REALIDADE Nº 54 , novembro de 1970

Muitas verdades iam ser ditas conforme se anunciava pelos bairros e sítios, que trataram de estar preparados os músicos, pipoqueiros, sorveteiros, cigarreiros, motoristas de caminhão, batuqueiros, para tão falado acontecimento, que, se muita gente na rua prometia, bom dinheiro havia de render. E assim foi, pois tanto sucesso teve o evento, bem montado show de ié-ié-ié com macaca de auditório e artista carregado no fim, que comemoraram, uísque e boas gargalhadas, na madrugada adentro, na casa de Motinha, chefe político, todos os candidatos, seus ajudantes, e a muito discutida corte de senhoras, elas nas suas roupas verdes, cor do partido, que não podia ser diferente, nem devia.

A cidade mais agitada que em ocasiões dessas, só em 1927 quando Lampião entrou pela avenida, perdeu dois cangaceiros famosos, em troca matou uns tantos da terra, mas foi rechaçado de uma trincheira de sacos de algodão, montada no Largo de São Vicente, altura da casa do prefeito, resolvido a resistir, cabra macho que era. Também era gente de fora, desta vez, que alterava a vida da cidade, de geral pacata e muito calma. Mas gente bem-vinda, banda, foguetório e povo na rua para receber os visitantes, exceção feita aos adversários políticos, os encarnados, que, a bem da verdade, pouco apareceram, muito discretos na sua fiscalização pelas ruas da vizinhança. E toda a agitação não era festa nem show: era o comício.

O comício e não um comício, que a intenção aqui é contar como é e como se faz uma reunião dessas, independente da cidade, ou do partido, que, todos eles, em qualquer local, se não são iguais são muito parecidos. Este podia ter acontecido em qualquer lugar deste país onde ainda haja gente disposta a sair de casa e ficar três horas em pé, ouvindo discursos. Aconteceu em Mossoró, Rio Grande do Norte, mas poderia ter sido em qualquer lugar.

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Três dias antes, sol de rachar, Zé Felix, moço ainda, pai de quatro filhos, locutor quando aparece serviço, berrava pela cidade:

– Mossoroenses, domingo à noite, grande concentração!

A rural de Antônio Bedel vai rodando, na direção o próprio dono, que, segundo diz, entrou nessa e não consegue sair, só não vende o carro com os alto-falantes porque não há quem compre.

– Portanto, mossoroenses, ninguém em casa domingo à noite!

Zé Felix, até pelas 3 ou 4 da tarde, vai falando entusiasmado, para as crianças que saem nas portas. Antônio Bedel acelera o carro, muda de bairro. Diminui, o locutor recomeça:

– Mossoroense, escolha seu candidato de cabeça erguida!

Algumas crianças correm de encontro ao carro, dedão da mão direita levantado, sinal de que são verdes. Quem é encarnado vira o dedão para baixo e, se for corajoso, lança um palavrãozinho. Antonio Bedel explica:

– Já teve tempo do sujeito entrar na frente do carro armado de faca.

Dá uma olhada para os lados, engata uma marcha:

– A Revolução moralizou tudo isso.

Antonio Bedel, propagandista (político, comercial e religioso, desde que paguem), continua rodando Mossoró. Um pedestre que cruza diz alguma coisa e dá um murro no capô da perua.

– Esse aí é da política contrária?

– Não. Esse é nosso. Mas tabêbo como o diabo.

Planejamento

Fazer um comício, contratar a propaganda, tirar as licenças, encomendar o foguetório, cuidar da iluminação, do som, da estação de rádio, contratar os músicos, tratar caminhão para ir buscar gente no sítio, mandar pintar faixa e cartaz, tudo isso, se supõe, dá muito trabalho. Quem deve providenciar é o partido, no caso o MDB. Mas não foi.

Comício verde, em Mossoró, esteja o verde com a Arena, como já esteve, ou com o MDB, como está, quem organiza é aquele discutido e já aqui mencionado grupo de senhoras que, juntas, chamam a si mesmas de senado, sem medo do ridículo, muito orgulhosas do título de senadoras.

Apelido que foi dado por um velho matreiro, raposão da política, hoje aposentado. Aconteceu que esse político, numa campanha, não tinha apoio de nenhum senador. E, num comício em Mossoró, percebeu que algumas mulheres da cidade tinham ajudado na organização. Professor da arte de agradar pessoas, não perdeu a oportunidade. Olhou para a claque, viu aquelas respeitadas senhoras, na posição do gargarejo:

– E pra que eu preciso de senador? Se eu tenho o meu senado, representado aqui por estas minhas tão trabalhadoras amigas de Mossoró!

Acredite quem quiser, mas é a mais pura verdade: elas levaram a sério e até hoje estão trabalhando de graça e sem muito objetivo.

Tanto assim que, na sexta-feira, mesmo dia e hora em que Zé Felix berrava pela cidade, duas delas andavam esbaforidas, atrás dos músicos, batuqueiros e tudo o mais. E o QG dessas senhoras, que, pela lógica, deveria ser no partido, estava instalado na casa de Motinha.

Na casa de Motinha, todas as portas abertas, circulam elas, as organizadoras em geral, candidatos a todo tipo de cargo e pedintes. A dona da casa, esposa de Motinha, ao que se saiba nunca reclamou. Verdade que ela não se preocupa nem um pouco em ser hospitaleira, como de resto grande parte do povo de Mossoró, e também que um visitante menos avisado pode pensar que ela é muda. Masela fala.

Trabalho

Luís Pereira, o fogueteiro, começou seu trabalho também na sexta de tarde, e tratou de correr, pois não tinha quase nada pronto:

– Minino de agora tá tudo abestado. Antigamente via foguete, ia atrás. Agora, eles querem saber é de comprar picolé.

Encomenda pequena, para pouco mais de 100 contos, achou Luís. Só cinco dúzias de foguetões, cinco dúzias de pistolas, um negócio parecido com busca-pé, e vinte bombas, daquelas de quase 1 quilo.

Também Zé Mário, velho tocador de saxofone, regente da banda, foi contratado, pelas mesmas senadoras, e passou o sábado atrás de seus músicos.

Na Praça do Codó, assim chamada porque Codó, no nordeste, quer dizer má sorte, e má sorte sempre tinham nas campanhas os políticos que faziam comício lá, estão duas das senhoras senadoras. O comício ia ser lá porque, muitos anos atrás, o verde quebrou essa história de azar quando derrotou a família Rosado, que sempre tinha mandado em Mossoró.

– A luz aqui, não. Dá muita microfonia.

As duas discutem com o eletricista.

– Então amanhã cedo já deixo tudo pronto.

Dali vão correr outros lugares e pessoas: fotógrafos, costureiras, batuqueiros.

– E quanto  custam os músicos e caminhões?

– Ah, isso é na base do amor.

Mas não é. As senadoras, muito cuidadosas, têm medo de, contando suas despesas, prejudicar seus amados candidatos com alguma acusação dos adversários ppor de usar poder econômico nas campanhas.

– Mas as senhoras têm autorização para organizar um comício?

– É o partido que organiza. Nós providenciamos tudo, batemos os papéis a máquina, e levamos para o presidente assinar. Aí, nós mesmas encaminhamos.

Lá perto do mercado de Mossoró, um lugar bem movimentado, seu Francisco Pires, dono de uma humilde barbearia, de vez em quando tem,de fato, de abandonar um freguês para assinar algum papel. Ele é o presidente do diretório municipal. Na loja ao lado está estabelecido, como consertador de aparelhos elétricos, Anselmo Caetano, secretário do MDB, vereador. Que tem suas opiniões:

– É, eu ouvia falar nesse negócio de senado e pensava que era brincadeira. Depois que elas vieram para o MDB que eu vi. Elas levam a sério o negócio.

– E vocês, que já eram do MDB, se dão bem com as senadoras?

– Bom, teve uma briguinha. Mas isso é besteira.

Finalização

Contratados os músicos, acertada a iluminação, aprovados pela polícia os itinerários, pouco ficou a fazer, senão o comício mesmo.

Domingo de tardinha, a casa de Motinha, candidato a suplente de senador, está cheia de gente. As senadoras despachando os caminhões. Os candidatos vão chegando, invadindo a casa. O próprio Mota Neto e uma das senhoras estão combinando o comício.

– Cada orador, só cinco minutos.

Um candidato a deputado estadual que está por perto cochicha:

– Eu vou falar mais. Claro.

E faz uma cara de quem quer parecer esperto. Mota continua:

– Odilon pode falar mais. E Henriquinho encerra.

Para que bem se entendam esses nomes, é bom que se fale um pouco da política do Rio Grande do Norte, mas só um pouco. Henriquinho, ou Henrique Eduardo Alves, é filho de Aluísio Alves, ex-governador do Estado. E toda a campanha está sendo feita na base de é o filho, meu filho. Ele não só é candidato a deputado federal, mas a estrela da campanha. Por isso vai encerrar, e não o candidato a senador, Odilon Coutinho.

— E quem tem um jipe aberto, para buscar Odilon na estrada?

Um vereador que está por perto logo oferece o seu. É necessário, claro, pois o candidato, é óbvio, tem que entrar na cidade em carro aberto.

Elviro Rebouças é o vereador que oferece seu jipe. Foi o mais votado, na última eleição em Mossoró, pois tem de tudo para ganhar votos: mocinho, 23 anos, cara de menino e tamanho de menino, que não passa de um metro e meio, ou pouco mais, de altura.

A capota do jipe vai ser tirada e alguém vai para o meio da estrada, pouco antes da hora anunciada para a chegada do candidato Odilon Coutinho.

Lá, no meio da estrada, por alguma esotérica troca de sinais, o candidato percebe que aquele deve ser o carro para entrar na cidade. Então, troca de veículo e inicia sua entrada triunfante.

– E o Henrique Eduardo, como vai entrar?

– Ah, ele vai chegar depois do comício começado.

Vai escurecendo. Já se escutam batucadas, indo para os bairros. As senadoras vão para casa, trocar de roupa.

Gente

Para que tudo fique claro, na história deste comício, é obrigatório falar do hábito, do costume, de como são feitos os comícios lá.

Cada bairro tem seu ponto de partida, sua batucada, com a intenção, claro, de animar as pessoas a seguir o batuque, passos de carnaval. O ponto é combinado com uma pessoa que mora do bairro que seja bastante conhecida. Zé Felix , da rural com os alto-falantes, também  é importante nisso.

– Portanto, ainda hoje, saída da frente da casa do Antonio Bibi!

Qualidade especial do pessoal que assiste o comício por lá é gostar de andar. Que nesse dia tinham de sair de suas casas, nos bairros, andar pela Avenida Alberto Maranhão, uma das principais da cidade e a mesma por onde Lampião entrou, atravessar todas as praças do centro, inclusive a Praça do Codó, onde ia ser o comício, e andar até a saída da cidade, depois de passar por uma ponte estreita, sobre um rio, na estrada para Natal e Recife, onde ia haver a recepção e saudação.

Dessa praça, todos teriam que voltar mais dois quilômetros, até a Praça do Codó, para o comício propriamente dito. Só que aí é bem mais fácil: tem música, batuque, e todo mundo vai dançando carnaval.

De hábito, essas pessoas deveriam ir vestidas de verde, ou com um lenço verde, ou, no mínimo, arrancar algum ramo de árvore—verde, é claro—e ficar acenando, uma vez que, garantem os políticos e as senadoras, todos vão lá para ouvir mesmo, e não por causa da música e dos fogos.

– Então, pra que tanta música, tanta atração extra?

– Ah, porque comício sempre foi assim.

Mas, claro, as senadoras e os organizadores em geral acham que os eleitores podem ser um pouco esquecidos, ou distraídos, e, por isso, mais ou menos discretamente, já deixam, bem cortadinhos, muitos ramos verdes na praça da recepção, largados como que por acaso.

Barulho

                Se o partido está com nove candidatos a deputado estadual, quatro a federal e um a senador, quase todos estavam lá, e cada um com a sua perua e alto-falantes. No ponto da recepção, o barulho é de deixar louco. Quatro ou cinco batucadas, mais uma banda, fora as fitas gravadas, cada uma com uma música diferente,

Vão chegando lotes de gente dos bairros, cada um puxado por uma batucada. A impressão é de uma altamente desorganizada parada, em que o passo da marcha vira passo de samba.

Pela praça, o povo, excitado, vai catando os ramos verdes, planejadamente abandonados em lugares estratégicos. Começam os rojões, um ou outro estouro, todos fortes. Os locutores vão anunciando:

– Mossoroenses, dentro de minutos, a chegada da caravana da esperança!

Citam o nome do senador, de Henrique Filho, e o deles próprios. Em seguida, o nome dos demais candidatos, se estiverem por perto. E falam muito em esperança, mas, distraídos, certamente, esquecem de falar em que teriam esperança.

Na pista da estrada, ao lado da praça, um vaivém de blocos carnavalescos, os surdos, agora já mais afinados uns com os outros, marcando o passo. As pessoas, crianças, muita criança, mocinhas namoradeiras, muitas, e rapazes com ar de pouca preocupação com política passam dançando, abraçados.

Vão chegando também as senadoras, corajosas, enfrentando o ridículo de uniforme verde, que, na verdade, o povo não nota, de tão acostumado.

A espera barulhenta continua, e ninguém estranha a demora, ocupados que estão em cantar e dançar. E também porque é normal, em casos assim, que o candidato marque para as 7 e meia e só chegue depois das 9. A música dançada é aquela da seleção, da corrente pra frente, que deveria ser cantada com letra própria do MDB, mas o povo prefere a original.

De repente, dois carros de candidatos saem do bolo de gente, seguem pela estrada. É a caminhonete de um candidato a deputado estadual e o jipe sem capota daquele vereador. Os carros com imensas luzes verdes em cima.

O barulho dos rojões e bombas aumenta, domina. Da estrada vem   vindo uma avalancha de gente. Os rojões são soltados pelas caminhonetes dos políticos.

Passa seu Pedro do Carneiro Verde, com seu carneiro puxando a passeata, que vai começar, pelos dois  quilômetros da Praça dos Três Poderes até a do Codó. Logo atrás, duas senadoras, correndinho, nem parecendo ter a idade que têm. Em seguida, a caminhonete do candidato a deputado estadual, rompendo a massa de gente.

E, então, o candidato a senador, triunfante, em pé, no jipe sem capota, seu suplente ao lado, os dois acenando.

E quem não quiser acreditar que não acredite. Quem puder explica que explique. Mas o povo, só com isso, aplaude, aclama. Verdade que puxados pelos alto-falantes. Mas fez um barulhão danado.

Correria

Na ponte, bem estreita, as duas calçadas de pedestres estão cheias.

– Sai da ponte, espera lá no largo.

– É, vamos sair daqui. Senão a passeata joga a gente no rio.

De longe, se vê a luz verde que está em cima da caminhonete e se ouve o barulho de música e gente cantando. Algum soltador de fogos contratado está na frente da passeata. Na saída da ponte, acende uma bomba, das de quase 1 quilo. Todo mundo sai correndo, que o estouro não é brincadeira. A bomba é uma espécie de saudação aos candidatos, mas, ao mesmo tempo, tem grande utilidade para desimpedir caminhos.

Duas das senadoras estão ali do lado, em cima do capô de um jipe, gritando, aplaudindo, fazendo sinais com a mão, cumprimentando pessoas pobres que passam (as senadoras, se não foi dito seja agora, são ricas). Elas vibram, é como se fosse um êxtase sexual. Alguém mostra um Volkswagen vermelho, atrás delas. É o carro de um dos adversários políticos. A mais afoitinha, excitada, dá sua opinião:

– Coitadinho. Deixa  ele. Afinal, todos têm o direito de gozar as delícias do verde.

A massa de povo vai atravessando a ponte, comprimida, cantando e dançando, seguindo os carros dos candidatos, agora uns oito ou dez.

Lá na Praça do Codó, o palanque, um caminhão parado no meio da praça, está pronto. Tudo aceso. Um locutor, os técnicos de som, sorveteiros, cigarreiros e soldados da Polícia Militar, todos em seus lugares.

Os candidatos vão subindo no palanque. A massa vai se juntando, se comprimindo na praça. O locutor abre o comício, falando da esperança, fazendo referências à iluminação, obviamente “feérica”.

A banda continua tocando. Carvalho Neto, candidato a deputado federal, que se saiba, não tem nenhuma briga com seus partidários. Mas talvez tivesse sido pouco lembrado para o comício, de modo que preparou uma entrada em que obrigou a falarem seu nome, do palanque, pelo menos duas vezes. Mota Neto, irritado, sem poder prosseguir o comício, voltou:

– Meu amigo Carvalho Neto. Pare de tocar o conjunto, temos de seguir.

O conjunto parou. O locutor voltou a dizer que, dali a pouco, chegaria o filho dohomem (aplausos, gritinhos histéricos) e anunciou mais um orador, acompanhado de emocionante toque de clarim.

– É a noite da liberdade. Mossoró proclama-se a cidade da liberdade!

Outro orador:

– Trago o abraço da gentinha de Natal para a gentinha de Mossoró!

Gentinha se usa muito na campanha, aproveitando que, uma vez, o candidato adversário disse que não precisava de voto daquela gentinha, referindo-se aos pobres.

– Vamos continuar com esperança!

Os oradores vão falando, todos anunciados pelo clarim. Vão se esgotando os candidatos. Todos, nos seus discursos, com muitos elogios à cidade.

No meio do povo agitam-se os ramos verdes, trazidos da outra praça, cada vez que falam o nome de Henrique Eduardo, o filho do homem. Vai chegando a hora de falar o candidato a senador. A claque já está bem maior, todas as senadoras de verde já estão lá. O próprio Mota Neto desce, para comandar.

– E, atenção, acaba de chegar Henrique Eduardo Alves, o filho!

O rapazinho, 21 anos, aparece, fantasiado de verde, acenando um lenço verde. É uma espécie de ídolo de ié-ié-ié. A claque começa a gritar, as mocinhas, que estão ali para ver o mocinho, soltam os gritinhos de praxe nessas ocasiões. Outro orador termina seu discurso:

– Em nome do primeiro, e em nome do filho, eu peço o seu voto.

Claque funcionando, aplausos.

Até que, afinal, chega a vez de falar Odilon, candidato a senador. Odilon, no meio dos elogios à cidade, tenta ser mais substancioso, menos superficial.

Fala nas condições de trabalho nas salinas, defendendo os trabalhadores. Odilon Ribeiro Coutinho é dono de salina. E justifica:

– As salinas, agora, estão passando para a mão dos estrangeiros!

Conta histórias do sertão, longas. Diz que, no Senado, vai ser machão mesmo, como Mota Neto anunciou. O público começa a ficar impaciente. No palanque, as pessoas ficam aflitas. Odilon está falando há uma hora e meia.

Quando Odilon consegue encerrar o discurso, a claque se excita, começa a gritar Henrique! Henrique! Porque, se não é o senador a encerrar o comício, tem de ser o penúltimo, antes do filho.

O locutor começa:

– Um dia, um mestre disse: quem meu filho beija minha boca adoça…

Gritos, aplausos, lenços verdes, ramos de árvores.

– E agora, mossoroenses, vai ocupar o microfone…

Aplausos, todo mundo esperando o filho.

O locutor entra:

– Vai ocupar o microfone, Carvalho Neto!

A claque, sem conseguir segurar o desapontamento:

– Aaah!

Carvalho Neto, mais uma vez esquecido, fez questão de falar, e conseguiu entrar na vez do filho:

– Mossoroenses, o filho já está eleito, eu lhes peço, lembrem-se do Neto.

A claque não se manifesta, mas o povo acha graça e aplaude. Depois de duas histórias compridas, de xingamento aos adversários, encerra.

Veio falar então o filho, que, seguramente, tem muitas coisas dentro da cabeça, mas, pelo menos naquele dia, não conseguiu ser muito preciso.

– Eu, rouco e cansado, vim a Mossoró…

Aplausos, gritinhos, gritões, rojões, bombas. Depois:

– E quando vejo essas moças carinhosas que me abraçam…

Explosão de vozes femininas, igual programa de auditório.

– Estão dizendo por aí que já estou eleito. Mas é mentira.

Afinal, depois de muitas coisas, sem, ao menos de mentira, prometer alguma coisa para o eleitorado, diz, à meia-noite e meia, que vai terminar:

– Já é quase meia-noite e todos temos de trabalhar amanhã.

Alguém, lá do meio, berra:

– Meia-noite e 25, já!

A claque se encarrega de aplaudir e pedir a ele que fale mais. Solta mais uma das seis ou sete chaves que decorou para discursos.

A banca toda, encerrando o comício. O povo corre atrás do palanque, pedir favores. As mocinhas e as senadoras, aos gritinhos, correm para carregar seu ídolo. Os candidatos vão embora, a praça vai ficando vazia, como todos os dias.

Um trabalhador, humilde, também começa os 2 quilômetros para casa:

– Por que o senhor é do verde?

– Porque é melhor, eu não gosto do encarnado. Eles dão esperança.

– Esperança de que?

– De melhorar, ué.

– Melhorar o que?

–  A vida da gente.

– E o senhor acha que, votando neles, sua vida vai melhorar?

– Ué, pois o senhor não escutou eles dizer isso, lá em cima?

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José Carlos Marão

Autor – José Carlos Marão (nascido em 11 de janeiro de 1941, em São Paulo), começou na imprensa… continuar lendo

Lígia Martins de Almeida

Editora do livro “Realidade Re-Vista”.

Sem o trabalho exaustivo de Ligia Martins de Almeida teria sido muito mais difícil a realização do livro “Realidade Re-Vista”… continuar lendo

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