REALIDADE nº 1, Abril de 1966
Da pura branquinha ou da amarelinha, tratada com pau dentro ou da temperada, adoçada ou sem doce, da misturada com limão, coco ou caju, quem nunca tomou uma que atire a primeira pedra. A marvada pinga, que o diabo tirou da cana, logo depois de Nosso Senhor ter inventado o açúcar, só precisou ser provada para receber o título de bebida nacional brasileira.
–“Quem não bebeu não viveu” é a sábia opinião dos mais respeitados bebedores, ouvida todo dia nas sérias reuniões de qualquer botequim deste País. Mas a frase é velha, pois a cachaça começou junto com o Brasil, nos primeiros engenhos, lá por 1540.
Na época já fez das suas, a ponto de ser considerada, pelos senhores governadores-gerais e vice-reis, um grave obstáculo para o bom andamento da colônia. Conseguiram até uma provisão régia, de 13 de setembro de 1649, proibindo o uso de aguardente de cana em todo o território do Brasil. Mas ninguém ligou. Com a idade que tem, a pinga sempre serviu para o que serve hoje: esquentar no frio, refrescar no calor, afogar saudade, curar doença ou para suicida tomar com veneno. Tem mais de 120 sinônimos, algumas lendas, vários padroeiros, 20 mil marcas, além de um lugarzinho na História do Brasil.
O primeiro gole é do santo
Cachaça, pinga, caninha ou aquela-que-matou-o-guarda, essa certamente é a bebida que mais nomes tem no mundo. Mas também deve ser a única que pode ser pedida sem nome. Chegue alguém em qualquer botequim do Brasil e diga:
– Me dá uma.
Vem pinga, e da boa, que quem pede assim é gente entendida.
Também vem pinga, em qualquer lugar que se pedir tira-teima, chora-menina, suor-de-alambique, martelada, cobertor-de-pobre, mamadeira, imaculada, santinha, pé-de-briga, assina-ponto, forra-peito, leite-de-onça ou obrigação-de-pobre.
O bebedor desconhecido que chega num botequim tem que ser pagão ou paganini (conforme a região) pelo menos uma vez, para fazer amizade. Precisa saber convidar: “ Vamos empinar o cotovelo?” Ou então outra fórmula: molhar a goela, ficar em dia, olhar o fundo do copo, trocar o óleo, ficar mais leve.
Depois de usar uma dessas frases e pagar algumas vezes, o novo bebedor entra na roda e, se for cidade pequena, fica até com cadastro feito no banco. Pois quando alguém pedir informação dele, os respeitáveis senhores do comércio local vão responder:
– Hómi de muita confiança. Nóis toma pinga no mesmo bar.
Jeitinho de beber
“Entrou, pediu, bebeu, cuspiu, pagou, saiu, voltou, repetiu, tropeçou, levantou, sumiu”. Um letreiro espalhado pelas prateleiras de muitos bares diz que pau-d´água que se preza, senhor da arte de virar o copo, faz assim. Pede a pinga, derrama a dose do santo, engole tudo de uma vez, faz cara feia, pigarreia, cospe, paga e muda de bar. Desse costume há uma dúvida na cabeça dos pingueiros:
– Afinal, que santo é esse que bebe tanta pinga?
Para cachaceiros dos mais cuidadosos é Santo Onofre, que na Bahia já foi padroeiro de mulatas que queriam se casar com português. Outros, não menos criteriosos, derramam suas gotas para São Martinho, São Plácido, São Romano ou São Décio. Há quem prefira como padroeira, Santa Joana D´Arc, porque morreu no fogo, ou São Jorge, que matou o bicho. E em Piracicaba, São Paulo, onde se produz muita pinga, João Chiarini, bem conhecido na cidade pelas histórias que conta, jura que ouviu numa loja um cabloco pedir a imagem de São Risal.
O bebedor que fica
Quando o cachaceiro não mudar de bar está enquadrado em outro tipo, o que encosta o umbigo no balcão para contar mentira. Que ninguém duvide nunca de história contada à beira do balcão, pois tudo que ali se diz é causo verdadeiro. Tomador de aperitivo que não tem caso para contar não é bom companheiro. Quanto mais fala, e quanto melhor sua história, mais bem recebido o bebedor:
– Então fui na fazenda e tratei o serviço. Fazer 100 buracos no chão pro homem levantar uma cerca.
E o contador, honrado pau-d´água, marido estremoso e pai dedicado, diz que prometeu entregar os 100 buracos em uma hora. E ficou matutando. Como fazer 100 buracos em uma hora? Ai, passou um tatu. Pegou bicho, amarrou pelo rabo, e foi enfiando o bicho em cada lugar que devia ser esburacado.
– E o tatu não esquentava?
– Ah, mas de vez em quando eu dava uma cuspida na cara dele.
Ninguém diz nada e se alguém ousa levantar um olhar de dúvida, o contador encerra, sem admitir réplica:
– Verdade verdadeira.
Cure-se pela cachaça
“ Pegue uma raiz de 4 dedos de jurubeba, uma semente da vagem mais alta do pé. Junte com 7 folhas de mangueira (que têm de ser cortadas no meio e pisadas na pedra). Ponha raspa de raiz, uma xícara de vinho, meio litro de água serenada e cheiro de limão à vontade. Leve tudo para um canecão de pinga, misture bem e guarde num litro que precisa ser lavado antes. Deixe o litro virado de boca perto do pote da casa, com ordem para ninguém mexer”.
Depois de quatro dias nessa posição, dizem as senhoras mais experientes do interior, não há melhor remédio para aliviar o catarro e curar tosse braba, desde que se tome todo dia duas colheres das de sopa, em jejum, ao se levantar.
As lendas e tradições populares dizem mais: para reumatismo, nada melhor que pinga com sassafraz ou machucho. Para qualquer tumor, pinga com sucupira. Aguardente com flor de sabugueiro cura resfriado teimoso. Se alguma mulher estiver com problema de falta-de-tempo (suspensão de regra), a solução folclórica é a cachaça com pau-brasil. Com galho seco de catingueira ou catuaba é afrodisíaco e “não há quem não tome”.
E “ensina” mais o folclore: pinga com cabeça-de-negro ou com capim buti é um santo remédio para sangue sujo, a sífilis. Com laranja é diurético, com carqueja ajuda o estômago, com café evita resfriado, para dor de dente pode ser pura ou com pólvora, aplicada no local.
E para a garganta, pinga com sal, remédio que o Curió, personagem de Jorge Amado, usava sempre quando suas funções de camelô de loja lhe cansavam a garganta. Só que dispensava o sal.
Mário de Andrade dizia que pinga com jasmim do campo fazia até com que criança pudesse sair na chuva. Noutras regiões, essa mistura é muito usada para rebentar sarampo de criança. O jasmim do campo, qualquer pessoa do interior de São Paulo ou de Minas sabe, é o cocô de cachorro, que, envelhecido, fica branquinho.
E, para acabar, reza a tradição, a pinga é boa mesmo para curar mordida de cobra. Tem que ser tomada do jeito certo, goles grandes e rápidos, um atrás do outro. Depois de um litro, a mordida não dói mais.
A palavra do bar
Na opinião dos mais capacitados paus d´água do País, é mentira que os donos de bar estimulem a beber mais, com aqueles cartazes na parede, elogiando a pinga. Mas, quando ninguém mais tem um caso para contar, entra em cena o dono, e conta o seu, para segurar a turma.
O proprietário do pequeno botequim de esquina é, muitas vezes, um pingueiro a mais, que nem se preocupa em esconder o seu copo atrás do balcão.
Preocupa-se muito, isso sim, com o bolso dos fregueses, que podem ter esquecido a carteira em casa, e coloca coisas assim, na prateleira: “ Aqui dentro tem da boa. O freguês que tem dinheiro beberá, com muito gosto, desta pinga o ano inteiro”. Ou outra mais agressiva, que precisa ser lida em voz alta para ser entendida: “ 1 bêbado 60 no bar, 70 pedir 100 pagar, 1 guarda lhe diz 20 prender”.
Se acaba o dinheiro de alguns, o dono do bar sempre procura achar alguém da turma para ser o cristo, paganini ou pagão da “penúltima” ( a última, só na hora da morte), propõe um joguinho de palitos, e o perdigueiro paga a saideira.
Todo dono de bar e também muitos bebedores são contra a letra da Moda da pinga, quando ela diz “a marvada pinga é que me atrapaia”. Que se pergunte nos botequins do interior deste País, e a resposta, sempre um pouco irônica, vêm depressa:
–Me-me-mé reverteré, homi bão num se atrapaia.
Deus e o diabo
Os dedicados bebedores não têm certeza ainda se a pinga foi mesmo feita por Deus ou pelo diabo. A história que mais corre é de que Jesus Cristo Nosso Senhor, quando andou pelo mundo, descansou uma vez num canavial “onde as folhas lhe deram sombra e a cana lhe matou a sede”. Quando saiu, abençoou a planta: dela ia sair açúcar e rapadura.
O diabo, que estava por perto e viu Jesus achou que devia ser um lugar muito gostoso e foi lá tirar uma soneca. Arranhado pelas folhas, não gostou e inventou a pinga.
Outros dizem que, numa seca muito grande, o homem matou um macaco, para regar sua plantação de cana com o sangue do bicho. Não choveu, matou um leão e usou o sangue. Por último, regou com sangue de porco. Por isso é que o homem quando bebe faz macaquice, fica bravo como leão e depois dorme na sarjeta como um porco.
A sabedoria popular, porém, não concorda que a cachaça seja do diabo e faça mal; e uma poesia popular, de controvertida autoria, depois de dizer que todos bebem (mulher solteira atrás da porta, casada embaixo da cama) conclui: Bebe o chefe de polícia/particular escondido/ o padre por mais sabido/ toma seu trago na missa/ eu também tive notiça/ ou por outra ouvi dizer/ e tanto que posso crer/ no dizer de certa gente/ que bebendo o presidente/ não é defeito beber.
Cachaça cura cachaça
Mas os cachaceiros reconhecem que a boa pinga faz mal em certos casos.
– Nunca se tome pinga com pepino, pode até matar. Pinga com manga azeda o estômago e pinga com farinha encharca a gente. Sem falar na pinga com melancia, que derruba qualquer um na hora.
O que não convence o cachaceiro é a quadrinha inimiga: Cachorro que morde bode/ mulher que erra uma vez/ homem que bebe cachaça/ não há remédio pros três.
Pois eles acreditam muito nas lendas do folclore e nas receitas de velhas e veneráveis curandeiras: se for só uma bebedeira, uns pingos de limão no ouvido do paciente deixam o homem completamente sóbrio.
E se é para acabar com o vício de uma vez a cura é assim: mistura-se na pinga do beberrão 3 gotas de sangue de urubu, ou um pouco de terra de cova de anjinho, ou bucho de baiacu, ou fel de paca, minhoca, bicho de cana torrado a até cavalo marinho, que ele deixará de beber. Em todos esses remédios, o paciente não pode saber o que está bebendo, senão quebra o encanto. Enterrar no cemitério uma garrafa de que o viciado tenha bebido também é muito bom remédio, porque enterra o vício.
Porém, o remédio mais seguro é outro. O povo garante que o beberrão que tomar pinga misturada com areia de cemitério, um pena torrada de urubu e um pouco de cocô de galinha, tudo de uma vez e sem saber o que é, nunca mais vai querer cachaça na vida.
Registre um nome
Quem tiver na cabeça um bom nome para pinga (de santo e de bicho não, que não sobrou nenhum) corra registrar, antes que outro registre. No dia seguinte ao do Lunik ter pousado na Lua, entraram no serviço de marcas e patentes, logo de manhã, cinco pedidos de registro da marca Lunik, para pinga. Quando a música Calhambeque ganhou pela primeira vez nas paradas de sucesso, a corrida foi a mesma.
Existem hoje no Brasil 20 mil marcas de pingas. Entre elas a Atitude, a Peituda, a Vergonha, a Chora na rampa, a Providência, a Velhaca, a Amansa Corno, a Manda Brasa. Outra, a Zero Quilômetro, teve seu nome aprovado, mas o rótulo não: era uma moça vestida de noiva com um velocímetro na mão. A pinga De Cabeça Para Baixo foi aprovada, registrada e vendida por muito tempo na Bahia. Depois perceberam e proibiram: virando a garrafa de cabeça para baixo, o desenho do rótulo (uma moça de copo na mão) transformava-se numa figura obscena.
Os engarrafadores de pinga têm o cuidado de alegrar seus fregueses com rótulos divertidos. A caninha De Pulá tem na etiqueta uma briga de bar. A Segredo da Cana tem um macaco perto de uma plantação, bebendo pinga de canudinho. A pinga BB (beber seria a intenção do nome) tem o desenho de uma loira, que devia ser Brigitte Bardot. Quando a bebida tem nome de bicho, peixe ou ave, o rótulo mostra o animal, em geral mal desenhado, mas engraçado.
A velha aguardente
Ninguém sabe quem inventou o processo de destilar aguardente. Para uns foram os árabes, para outros o alquimista catalão Arnaldo de Vilanova, que obteve de algumas frutas um líquido muito bom para curar a peste, no século XIV. Mas o remédio virou vício e a Igreja o perseguiu, como invenção do diabo.
Não se sabe quem teve a idéia de destilado caldo de cana no Brasil, mas foi uma idéia de sucesso: a produção estimada, em 1965, foi de 300 milhões de litros. Que representam 300 doses por ano para cada brasileiro maior de idade. Nossa pinga atinge 20% da produção nacional de bebidas alcoólicas e já foi exportada para a Itália, Antilhas Britânicas e Alemanha.
As marcas mais vendidas são Tatuzinho e 3 Fazendas. Disputando o terceiro lugar estão: Oncinha, Cavalinho e Caquira. A Pitu, pinga mais famosa do Norte, vem em sexto.
Quem quiser fabricar pinga agora não pode apenas comprar equipamento e começar a trabalhar. Tem de comprar a concessão de algum velho alambique, pois o Instituto do Açúcar e do Álcool não dá mais licenças novas. O comprador pode “ampliar as instações” à vontade.
A boa bebida
Dizem que a boa pinga se vê pelo colar, aquelas bolinhas de ar formadas no gargalo quando se sacode a garrafa. Mas muito cuidado: é só misturar um pouco de amoníaco em pinga ruim que ela faz colar mais bonito que as outras.
A boa pinga se faz da destilação de caldo de cana fermentado, que se chama vinho de cana, e deve ser logo levada ao alambique, para se evitar a evaporação do álcool. Da destilação saem 3 tipos de pinga: da cabeça, do coração e do rabo. A da cabeça contém pouco álcool, mas é rica em substâncias que dão gosto. A do coração é aquela que se bebe. E a da cauda só tem óleos e tóxicos.
Na hora que sai do alambique, a pinga tem gosto de álcool. Para ficar cheirosa e amarelinha, da cor de ouro velho, deve ser envelhecida em madeira, pelo menos por um ano. O tonel de madeira pode ser de bálsamo, araruva, carvalho ou vinhático. Segundo mandam os cachaceiros, a pinga tratada (envelhecida) deve ser bebida pura, saboreada e nunca ser usada em batida.
A pinga misturada e fervida também se usa. O quentão, bebida oficial das festas de junho, é a mais comum nessa classe. Nele entram, fundamentalmente, gengibre e açúcar, mas se misturam na pinga para depois ferver. Mas a folclorista Jamile Japur, num trabalho sobre cozinha tradicional, recolheu em fazendas do Vale do Paraíba e do Tietê, oito maneiras diferentes de fazer quentão, onde até laranja azeda entra como ingrediente.
Na festa e no enterro
A cachaça está em toda reunião de gente brasileira. Faz parte ativa de qualquer ritual de terreiro. Entra nos despachos, nos candomblés, nas escola de samba do Rio.
Esteve também na Revolução de 32. Os paulistas justificavam derrotas dizendo que a turma de Getúlio bebia pinga com pólvora.
A pinga tem até importante participação nos guardamentos, nome que no interior se dá aos velórios. Sem ela, “quase ninguém aguenta guardar morto até a hora do enterro”.
A pinga ganhou o carinho do Brasil. É reverenciada como remédio, como companhia, como amiga. E o folclore já deixou até a oração dos cachaceiros, recolhida em cartazes de bar:
“Santa cana que está na roça, aguardente sem mistura, venha a nós o vosso líquido, pra ser bebido à nossa vontade, assim no boteco como em qualquer lugar. O garrafão nosso de cada dia nos daí hoje, perdoai as vezes que bebemos menos, assim como perdoamos o mal que ela nos faz, não nos deixar.






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