Eles querem derrubar o governo

REALIDADE nº 28 – JULHO DE 1968

Por obra de uma ou outra misteriosa troca de senhas, alguns nomes de guerra, um cabelo comprido raspado de repente ou um bigode que desaparece de um dia para o outro, eles sempre acabam conseguindo fazer o seu serviço. Tudo isso é necessário, pois o serviço é clandestino, ilegal, de vez em quando subversivo. E os autores, às vezes, procurados pela polícia no País inteiro.

Eles são, no seu próprio dizer, as lideranças estudantis brasileiras. Estão na UNE, União Nacional dos Estudantes, e nas UEEs, Uniões Estaduais dos Estudantes. E conseguem estar sempre – com as siglas, as presenças ou até liderando mesmo – em qualquer lugar do País onde haja passeatas, protestos, greves, ocupação de faculdades e coisas do gênero.

Pelo jeito, gostam muito de fazer o que fazem e devem gostar também do clima de tensão nervosa em que vivem o tempo todo, graças à polícia e a algumas ordens de prisão preventiva.

A tensão está sempre junto com esses estudantes, como esteve na manhã do dia 16 de maio, dentro de um Volkswagen, que, muito comum e anônimo como uns outros milhares de carros, corria alguns pontos estratégicos de Salvador, Bahia, levando dentro uma moça e três rapazes. Parou numa esquina, um deles pôs o pescoço para fora.

– Nada?

Um rapaz parado na esquina, encostado no muro, com um paletó pendurado no braço e, fazendo questão de mostrar bem a capa da revista que estava lendo, respondeu:

– Nada.

O carro saiu, normalmente, como se não estivesse “checando” cada um dos pontos onde deveriam aparecer os delegados estaduais para uma importantíssima reunião de Conselho Nacional dos Estudantes (onde comparecem dois ou três líderes de cada Estado), convocado pelo presidente da UNE, para tratar da preparação do 30º Congresso, e principalmente discutir uma questão criadeira de muita briga entre eles: o diálogo ou não com as autoridades.

Uma divisão

Nem bem o Volkswagen saiu da esquina, apareceu perto outro rapaz, carregando a tiracolo uma bolsa dessas de companhia de aviação, barbudo, sujo, parecendo mais um desempregado, nunca um estudante. De longe viu a capa da revista que o outro lia, viu o paletó no braço, olhou o relógio, chegou perto:

– Você conhece o Flávio?

– Sou eu.

– Pois eu quero matricular-me naquela escola ali.

– Já foi preenchida a última vaga.

– Eu vim para o Conselho da UNE.

O recém-chegado recebe uma indicação para onde ir, os horários de ônibus, preço e novas senhas. Levar pouca bagagem, ter sempre uma história coerente para a polícia, vestir roupa que não pareça roupa de estudante, terno e gravata, de preferência, são algumas regrinhas recomendadas para quem viaja. Outra é a pontualidade. O ponto amarrado só espera dez minutos de manhã, dez à tarde, para não dar na vista. Se o viajante perde os encontros, tem um ponto alternativo para o dia seguinte e nada mais.

Mas são regras nem sempre seguidas. Por exemplo, Luis Travassos, um dos homens mais procurados do País, por ser o presidente da UNE, por ter organizado o 29º Congresso em São Paulo iludindo toda a polícia, por ter organizado em Belo Horizonte a semana da Solidariedade ao Povo do Vietnam, e por outras agitaçõezinhas menores, é um dos que mais recomenda as regras de segurança.

Mas ele próprio, Luiz Travassos, mais ou menos na mesma hora em que o Volks rodava por Salvador, estava ainda na estação rodoviária no Rio de Janeiro, completamente exposto, como dizem eles, discutindo com a moça de um guichê. Dormiu demais, perdeu o ônibus. Não tinha nada de bagagem e absolutamente nenhum tostão no bolso. E queria fazer valer a passagem para o ônibus seguinte.

Luis Travassos, 22 anos, é um moço magrelo, meio alto, de voz e sorriso muito calmos, mas que numa assembléia ou concentração de estudantes se transforma. “Falando é um leão”, dizem dele. Nasceu para as políticas de estudantes na Faculdade de Direito da Universidade Católica de São Paulo. De lá foi eleito presidente da UEE-SP. E, depois desse dia, trocou uma casa confortável no bairro de Santo Amaro, na capital paulista, por uma vida corrida de reuniões, prisões, discursos e fuga da polícia.

Seu pai, pequeno industrial, não o viu mais. Luis mora em qualquer casa, veste qualquer roupa. Está sempre meio sujo, meio barbudo, só troca de camisa quando a noiva consegue achar alguém que vai encontrá-lo e manda uma. Dinheiro, está sempre sem nenhum. Não procura a família, para não “complicar o pessoal”, mas não consegue esconder um pouquinho de emoção, um certo olhar para cima, quando fala deles:

– Eu tenho esperança de que logo haja liberdade para vê-los, sem deixar de fazer o que faço atualmente.

Pois naquela manhã na rodoviária, a sorte de Luis foi que apareceu outro líder estudantil com o mesmo destino, Salvador, levado até a rodoviária num carro “especial”. Travassos aproveitou o carro e conseguiu alcançar seu ônibus alguns quilômetros adiante. Mas esqueceu  de pedir dinheiro emprestado, e fez suas trinta horas de viagem sem comer um único sanduíche.

E o Sr. Travassos precisava chegar de qualquer jeito, pois, sendo o líder de um dos lados UNE, tinha que estar lá, para tentar fazer valer seus pontos de vista, dentro da UNE dividida.

Essa divisão começou logo depois do 29º Congresso, no ano passado, em São Paulo, quando Travassos foi eleito, junto com outros novos diretores. A diretoria deveria escolher um representante brasileiro para a OCLAE, Organização Continental Latino-Americana de Estudantes, com sede em Cuba. Travassos e mais três diretores apoiavam o nome do estudante José Jarbas Cerqueira. Os outros seis não discordavam, Mas queriam que houvesse mais representantes, em rodízio. Travassos, em minoria dentro da diretoria, resolveu convocar o Conselho para discutir a questão, onde conseguiu maioria. José Jarbas é hoje o representante dos estudantes brasileiros na OCLAE. Os outros seis diretores não gostaram do golpe. A UNE e todo o  movimento universitário começou então a se dividir, chegando a tal ponto que logo, logo, pode ser que haja duas UNEs.

Mais divisões

– Mulher que chega num põe mais nem a cara na janela.

– Qué isso? Por que?

– Ordem da Comissão de Segurança. Você já viu retiro de padres que tem mulher no meio?

A ordem tinha sentido. A Comissão de Segurança do Conselho preparou, com base e coerência, uma história de retiro espiritual, para o caso de alguém mais curioso procurar saber o que fazia tanta gente junta. Catarina Meloni, 24 anos, líder estudantil de São Paulo, era a primeira moça a chegar e a primeira a entrar no esquema.

Sua chegada provocou algum zunzum, fazendo prever, entre os entendidos, muita briga no Conselho. É que Catarina, quando Travassos deixou a presidência da UEE-SP para assumir a presidência da UNE, ficou no lugar dele. As coisas correram normalmente até outubro do ano passado, quando ela convocou novas eleições. Nessa altura, o movimento estudantil já estava nitidamente dividido em “radicais” e “conciliadores”.

A eleição foi uma bagunça. Houve fraude para os dois lados. Além disso, a chapa de oposição foi acusada de ter mandado queimar os votos da Faculdade de Filosofia da USP, alegando os regulamentos e a invasão da escola por estudantes do Mackenzie, que queriam impedir a votação.

Catarina resolveu não dar posse a nenhuma das chapas, por causa da bagunça toda. Mas não adiantou nada. A outra chapa, cujo presidente é um dos líderes da Faculdade de Direito da PUC, José Dirceu, tomou posse por sua própria conta.

– Isso é cupulismo!- saiu gritando por ai a Catarina, depois que uma nota da maioria da diretoria da UNE (aqueles seis) reconhecia Dirceu, da UEE-SP.

Dentro da UNE a briga também foi grande. Travassos e mais três defendiam nova eleição, enquanto os outros seis, os mesmos que discordaram no caso do representante na OCLAE, queriam reconhecer José Dirceu. A turma de Travassos ponderava que isso seria intervençãocupulismo e desrespeito à massa estudantil. Pelos mesmos seis a quatro de sempre, perderam. Mas convidaram Catarina para o Conselho. Convidaram Dirceu também. E as discussões prometiam boa coisa.

– Eu não aceito a intervenção da UNE. O Conselho tem que vetar essa decisão – dizia Catarina, entre calma e agitada, enquanto era gentilmente empurrada para dentro de um Aero-Willys.

– Esse carro vai para lá agora, e você tem que ir nele,  precisa ir escondida, não pode ser vista de jeito nenhum.

Prisões

Num canto, Luis Raul Machado, um dos vice-presidentes da UNE, que ajudou a dirigir a luta da lei orgânica (transformava colégios em fundações) na Bahia e esteve nas manifestações de protesto pela morte de Edson Luis em São Paulo, explica para o pessoal encarregado de receber os conselheiros da UNE:

– Dois pontos caíram.

– Quem?

Luis explicou que José Carlos Moreira, diretor da UNE, e Raimundo Mendes (filho do deputado arenista de Minas, Dnar Mendes), presidente da UEE de Minas, tinham sido presos, logo depois de uma manifestação, em Belo Horizonte, junto com o presidente do DCE da Universidade Católica de lá, Luis Gonzaga. Cair é ser preso. E ponto, o lugar onde aqueles dois eram esperados.

Mas nem só estudantes são presos. Em Belo Horizonte, numa assembléia da Faculdade de Direito, um certo João Batista, que não explicou bem o que estava fazendo ali, foi detido pelos estudantes, no dia 25 de abril, das 8 da noite à 1 da manhã. E confessou ser um polícia infiltrado.

Minas Gerais é um dos Estados onde as manifestações estudantis, depois da morte do estudante Edson Luis, foram as mais violentas. A repressão policial também agiu mais em Minas, porque está funcionando em Belo Horizonte um IPM sobre as agitações estudantis.

– E só prendem gente que pensa como nós!

Esse protesto é o de um estudante da primeira posição. Isto é, aqueles que pensam de acordo com Luis Travassos. Ele diz que não foi preso nenhum dos estudantes de segunda posição (primeira e segunda são palavras surgidas em Minas) que seria representado por José Dirceu, em São Paulo, e Vladimir Palmeira, no Rio. São os que defendem o diálogo com o Governo e mais algumas outras coisas, combatidas por Travassos e sua turma.

Esse era exatamente um dos pontos que iam dar mais discussão no Conselho de Salvador – diálogo com as autoridades. A turma de Travassos acha que os estudantes têm que ir para as ruas, para conseguir coisas. As decisões têm que ser discutidas e tomadas pelas próprias massas, e não só pelas lideranças. A outra turma acha que o movimento estudantil precisa organizar-se primeiro, que o diálogo é bom “porque vai desmascarar o Governo e mostrar que eles não querem diálogo coisa alguma”. Travassos é a favor da mobilização de estudantes a qualquer hora, pois a organização só pode surgir num clima de luta.

-– Do Paraná, será que vem alguém?

Ninguém podia responder. Naqueles dias, em Curitiba, os estudantes tinham ocupado militarmente a Universidade, depois de derrubar o busto do Reitor Suplicy de Lacerda. As notícias estavam chegando esparsas e não se sabia direito ainda o que acontecia.

– Acho que não vem ninguém. As lideranças vão ter que ficar lá.

Cada representante de Estado chegava ansioso para contar as coisas que tinham acontecido nas suas escolas, depois da morte de Edson Luis, nos meses de abril e maio. O Estado do Ceará contava:

– Nossa passeata foi debaixo de tempestade. Denunciamos a ditadura usando a bandeira vietcong. Depredamos o prédio do USIS em três ondas de massa. Fizemos o Exército ocupar a cidade. As lideranças tiveram que se escondeu no CEU, Centro de Estudantes Universitários, protegidos durante três dias pela massa que se concentrava e se revezava ali.

Em Natal, tinha havido a primeira luta de excedentes, vitoriosa. Em João Pessoa, houve passeata, ocupação do restaurante universitário, perseguição a alguns americanos que moram na cidade e três pessoas foram baleadas pela polícia. No Recife, greves, passeatas e prisões. Em Brasília, quatro horas e meia de passeata, onde a turma gritava o nome da UNE e queimou uma viatura da polícia.

Ninguém quer ficar atrás:

– Lá em Minas, o povo jogava papel picado de cima dos prédios quando a passeata passava. E os líderes não se esconderam nenhuma vez. Tanto assim que foram presos um diretor da UNE, os presidentes da UEE e do DCE.

Em São Paulo e Rio as agitações andaram também por esse nível. Mas ninguém tinha para contar um caso tão “grave” como o de Curitiba. E nenhum Estado tem o privilégio do Paraná, onde o reitor é o sr. Flávio Suplicy de Lacerda, autor de uma lei que já andou pela garganta dos estudantes por muito tempo.

A solução era ir seguindo para o local onde ia haver o Congresso. Esperando para ver se chegava alguém do Paraná, para ver se as duas posições chegavam a um acordo quanto aos preparativos para o 30º Congresso da UNE. Os moços seguiam quase sempre sozinhos, no máximo em dois, para não dar na vista.

Um diretor da UNE, dos últimos a sair para tomar o ônibus, indo para o último Conselho, encontrou casualmente outro estudante que lhe passou um bilhete. Leu, ficou uns trinta segundos olhando para cima.

O bilhete era do pai, que não via há muitos meses: “Zé, eu e sua mãe estamos muito inquietos. Mas confiamos em você. Seu pai”.

Zé leu, pensou, voltou a fazer política estudantil. Afinal, um agitador e líder estudantil também se emociona. Mas tem pouco tempo para isso.

Uma instalação

– Mas como está bom esse Conselho, hein? Até cozinheiro.

No velho casarão, sem forro, de quatro quartos e uma sala, o pessoal estava comentando o conforto das instalações. Teriam até algumas esteiras para dormir. E conseguiram levantar nas faculdades algum dinheiro (coisa de 10 a 15 cruzeiros novos por escola) que deu para comprar comida e contratar um cozinheiro de confiança.

E lembravam de outros conselhos, em que dormiam até dentro e em cima de guarda-roupas, por absoluta falta de lugar. E do famoso 29ª Congresso, no interior de São Paulo, quando a ração diária de cada um era um ovo cozido e dois sanduíches de queijo.

Desta vez, havia cinco colchões, quatro camas de lona e várias esteiras largas, além de cinco camas de mola sem colchão. Como esperavam de setenta a oitenta pessoas, ia provavelmente dar muito bem.

A Comissão de Segurança espalhou-se em volta da casa. Ninguém entra sem a senha, ninguém sai, nem com senha. Foram determinados plantões para toda a noite. Quatro pessoas de cada vez, cada um com lanterna de pilha, trocando sinais de quinze em quinze minutos.

No meio da noite, uma correria na casa. Todo mundo acorda, mas não era alarme nem polícia. Tinham acabado de entrar dois moços barbudos, ar cansado.

Um deles, infringindo totalmente as regras de segurança – carregando uma mala enorme. Eram os dois do Paraná.

– Nós temos que voltar depois de amanhã. O reitor deu um prazo muito curto para a nossa resposta à contraproposta que fez.

– E esse negócio de ocupação militar? Eu sou contra.

– Mas foi muito bom. Nós organizamos grupos de judô, de karatê, de informação, de estilingue, de bolinha de vidro. Tudo com tempo marcado, em segredo. Funcionou que foi uma beleza.

– Vocês ganharam tudo o que queriam?

– Não, porque depois da ocupação um líder se precipitou e saiu gritando “ganhamos”. Aí a massa, uma parte dela, começou a comemorar antes do tempo.

Nó sábado de manhã, estavam no casarão uns sessenta líderes estudantis, fora as comissões locais de segurança, abastecimento, etc. Luis Travassos, o líder da primeira posição, estava lá e poderia abrir as sessões. Vladimir Palmeira, presidente da União Metropolitana dos Estudantes (que é a UEE da Guanabara), líder da segunda posição, também estava presente, para o que desse e viesse.

Vladimir Palmeira, um carioca de altura média, meio gordinho, ia ser um dos terrores do Conselho. Com uma condição de liderança inegável, é filho do Senador Rui Palmeira. Muito jovem, tem a habilidade de quem está na política há tempos.

Enfim, líderes estudantis de todo o Brasil iam se reunir para discutir um plano de ação conjunta em todo o País. Apesar de acontecerem coisas assim, o sr. Suplicy Lacerda, no dia 7 de junho, declarou, no Rio de Janeiro, segundo publicações do dia 8: “No Brasil, os centros universitários são muito distantes uns dos outros. Sendo fácil, portanto, organizar a repressão policial, impedindo ao mesmo tempo a organização maciça dos estudantes”.

O que querem

Apesar das duas posições, em algumas coisas os estudantes estão completamente de acordo. Para eles, “O Governo é uma ditadura”, e querem derrubá-la. O Acordo MEC-USAID é a “infiltração imperialista no planejamento do ensino brasileiro”. Todos são contra as anuidades e transformação das faculdades em fundações.

Nós métodos é que as duas posições não concordam.

Por exemplo, Travassos e sua turma acham que as decisões devem sempre ser discutidas pelo que chamam de massa, isto é, todos os estudantes. O movimento estudantil, para eles, só tem sentido quando “toda a massa está lutando, participando, concordando e tendo consciência de cada ato que faz”.

Não pedem legalidade para a UNE. Acham que, se o Governo parar de perseguí-los, apenas continuarão seu trabalho com mais intensidade. São absolutamente contra qualquer forma de diálogo com as autoridades.

– Qualquer diálogo será uma forma de conciliação. Não reconhecemos a ditadura para dialogar.

Acham ainda que em momento nenhum se deve reprimir a massa estudantil, quando todos decidem sair para a rua, como “os dialoguistas” reprimem. Para eles, o grupo de Vladimir Palmeira é de “conciliação” com o Governo:

– Vocês são cupulistas, reformistas e conciliadores!

– Vocês são oportunistas!

Palavras

À parte as palavrinhas oportunistas e cupulistas, muito em voga no movimento estudantil e usadas pelos dois lados, Vladimir Palmeira e sua turma justificam e defendem sua posição assim:

– Devemos dialogar com a ditadura, para denunciá-la ainda mais, porque sabemos que é falsa a tentativa de diálogo. O povo ficará sabendo que nós fomos dialogar, e eles não dialogaram.

Além disso, querem pedir a legalidade da UNE e das UEEs, a liberdade dos presos. Para a outra turma, a de Travassos, “a liberdade dos presos não deve ser pedida. Deve ser exigida, com a massa na rua”.

Para o grupo de Vladimir, “não se deve deixar que os estudantes saiam para a rua quando querem. É preciso, antes, organizá-los”.

Em resumo, para a primeira posição, o verdadeiro nível de deliberação está nas massas: não reconhecem o Governo para com ele dialogar; as reivindicações devem ser levadas dentro de um processo de luta. Para a segunda posição, a da turma de Vladimir, no Rio, e de José Dirceu, em São Paulo, o diálogo interessa porque obriga o Governo a reconhecer os órgãos estudantis, ou então desmascara o que chamam de “ditadura”. E a xingação continua:

– Oportunistas!

– Cupulistas!

O conselho

Vai começar a sessão. A turma sentou no chão da sala, as poucas cadeiras ficaram para os mais espertos. A primeira parte da agenda do Conselho era a análise crítica e autocrítica dos movimentos de abril e maio. O representante de cada Estado contou o que houve em sua terra, dizendo se foi mal conduzido ou bem conduzido e por que.

Quando as discussões acabaram, oitenta pessoas foram procurar onde dormir. Em cada cama, duas pessoas. Num quarto, o pessoal da segunda posição, amontoados uns sobre os outros. Em cada esteira, cabiam de três a quatro pessoas. Moças e rapazes dormiam lado a lado, por pura falta de espaço. Um deles até pegou uma cama sem colchão, daquelas que têm uma rede de arame como estrado, e dormir num corredor, com um bom vento encanado.

Tudo isso, depois de um jantar muito bom. Arroz, tomate, carne cozida picadinha. E comido com a mão, porque a comissão organizadora esqueceu dos garfos e colheres.

O segundo dia prometia mais. Deveriam ser discutidos o encaminhamento do movimento estudantil – dialogar ou não com o Governo – e a preparação do 30º Congresso da UNE, onde fazê-lo e com quem. E também o caso das duas UEEs existentes em São Paulo.

– Se o Dirceu não chegar, não tem graça.

Dirceu chegou no domingo de manhã, trazendo jornais, informativos, impressos, provas de fraude eleitoral. Tudo muito bem impresso, em bom papel e com bom gosto gráfico. Alguém lá no meio soltou:

– Jornal deve existir, sim. E se for bonitinho como esse, melhor. Mas não pode ser como esse, feito por uma cúpula. O jornal tem que ser feito pela massa estudantil.

Votações

O dia foi gasto com o caso da UEEs de São Paulo e com a questão do “diálogo”. Brigas por todo lado, até ofensas. Catarina Meloni, a moça alta, vistosa, do interior de São Paulo, voz fina, mas firme, pediu que os conselheiros votassem a intervenção dos seis diretores da UNE da segunda posição. Confusões gerais. Na votação final, Catarina venceria por um voto.

Mas na votação do diálogo, que deu as mesmas discussões de todo o Conselho (além de boa parte do domingo, tomaria a manhã de segunda-feira), os “conciliadores” ganharam na votação por treze a onze.

Não sobrava tempo para as discussões sobre a preparação do 30º Congresso. A Comissão de Segurança lembrou que seria arriscado continuar além de meio-dia de segunda-feira. Além disso, comida e dinheiro já tinham acabado. Travassos determinou que o Conselho continuaria, com qualquer risco.

Mas chegou apenas a abrir as discussões sobre a preparação do 30º Congresso. A Comissão de Segurança, em seguida, chegou com todas as passagens de volta. Foi posto em votação se seriam perdidas as passagens ou não. A maioria resolveu não perder as passagens e delegou poderes à diretoria da UNE para decidir sobre o local e condições de realização do Congresso.

O “racha”

Luis Travassos coça a cabeça para responder à pergunta:

– Mas o movimento estudantil não é um movimento unido?

– É um movimento unido. As massas estão unidas. Mas esse racha era inevitável, porque os conciliadores e dialoguistas querem frear as manifestações das bases. Eles, na prática, não fazem avançar a luta política do movimento estudantil. Apenas perpetuam o movimento de cúpula.

– Agora que o conselho terminou, com minoria nas votações para você, o que vai acontecer?

– Eles vão, provavelmente, fazer o diálogo. Mas será só das cúpulas. As bases, de fato, não querem dialogar. Ou, pelo menos, não querer discutir o assunto.

– E o Congresso?

– Vamos convocar um novo Conselho, para discutir. Se o pessoal da outra posição quer aparecer, não tem importância.Virá gente de todos os Estados, seguramente, e as conclusões serão válidas de qualquer maneira.

– O Congresso é uma exigência do movimento estudantil e será realizado de qualquer maneira.

Se realmente acontecer isso, um Conselho em que não aparece o pessoal da segunda posição, a maioria dos estudantes ligados às lideranças e às entidades ilegais, prevê um racha, em termos nacionais, do movimento estudantil, como ocorreu em São Paulo. Travassos mesmo responde:

– Faremos tudo para não dividir. Não temos medo de perder uma eleição, no Congresso. Mas não é impossível que logo haja duas UNEs, se eles não quiserem participar do Congresso que o Conselho preparar.

– Como relação ao movimento estudantil, em si, o que você e sua turma vão fazer agora?

– Cada líder vai voltar para seu Estado. Em cada Estado vamos divulgar, nas bases, nossas posições. Só interessa para nós ser UNE se formos, de fato, uma união nacional de estudantes. E não uma UNE que decide coisas nas cúpulas, sem consultar ninguém.

O Conselho terminou mais ou menos melancolicamente. Cada um voltou para sua escola. Luis Travassos, barbudo, a camisa suja, seguiu para o Rio, foi levar suas idéias aos outros estudantes. Honestino, líder de Brasília, foi fazer o mesmo. Catarina Meloni, meio vitoriosa, meio derrotada, dois dias depois estava em São Paulo. Vladimir Palmeira, um pouco mais vitorioso, pelo menos na questão do diálogo, voltou satisfeito.

A nota

Nem bem passados três dias, uma nota, assinada por três diretores da UNE – Luis Travassos, José Carlos Mata Machado (filho do deputado mineiro Mata Machado, MDB) e Luis Raul Machado -, ia circular por quase todas as escolas do Brasil. Ela denunciava “a tendência entre algumas lideranças estudantis, inclusive de diretores da UNE, de frear o movimento estudantil, diminuindo o avanço da luta contra a ditadura e o imperialismo”. Dizia ainda que o próximo Congresso teria que ser quase público, isto é, todos os estudantes precisam saber quem está lá, devem escolher seus próprios delegados que, por sua vez, defenderão posições discutidas em cada faculdade.

Entre os diretores, a proposta da segunda posição, era bem diferente: comissões e assessorias tratariam da data, local, credenciais, sem que o movimento estudantil tivesse conhecimento disso por “motivos de segurança”.

Condenando isso, dizia por fim a nota dos três da primeira posição (o quarto deles fora preso, em Minas, há pouco):

– Tenta-se substituir o movimento estudantil por comissões.

As lutas estudantis iam continuar, de qualquer modo.

No Rio, logo depois, os estudantes saíram à rua para dialogar, e deram com a polícia. Em Campinas, São Paulo, tomaram a Reitoria. Outra Reitoria, desta vez na capital paulista, na Cidade Universitária, também era ocupada pelos estudantes por algumas horas, liderados por Luis Raul Machado, da UNE, junto com José Dirceu, de uma das UEEs. Na Bahia, todas as faculdades entraram em greve. No Rio, os estudantes estavam escrevendo nos muros da Universidade do Brasil, o reitor saiu na janela e pediu que parassem, pois a verba que usaria para limpar as paredes poderia ser usada para melhor o ensino. E a resposta:

– Essa é a única forma possível de comunicação entre os estudantes e o povo. A imprensa, dominada por interesses contrários aos dos estudantes, não transmite com fidelidade nossas principais reivindicações.

E, em São Paulo, numa passeata de estudantes secundaristas, em que Catarina Meloni tinha falado, outro universitário pediu a palavra:

– Colegas secundaristas. Falou aqui, em nome da UNE, uma oportunista. Ela não é…         E não conseguiu falar mais. Houve uma vaia só. Tentou falar de novo, mais vaias. Ele e alguns outros da segunda posição, estrategicamente distribuídos entre os secundaristas, retiraram-se. Foi um dos melhores dias de Catarina.

– Ficou contente com a Vitória, Catarina?

– Claro. Você viu? A massa está com a gente.

– Catarina, você só faz política estudantil, mais nada?

– É disso que você gosta?

– É.

– Não sobra tempo nem pra namorar?

– Sobra, claro. Afinal, esse trabalho não é tão árduo assim.

– E você tem namorado?

– Não, num dá tempo.

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José Carlos Marão

Autor – José Carlos Marão (nascido em 11 de janeiro de 1941, em São Paulo), começou na imprensa… continuar lendo

Lígia Martins de Almeida

Editora do livro “Realidade Re-Vista”.

Sem o trabalho exaustivo de Ligia Martins de Almeida teria sido muito mais difícil a realização do livro “Realidade Re-Vista”… continuar lendo

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