Pois até antes, seu prefeito.
As 500 casas, financiadas pelo Banco Nacional de Habitação, em convênio com a Prefeitura de Goiânia, são para resolver um dos problemas mais sérios da cidade, as invasões. A cidade, que tinha ruas planejadas até onde só havia mato, foi ficando cheia de favelas, de gente vinda do Norte ou da zona rural. Como invadiam ruas, esses grupos de barracos chamaram-se invasões. Com o crescimento da cidade as ruas, agora, precisam ser desocupadas e abertas.
No começo, a Prefeitura conseguiu do Governo do Estado terrenos financiados e construiu casinhas usando a madeira e as telhas que os favelados já tinham em suas malocas. Não eram boas, embora bem melhores, em condições de espaço e higiene, que as das invasões, onde, em grupos de 50 ou 100 famílias, não havia nenhuma privada, ou, então, uma só para uso coletivo.
Depois Íris criou uma Cooperativa Municipal de Habitação e conseguiu dinheiro com o BNH. O Prefeito volta para o carro. Verificou que as obras andam bem e tem um novo plano na cabeça.
O carro passa por vários lugares com a placa “Estamos trabalhando”. Íris vai olhando os trabalhos de asfalto, galerias, colocação de meio-fio. Até que Manuel para o carro na entrada de uma invasão, à beira do leito da Estrada de Ferro.
Íris desce e as crianças vão logo se juntando em volta:
– Mãe, olha o Íris!
Vai distribuindo os apertos de mão, as perguntas de onde está trabalhando, como vai a saúde, e caminhando para o centro da favela. Quando percebe que já tem um auditório razoável, lança a frase, certamente preparada antes:
– Olha, acho que, para o Natal, eu tenho um presentinho para vocês. São umas casas muito boas que nós estamos fazendo. Aí vamos tirar todos vocês daqui, para um lugar melhor.
– Deus que conserve o senhor tão bom assim, seu Íris.
– Eu tenho rezado muito para a sua felicidade, seu Prefeito.
– Quando o senhor se candidatar de novo, seu Íris, é no senhor que eu vou votar. Só o senhor faz o que promete.
– Esse moço tem lugar garantido no céu.
Íris sorri:
– Obrigado, minha filha, muito obrigado. Pra senhora também.
Dali a pouco, começam a chegar os pedidos, para ir até a casa de um, ver fulano que está doente; para ir até outra, que está desmoronando; para ver como a água em certo quintal fica estagnada. Íris vê tudo e promete soluções.
Na saída continua distribuindo apertos de mão, confiante na sua popularidade, seguro de que todos o conhecem:
– Então, como vai o senhor, está morando aqui? – pergunta para um senhor de meia idade, parado num canto.
– É, eu estou morando aqui, sim, mas não estou bem lembrado do senhor. O senhor é da Bahia?
Íris diz não com um sorriso e continua andando, com pressa de fazer outras coisas, sem tempo de ouvir o homem resmungando:
– Se eu cheguei anteontem de Salvador, de onde o moço me conhece?
Já são quase 9 horas da manhã e o Prefeito não pode mais ficar vendo obras, tomando cafezinhos e fazendo visitas. Tem de ir para a Prefeitura, pois é quinta-feira, dia de muito serviço, e das “audiências com o povo”. Quando Íris assumiu, entre as coisas que resolveu fazer, instituiu o dia de ouvir as queixa do povo, como alguns reis da Idade Média. E convidou um jornalista da cidade, Castro Filho, para cuidar do seu serviço de relações públicas e contatos com a imprensa. Isto é, mais claramente: a função do moço é divulgar tudo o que o Prefeito está fazendo. E Castro divulgou tão bem as audiências que, agora, na quinta-feira, ninguém mais tem sossego na Prefeitura.
O carro para ao lado da porta secreta do gabinete do Prefeito, que já não é secreta há muito tempo e tem sempre um grupinho por perto, esperando o Prefeito entrar ou sair. O prédio da Prefeitura, construído em 84 dias pela Secretaria de Obras de Íris, tempo recorde para seu tamanho, foi uma das primeiras vitórias da administração do Prefeito. Principalmente porque escapou de um aluguel caríssimo e construiu boa parte com material doado por comerciantes da cidade, economizando muito. Evidentemente isto foi muito cantado, em prosa pelo relações públicas e em verso por um paraibano improvisador, que sempre acompanha o Prefeito.
De manhã, na Prefeitura, só estão os secretários e alguns funcionários de confiança. Logo que Íris chega, começam a entrar no gabinete os secretários e seus problemas. O secretário de obras entrou e, antes de falar, ouviu:
– Seu Zé Pereira, como estão as máquinas para o mutirão de domingo?
Zé Pereira, engenheiro viajado e obreiro, já está com tudo preparado e dá contas ao chefe. O mutirão foi o que mais projetou o Prefeito Íris Resende e sua administração. Mutirão é uma tradição brasileira, onde mão de obra era coisa difícil. Então, quando chegava a época de colheita, ou de abate de gado, ou qualquer outra coisa que se precisasse fazer depressa, o fazendeiro organizava uma festa, com comida, dança e música de noite. De dia, trabalho sem parar. Cada uma das fazendas vizinhas enviava, em dia de mutirão, quantos trabalhadores pudesse mandar.
Íris transferiu isso para a zona urbana. Aplicou o mutirão na limpeza de terrenos e abertura de ruas, pois Goiânia, já quase Amazônia, é todo ano invadida por uma vegetação que quase cobre a cidade. Os moradores do bairro trabalham de graça, querendo ver sua rua limpa. Trabalhadores de outros bairros aparecem, para comer em troca de serviço. As empresas emprestam trabalhadores (esses são pagos) e máquinas, cujo custo operacional seria, para a Prefeitura, um absurdo, se tivesse de pagar. Aparecem banda de música, pessoas ricas da cidade (só para ver), aparece o paraibano improvisador de versos sempre elogiando o Prefeito e a coisa vira uma festa. Zé Pereira, Valdércio e alguns chefes distribuem e orientam o trabalho. Assim, a cidade vai progredindo quase de graça. E o Prefeito fica mais popular.
Ao meio-dia e trinta, o prefeito já despachou com vários secretários e almoça numa churrascaria da cidade, com algum político. Na Prefeitura, a fila de gente pobre, querendo falar com o Prefeito, é enorme, e Divina, a moça encarregada de encaminhá-los, já está suando, do calor e de tanto explicar que o Prefeito ainda não chegou.
Quando chega, pega um caderninho, uma caneta, e vai para uma saleta ao lado do gabinete. Divina deixa entrar uma dez pessoas de cada vez. Íris começa pelas mulheres, depois os velhos, no fim os marmanjos.
– Eu vim aqui, seu prefeito, para saber se é verdade que nós vamos ter que fazer calçada já.
– Não é já não. Só depois que terminar de pagar o asfalto, viu,
– Seu Íris, essa é minha filha, ela é professora, sabe?
– É, mas nomeação agora não. O ato institucional não deixa.
– Seu Íris, eu cheguei do interior, com quatro filhos e minha mulher. Estou doente e o hospital diz que não tem lugar prá mim.
Íris enfia a mão no bolso, tira mil cruzeiros, dispensa o homem e passa a outro.
– Ninguém mais quer dar trabalho para esse veio aqui, seu Prefeito. Eu vim do Norte, fui candango em Brasília e não ganhei nada com isso. Eu só quero trabalhar.
Íris tira outra nota de mil.
–Ah, meu veio, senhor não aguenta mais o pesado não. Pode pedir esmola, viu, que não é feio não. Na sua idade não é feio.
– Seu Prefeito, eu preciso de um passe pra ir me tratar em São Paulo. Íris manda buscar com a secretária.
– Seu Prefeito, eu queria um emprego na Prefeitura.
– Ah, meu filho, volta segunda-feira de manhã, viu, que é o dia em que eu contrato operários.
Íris instituiu isso também. Nas segundas-feiras de manhã, ele atende pessoalmente os operários que se candidatam a emprego. Só que nesse dia o diálogo é diferente:
– Onde você já trabalhou? Vamos ver a mão, se está calejada. Pode ficar esperando ali que o senhor já vai ser chamado.
Ou, se o candidato é fraco, manda procurar outro emprego.
Que a bem da verdade se esclareça uma coisa: Íris é um moço que, apesar de defender a bandeira dos pobres, é tranquila, segura (e por absurdo que pareça) simpaticamente reacionário. Não aceita nenhuma idéia nenhuma idéia nova, pode ser de política, de moral, de economia ou de qualquer outra coisa. E agora, como já conquistou as camadas mais baixas de Goiânia, partiu para conquistar as mais ricas. E está com meio caminho andado. O primeiro golpe foi asfaltar, em tempo recorde, as ruas de todos os bairros grã-finos de Goiânia. O segundo, defender em praça pública, com muita clareza e sinceridade, a ordem constituída, os poderes militares, o Governo Federal.
– E por que os bairros pobres você não asfalta?
– Porque lá o Governo do Estado ainda não colocou rede de esgoto.
E os moradores desculpam o Prefeito.
Depois de todas as suas obras em tempo recorde (asfaltou em seis meses mais do que o Prefeito anterior em quatro anos); depois da economia e da rigorosa política de recolhimento de impostos, estabelecida pelo Professor Nion, Secretário da Fazenda, confidente e conselheiro particular do Prefeito; e depois de mostrar às classes produtoras que consegue, nos domingos, mão-de-obra gratuita, Íris ficou com 90% do eleitorado municipal, segundo os cálculos que fazem hoje os seus assessores.
Apesar de tudo isso, Íris não deverá optar pelo ingresso na Arena. Ainda não resolveu, mas, certamente, irá para o MDB, tudo dependendo, ainda, das eleições para governador – daqui a quatro anos – serem diretas ou indiretas. E explica, no sussurro costumeiro de quando quer dar ar de confidência:
– O MDB é oposição, o povo hoje está na oposição, e a nossa bandeira sempre foi a do povo.
Os homens ligados à situação federal têm muita fé no Prefeito: ele é popular, consegue aglutinar povo, e pensa como o Governo. Íris, embora com um pouco de dificuldade em reconhecer essa verdade, sabe bem o que deseja:
– Íris, o que você, de fato, quer?
– Quero servir o povo.
– Não, a pergunta não era bem essa.
– Quero andar de cabeça erguida, quando não tiver mais nenhum cargo público.
– Não, também não é isso; O que é que você quer para se sentir, hoje, feliz? O que você precisa para sua felicidade pessoal?
– Olha, acho que eu não sei.
– Será a popularidade, os aplausos, o reconhecimento?
– Bom, eu acho que é.
– Você nunca tinha pensado nisso?
– Já pensei. É verdade. Eu trabalho muito na Prefeitura. Primeiro, porque gosto da cidade. Segundo, porque quero que todos saibam que eu fiz.
Quando termina a quinta-feira, o Prefeito está esgotado e precisa dormir. Esgotado também está o homem das Relações Públicas, o Vechi, encarregado de sair pelos armazéns, pedindo comida e bebida de graça para os mutirões. Esgotada também esta dona Elina, secretária municipal da Educação, mas que, nos mutirões, é a chefe da cozinha e que passou o dia resolvendo problemas das escolas e também pedindo talheres, pratos utensílios de cozinha, nas casas comerciais. Tudo para o mutirão de domingo.
Com exceção das quintas-feiras – quando recebe o povo – e das segundas – quando dá pessoalmente os empregos – os dias do líder de Goiânia são iguais. Resumem-se em receber vereadores, secretários, despachar, e agora, em tempo de campanha política, orientar outros candidatos, que precisam de sua ajuda. Os visitantes importantes e as comissões pedindo auxílio – ou obras – são constantes.
As visitas humildes são atendidas pela Divina, secretária do chefe de gabinete, João Natal. As visitas importantes são levadas a esperar na sala do Perseu, secretário da Prefeitura, onde se realizam os altos cochichos administrativos e onde está a porta mais segura para se chegar ao Prefeito. A sala está sempre cheia. Ninguém sabe se é porque querem falar com o Prefeito, ou porque têm assuntos a resolveu com o Perseu, ou porque ele tem uma secretária muito bonita.
Perseu é o homem mais diretamente ligado ao Prefeito. Segura tudo que não precisa ser levado até o Íris e, quando leva alguma coisa, já tem opinião formada, para auxiliar. Todos os secretários – escolhidos entre os amigos de Íris, do tempo em que ele começou na política, como vereador – são admiradores do Prefeito, empenhados em fazer tudo o que o seu chefe mandar.
Afinal chega o sábado, dia do Prefeito receber as homenagens. No bairro onde será o mutirão já se cuida de armar a cozinha. Várias casas sempre disputam essa honra. Cuidam também de armar a barraca onde será distribuído o almoço. Íris sabe que tudo funcionará bem e não precisa ir até lá. No sábado ele vai a festas, onde será certamente homenageado, aclamado, e distribuirá os mesmos apertos de mão.
Na inauguração de um banco, festejadíssimo, Íris tem de falar:
– Goiânia recebe de braços abertos o capital dos Estados mais ricos. Porque o nosso progresso, o futuro desta cidade, depende de homens corajosos, como esses que vêm investir aqui.
Na inauguração de um hospital, tem de falar:
– Goiânia se engrandece com mais este empreendimento. É na mãos de jovens como esses médicos, que está calçado o futuro de nossa cidade e de nossa Pátria.
Num baile da Escola Técnica, onde se formou e está recebendo uma homenagem, Íris repete o mesmo tema:
– Está na mão desses moços o futuro. Está na mão deles a direção e o destino de nosso grande País.
Naquele sábado havia baile. O Prefeito, homem de deitar e levantar cedo, evangélico por religião, apareceu às nove e meia no baile que começava às dez.
Enquanto isso, no centro da cidade, acontecia um festival de música popular, com um cinema cheio de jovens das classes mais altas. Numa certa altura, o locutor anunciou o representante do Governador. Depois, outros representantes de outras autoridades. Aí anunciou o representante do Prefeito. O cinema veio abaixo, em aplausos.
Íris estava no baile quando soube disso. Partiu correndo para o cinema. Ficou escondidinho na entrada e mandou chamar Castro Filho, seu representante e relações públicas. Cochicharam um pouco.
Castro entrou no cinema, foi para a primeira fila, cochichou com o locutor, e voltou. Dali a pouco o locutor anunciava:
– Agora, um jovem como vocês (o locutor não era moço e estava sendo vaiado), o Prefeito…
E não conseguiu falar o resto.
Todo mundo aplaudindo, Íris entrou triunfante, abanando com o braço no estilo de Juscelino, bebendo a popularidade de um momento que quase tinha perdido.
Zé Pereira, Valdércio, dona Elina e o prefeito chegaram bem cedo no mutirão. O pessoal do bairro já estava todo de foice em punho, para tirar todo o mato que invadia as ruas. Na casa da cozinha, a carne já estava salgada e os tachos preparados. Zé Pereira e Valdércio – o diretor da Pavicap, autarquia criada para asfaltar a cidade sem as complicações burocráticas da Secretaria de Obras – começaram a distribuir o serviço. As máquinas, roncando, começaram também o seu trabalho de abrir ruas, aplainar e, enfim, ir dando um aspecto de civilização ao bairro.
No dia seguinte, o Serviço de Relações Públicas da Prefeitura distribuiria um comunicado: “Com 1.800 foiceiros, os 292.200 mil quadrados dos setores aeroviário e São José foram totalmente desmatados. Três pás carregadeiras, 32 caminhões basculantes, quatro patrolas (máquina que nivela rua) e três tratores abriram dez ruas, cascalharam quatro e patrolaram catorze. Foram consumidos no almoço, 120 quilos de arroz, 60 de feijão, 330 de carne, 40 de banha, 30 de cebola, 60 de macarrão, 60 de farinha, 100 de tomate, 100 de mandioca, 30 de sal, 2.200 refrigerantes, 2.200 tabletes de doce, 2.200 pedaços de pão”.
O Prefeito, durante o mutirão, vai percorrendo as áreas de trabalho. Seguem com ele todos os candidatos a vereador que recebem seu apoio, além do vice-prefeito, do relações-públicas e alguns secretários. Em cada parada, o Prefeito pega numa foice e corta um pouquinho de mato. Está conquistando os trabalhadores e, ao mesmo tempo, conforme aquela sua opinião, anima-os a trabalhar mais. Os candidatos querem todos imitar o Prefeito, para ver se sobra um pouco de popularidade. Se ele pega na foice, também pegam. Se ele anda, andam. Se ele elogia, elogiam. Junto com ele segue o paraibano: cujo apelido é Cearense, improvisando seus versos sobre tudo o que o Prefeito fala ou faz.
As pessoas ricas da cidade vêm de automóvel, para ver como é um mutirão. Passeiam bastante, descobrem onde está o Prefeito, dão um jeitinho de serem vistas, cumprimentam e vão embora.
Às 11h30, hora do almoço, a turma começa a parar de trabalhar. O Prefeito está esperando. Geralmente faz o discurso depois do almoço, pegando os trabalhadores de estômago cheio. Desta vez, a comida não está pronta ainda, e ele tem de falar e entreter a turma. A chave é a de sempre:
– Porque é na força do trabalho e do honesto trabalhador brasileiro que está o progresso do Brasil. E no vosso trabalho o progresso de Goiânia.
E é um pouco ingênuo, porque também diz:
– Enquanto vocês, operários, estão aqui, não estão fazendo greves ou procurando os seus direitos na Consolidação trabalhista. Estão, sim, procurando o local e a data do próximo mutirão.
Os trabalhadores, de estômago vazio, mas bastante entusiasmados, deliram em aplausos e levantam as foices, aprovando o Prefeito e mostrando uma força que eles não sabem que têm.
Quando chega a comida, Íris desce do caminhão em que falava. Os trabalhadores ficam em fila. Numa barraca coberta, ficam dona Elina, dona Íris, a mulher do prefeito, esposas dos secretários, funcionárias da Prefeitura, todas distribuindo comida. Os trabalhadores passam com um prato de papelão, e vão recebendo o feijão aqui, a carne ali, o arroz mais adiante. No fim, pegam uma cocada.
O Prefeito, seguido dos secretários, auxiliares, candidatos, entra na fila também, num lugarzinho já provavelmente arrumado pelo relações-públicas, e fica até o fim empenhado em mostrar aos trabalhadores que é igual a eles. Os operários ficam alegres e orgulhosos.
O almoço é num terreno vago, que foi quintal de um convento. A turma vai comendo enquanto a banda toca, o Cearense faz versos e quatro estudantes universitários, dois rapazes e duas moças, tocam violão. A roda vai se formando em volta deles, à medida os operários terminam de comer. As músicas, no começo, só falam de amor. Depois vão ficando mais complicadas. Mas param aí. Os mutirões são muito vigiados, porque há muito perigo de subversão, com tanto trabalhador junto. Por fim o Prefeito pede aos estudantes que parem de cantar:
– Enquanto houver música essa turma não pega no serviço de novo. Vocês não percebem?
– Mas hoje é domingo, seu Prefeito.
À tarde, o Prefeito continua seus passeios, mas desta vez, parando mais nas casas do bairro, para descansar um pouco, tomar cafezinho e sentir que está agradando e conquistando aquela gente. A coisa mais comum é chegar gente e dizer:
– Seu Íris, eu não votei no senhor, mas estou muito arrependido. Para Governador, o senhor pode esperar que é certo.
Os candidatos aproveitadores já almoçaram e foram embora. A cozinha já encerrou o expediente. Sobram só o Secretário de Obras, o Prefeito e João Afonso, o encarregado da Limpeza Pública, que sempre tem muito o que fazer nos mutirões. O trabalho agora é mais lento. O bairro, porém, já mudou de cara. O trabalho das máquinas – como os motoristas e operadores ganham o dia – continua no mesmo ritmo.
Lá pelas cinco horas, Íris, o grande líder popular de Goiânia, o Jânio Quadros do Brasil Central, está cansadíssimo. Dá uma olhada pelos lados, encontra Manuel com o Aero-Willys preto, embarca e desaparece.
Os trabalhadores, também cansados, começam a ir embora, cada um carregando a sua foice. O bairro já está limpinho e tem ruas por onde os automóveis conseguirão passar.
Um trabalhador que não mora no bairro vai andando.
– Por que o senhor veio ao mutirão se não mora aqui?
– Vim para ajudar o Íris Ele está trabalhando, a gente tem que ajudar também, não é?
– O senhor vem só pelo almoço?
– Não. Até que domingo lá em casa tem um almocinho bom. Mas tem muitos que vêm pra almoçar, sabe? Às vezes falta comida na casa deles.
– E o senhor também bateu palmas para o Prefeito, na hora em que ele fez discurso?
– Ah, mas é claro.
– Mas ele falou alguma coisa importante?
– Bom, se ele falou eu não sei. Mas na hora que a gente vê ele lá em cima do caminhão, falando, e sabe que ele estava pegando na foice que nem a gente, dá vontade de ir lá abraçar ele. Como a gente não pode fazer isso, só bate palma. E levanta a foice, se a gente estiver com a mão ocupada, segurando ela.







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