Estamos em pleno rio

REALIDADE nº15, Julho de 1967

Com pouco movimento, só alguns tripulantes e o prá-la-prá-ca dos estivadores levando carga, o Augusto Montenegro estava, desde a manhã, todo imponente no cais do porto de Belém do Pará. Dos 500 passageiros que deveriam embarcar, já havia chegado o primeiro. Estava lá longe, junto com o guarda:

– Não adianta, Ceará. Passageiro só entra depois das seis da tarde.

– Mas eu preciso entrar antes, você sabe.

O pedido do nordestino, sussurrado com ares confidenciais, não amoleceu o policial, que sugeriu, como única saída, entrar correndo logo depois de abertos os portões. Assim fez Ceará: às seis horas disparou portão adentro, levando sua rede e, dentro da mala, seus secretos instrumentos de trabalho.

No navio, que tem dois salões para os passageiros de terceira classe, Ceará escolheu o de baixo, mais longe dos olhos dos oficiais. E armou a rede perto da pia – higiene era fundamental para suas atividades. Instalado, ficou olhando sua mala e os passageiros que chegavam com as estranhas bagagens de sempre. Eram máquinas de costura, colchões, engradados com animais (macacos, cachorros, galinhas), móveis vários e outras coisas, que sempre enchem os navios do Amazonas.

Quando já eram umas nove horas da noite, o Augusto, que estivera tão quieto à tarde, fervilhava de gente. Cada um com seu lugar garantido, havia certa tranquilidade entre os passageiros e nem o aviso de que a partida fora adiada de 10 da noite para as 4 da manhã abalou nenhum deles. Só Luiza, do primeiro andar da terceira classe, não estava tranquila.

– Firme,  mulher. Não nasce no navio, não. E, se nascer, é de graça.

O único que não estava instalado ainda era Catarino, jovem oficial-de-sapateiro sergipano, mal sucedido nas terras de origem, que ia tentar a sorte em Porto Velho. Catarino não tinha conseguido armar a rede, pois, sem conhecer o navio, tentou primeiro o bar, na primeira classe, e foi expulso. Desceu ao primeiro andar da terceira (segunda não existe e ninguém sabe o motivo), cheio demais. Quando foi descer para o outro, não pode passar. A polícia estava impedindo a passagem, enquanto tratava de retirar uma moça menor que tinha escolhido o Augusto para fugir com seu amor, um soldado de quase dois metros de altura.

Depois disso Catarino conseguiu entrar. Mas estava tudo ocupado também e, não fosse a ajuda de Antônio Araújo, enfermeiro e bom samaritano, ficaria sem lugar. Antônio chamou, conseguiu um vão apertado entre duas redes e assim ficou Catarino, tendo Antônio como seu vizinho pela esquerda, pela direita uma senhora com um filho e, por cima, um japonês velho e magrinho.

Partida: ilha muda de lugar

            Pescada Preta, o comandante assim chamado pela cor da pele muito morena, navegador da costa e não dos rios, tinha assumido o comando do Augusto no dia anterior, para substituir um colega em férias. Às quatro da manhã, em farda de serviço, dava sua primeira ordem ao prático:

– Pois é, vamos pegar esse mundo de água e mato. Prático, pode dar atenção às máquinas.

O prático fez questão de mostrar sua tarimba:

– A viagem pode ser dura, meu comandante. Muita ilha mudou de lugar, no rio, com essa cheia. E é tempo de chuva.

Quando o comandante ia responder, veio o pronto das máquinas. Então ele deu as ordens para desatracação. O Augusto Montenegro trepidou um pouco, e foi saindo, devagar, para enfrentar a Amazônia: a segunda região mais desabitada do mundo (só perde para o deserto de Saara), 5% de todas as terras do mundo, 40% da América do Sul, 20% da água doce de todo o globo, cortada três ou quatro vezes por mês pelos navios do Serviço de Navegação da Amazônia, único transporte barato para as mercadorias e para aquela gente de poucos recursos e muita esperança.

– Vamos pegar os estreitos de Breve hoje à noite, comandante. Se o tempo estiver limpo, dá pra navegar.

O navio já entrando na baia de Marajó, prático e comandante continuam conversando, enquanto na terceira classe, com a trepidação da partida e com o sol já ameaçando nascer, começam a acordar os passageiros. Luiza acordou bem-disposta. Seu filho não deverá nascer antes da chegada à Santarém, uma das principais cidades do Pará.

Catarino, o sergipano, acordou um pouco à força, pois o japonês que tinha armado a rede por cima da sua e resolveu descer e quase caiu sobre ele. Antonio Araújo também acordou:

– Vai a Manaus, sergipano?

-A passagem é só até Manaus. Mas preciso ir a Porto Velho.

– Ué, não entendi.

– O dinheiro só deu para comprar até Manaus. Minha esperança é vender um broche da minha mãe aqui no navio. Senão, não vou ter quem me ajude em Manaus, nem dinheiro para comer. Em Porto velho, tenho um tio.

Confusão: não tem água

Correram bem as coisas na terceira classe, naquele primeiro dia de viagem, até ali pelas seis da manhã, quando já estava o Augusto em plena baia, com velocidade normal – 18 quilômetros por hora –  e bom tempo. A terceira classe tem dois andares, cada um com uma sala onde podem caber, decentemente, umas 50 pessoas, mas cuja lotação oficial é de 200. Cada sala tem quatro pias, dois lavatórios, um para homens e outro para mulheres.

Aconteceu então que Cornélio, passageiro clandestino, resolveu se lavar. Passou por baixo da rede de Ceará, abriu a torneira e não conseguiu segurar um berro, que despertou os 400 passageiros:

– Não tem água!

Mesmo que muitos não tivessem sede ou intenções de se lavar, todo mundo ficou revoltado. Quis cada um verificar por si mesmo a falta de água, lamentaram todos, choraram as crianças, até que alguém gritou:

– Vamos buscar água na primeira!

Foi falar e fazer. Toda aquela gente, típica da região – mistura de descendentes de portugueses e índios, de olhos puxados, retirantes nordestinos, japoneses – invadiu a primeira classe e tomou conta dos lavatórios. Correu a tripulação, fez o povo voltar, e correram os maquinistas, para consertar os encanamentos. Ali pelas oito da manhã   chegou a água, estavam todos calmos e Ceará já tinha aberto sua preciosa mala. Vendia bolos, cafezinho, queijo e outras coisas. Dizem as más línguas que cachaça também. Mas é mentira. É que Ceará, desempregado, é obrigado a fazer essas vendas quando viaja, para pagar a passagem e a comida dos cinco filhos.

Prosseguiu então tranquilo o Augusto Montenegro. Os passageiros procurando se conhecer, falando de seus planos, a maioria querendo ficar na Amazônia e Antônio Araújo aconselhando Catarino:

– Dizem que no Amazonas quem quer ficar rico, fica. Mas olha uma coisa, eu ainda não vi brasileiro recém-chegado fazer fortuna. Porque brasileiro não sabe trabalhar. Americano é que sabe…

– Tem muito americano aqui?

– Chi, rapaz. Tem até tribo de índio com menino loiro.

Nisso houve uma barulheira. Uns 10 ou 15 barquinhos encostaram no navio e seus ocupantes subiram carregados de cestas coloridas, frutas, cadeiras, peças trabalhadas em borracha. Era a chegada ao porto de Coca, onde os caboclos aproveitam a chegada dos navios para vender seu pobre artesanato. Araújo aproveitou:

– Tá vendo? Enquanto brasileiro fica fazendo cestinha colorida, ou então só sabe catar as coisas no mato – borracha, castanha, cacau – estrangeiro vai procurar minério embaixo da terra. É isso que o Amazonas tem de verdade, prá deixar todo mundo rico.

Cidadezinha: todo mundo se conhece

Estando o Augusto Montenegro no seu terceiro dia de viagem, tendo já passado por Corcovado e |Gurupá, portos onde parou, ficaram os passageiros muito à vontade uns com os outros, todo mundo conhecendo todo mundo, todo mundo falando com e de todo mundo, como em qualquer cidadezinha pequena. Dois grupos jogavam buraco, um no bar da primeira, que fica no andar mais alto do navio, com exceção do andar da cabine de comando. O outro grupo jogava na sala de fumar, no mesmo nível do bar, na proa. Nesta sala também jogavam dona Maria, senhora belenense de seus 40 anos, seu Nami, comerciante sírio levando mercadorias para Porto Velho, Maurício e Francisco, ambos se dizendo turistas, fazendo um pif-paf amigo, dinheiro correndo.

Os demais conversavam em voz baixa, liam ou admiravam a paisagem do inferno verde e sua imensidão de água, como convém a bons passageiros de primeira classe, estabelecendo assim uma calma que só era quebrada por Catarino, tentando vender o broche de sua velha mãe.

Na terceira, a calma era quebrada por outro, Dinadiel – que gritava com Joana Santa, sua mulher. Ele vinha resmungando durante três noite e dois dias. Amanhecendo segunda-feira, Joana Santa procurou um tripulante:

– Olha, o Dinadiel pode ter um acesso. Ele é meio louco, sabe?

E o acesso veio. Dinadiel pegou no colo Dinael, a filha do casal, e correu para jogá-la no rio. Mas correu também o mestre do navio, e derrubou o louco com um golpe de judô. Confusão, gritos, entram outros passageiros, ajudam a segurar Dinadiel que, finalmente, vai preso para o porão. Dinadiel, sem dinheiro, estava tentando a vida pelo Amazonas, e não tinha conseguido nada.

Mas o dia que tão calmo começou, ia ser agitado também na primeira classe. Primeiro, uma passageira teve que começar seu diário de viagem registrando o acontecimento desagradável: roubaram 70 contos do seu camarote.

Depois, seu Nami e Dona Maria também descobriram que estavam sendo roubados por Maurício e Francisco no “inocente” pif-paf:

– Aquele seu amigo ali fica em pé, vê as minhas cartas e dá sinal!;

– Imagine seu Nami. O Bacebera nem sabe jogar.

Conversa daqui, conversa dali, entram velhos conhecidos e comprova-se a trapaça. Só não ficam tão impopulares os trapaceiros porque Maurício, muito habilmente, deslindou o caso do roubo dos 70 contos, apontando como ladra Eunice-Vaca-Mansa, que tinha descido em Gurupá e que ele conhecia de frequentar os mesmos lugares que ela.

Pouco mais aconteceu nesse dia, além da descoberta de Cornélio, o clandestino, obrigado a descer no porto de Monte Alegre, e a expulsão do bar da primeira classe de Nadja, passageira lá-de-baixo que lia a mão por mil cruzeiros e fazia-se passar por cigana, sendo síria. Ao ser expulsa, ainda fez uma proposta ao taifeiro Saraiva:

– Olha, eu já ganhei muito dinheiro e já dei vida mansa para muito vagabundo. Eu vou tentar a vida em Santarém, e vou ficar rica. Você não quer vir comigo?

Alegria: Ivan nasceu de graça

– João! Tou com a dor, João! É hoje. João Pereira sentiu que era verdade. À meia-noite conseguiu sair da terceira e procurou um tripulante. À meia-noite e quinze, Manuel, o enfermeiro de bordo, enfermeiro da FEB, entrou na terceira classe, olhou Luiza e levou a moça para a enfermaria. Muito calmo, comentou no caminho:

– Toda viagem acontece isso. Dá sorte nascer a bordo.

A uma hora da manhã, nasceu, sem despesas de parto, o filho de João e Luiza, que se chamou Ivan Augusto, homenagem ao navio.

E, assim, na noite seguinte, terça-feira, o Augusto Montenegro, com um passageiro a mais e todo iluminado, tocou os apitos convencionais anunciando sua chegada a Santarém, na desembocadura do Tapajós, o rio das águas verdes, muito importante pelo garimpo e pela borracha, em cujas margens foi feita a famosa concessão da Fordilândia.

O prático e o comandante cuidaram da atracação. O imediato desceu para controlar a descarga, que começaria naquela hora mesmo e avisou:

– Parada em Santarém, um dia e uma noite!

Mesmo sendo noite, a maioria dos passageiros desceu. Entre os que ficaram, havia um grupo de estrangeiros: duas moças inglesas, um canadense, dois coreanos e dois peruanos, todos viajando sem dinheiro, com passagens de terceira, só pela aventura. Na primeira classe havia dois outros, um francês e um austríaco.

Aconteceu que as moças e o coreano, além de não saber que era necessário trazer rede, consideraram a terceira classe muito promíscua, e vinham dormindo nos sofás do salão de fumar. Sendo isto contra os regulamentos, resolveu a tripulação que ninguém mais dormiria naquela sala e lá ficaram, dispostos a “tomá-la”. Muita conversa, intervenções gerais e os oficiais provocaram uma cisão geral nos amotinados, conseguindo um camarote para as moças.

– Os homens que se arrumem.

O dia passado em Santarém cada um gastou como quis… Catarino tentando vender seu broche, as mulheres indo ao cabeleireiro, a tripulação trabalhando e Guilherme, um pernambucano muito prosa, resolvendo nadar um pouquinho no rio Tapajós. Convidou todas as moças, avisou que nadava muito bem e lá foi ele.

Vinte minutos depois era trazido para terra, pelos exímios nadadores locais, sem querer falar com ninguém.

Alguns passageiros embarcaram em Santarém, inclusive Rosa, moça muito bonita que chamou a atenção de dois companheiros, Anísio e Jorge:

– Foi pra mim que ela olhou.

– Não, foi pra mim.

– Foi pra nós dois. Vamos disputar no jogo de damas quem vai falar com ela.

Temporal: é preciso conhecer o rio

Saiude Santarém, muito calmo e com bom tempo, o Augusto Montenegro,rumo a Alenquer, próxima escala. Várias pessoas jogavam, à noite, no bar, quando começou uma ventania. Todo mundo correu para os camarotes. O céu se iluminava. O navio jogou um pouco. Fez frio. Lá em cima, na cabina do comando, o prático estava normal:

– Aqui no Amazonas, a gente tem de conhecer o rio. Para quem conhece o rio, tempo ruim não é problema.

A navegação lá é feita pelo canal do rio, pelos paranás e furos, que ajudam muito a cortar caminho. Paranás são rios de tamanho médio ou pequeno, que, no Sul, seriam grandes. Furos são menores ainda. E o Augusto estava em pleno Paraná de Alenquer, que o prático conhecia bem.

Logo depois do biguá, nome da refeição dos marujos à meia-noite, tocou o sino de aviso. Subiu correndo o imediato. O comandante acordou. O vento começou a jogar o navio. O canal do Paraná era muito estreito e qualquer desvio poderia fazê-lo encalhar na areia.

De repente, o canadense e um dos coreanos, que dormiam no meio das caixas de cerveja, no bar, acordaram com pedaços de árvore pela cara, passarinhos assustados e um camaleão. O navio tinha se desgovernado todo e a popa ido de encontro à margem cheia de árvores, quebrando toda a guarda do andar da primeira classe, acordando os dois estrangeiros, muitas gente na terceira, que é toda aberta, e até recebendo um camaleão como passageiro.

Resolveu-se que o navio ficar fundeado ali, até o tempo melhorar. E foram os tripulantes examinar os estragos. Viram que nada houve nos dois andares da terceira. Na primeira viram que uma viga de sustentação e boa parte da grade estavam quebradas.

– Ainda bem que foi só isso. Amanhã o Itamar conserta.

– Pode mandar o coreano e o canadense deitar de novo.

– Eu mando, mas escuta uma coisa. Quem são aqueles outros dois, que também estão acordados e podiam muito bem-estar no camarote, dormindo?

— Ah, é que eles têm muita rivalidade nesse jogo de damas.

Impaciência: era atraso demais

Na sexta-feira, com uma semana de viagem, os passageiros já andavam nervosos com os atrasos. Já nem se divertiam mais com os meninos que, quando o navio passava pelos paranás mais estreitos, vinham com suas canoinhas, brincar na marola do navio e gritar um grito que parecia de índio, pela cadência:

– Me dá um pão aí!

Catarino então tinha irritado quase todos passageiros, tentando vender seu broche. O Augusto deveria chegar a Manaus no domingo, ele estava com pressa de vender. Rosa continuava olhando para Anísio e Jorge, que não se resolviam nas damas. Itamar, o primeiro maquinista, consertou o navio e, assim, o Augusto Montenegro chegou a Parintins.

A parada ia ser rápida, mas mesmo assim três homens desceram para tomar umas cachaças. Quando o navio apitou, resolveram comprar a garrafa, mas acabaram tendo de alcançar o Augusto a nado, pois quando chegaram ao cais, ele já estava a uns dez metros de distância.

Já Almino e Nazaré, casal em mudança para Manaus, onde pretendiam tentar nova vida, tiveram de pagar um barqueiro para levá-los até o navio, visto que também chegaram atrasados e não poderiam nadar, coma mudança e os onze filhos. Mas foram bem recebidos:

– Então, de mudança com a família?

– É, tentar a construção em Manaus. Aqui ninguém faz casa.

– Conhece Manaus, tem onde ficar?

– Conheço não. Mas me falaram de uma pensão barata, de uma dona Maria.

– O senhor tem o endereço?

– Tenho não. Mas será que a gente não acha logo?

Alimentação: comandante em apuros

No sábado à tarde, Anísio e Jorge trocavam um sério diálogo:

– Bom, com essa eu vou namorar a moça.

– Não vai não senhor, não vale porque aquele cara deu palpite.

– Mas nós jogamos mais de 80 partidas e não decidimos ainda.

– E vamos jogar mais três.

Nisso foram interrompidos pela voz de dona Maria, a do pif-paf, que tinha ido tomar chá da tarde e não estava muito satisfeita:

– Eu vou falar com o comissário. Eu vou falar com o comandante. Imagine, o pão sem sal. Aliás, toda a comida está sem sal.

Os dois homens interromperam a discussão e ajuntaram:

– Isso mesmo, a comida aqui está muito ruim. Onde já se viu, primeira classe comer assim, uma comida feita com desprezo.

Outro que passava ajudou:

– Pois concordo e até aviso. Na próxima vez eu vou de terceira classe. Lá, pelo menos, há um pouco de liberdade para escolher a hora de comer. Se a gente quer comer cedo, entra logo na fila. Aqui, quem não chega às onze horas, não almoça. Quem não chega às seis, não janta.

Bastante animada, com todo o apoio, lá foi dona Maria, à cabina do comando.  O bom Pescada Preta, não muito habituado a coisas assim, disse que ia cuidar do caso, que ela tinha toda razão. Muito aplaudida por sua enérgica atitude, desceu Dona Maria no porto de Itacoatiara e comprou um tambaqui, peixe que pretendia ela mesma preparar, na cozinha do navio.

Anísio e Jorge só depois do jantar conseguiram voltar ao tabuleiro de damas, mas, mesmo assim, foram logo interrompidos pela mesma dona Maria, que vinha convidá-los para o tambaqui, em seu camarote, às nove da noite. E promoveu ela uma pequena festinha, convidando as pessoas gradas do navio, em represália à má cozinha de bordo.

O peixe foi preparado na cozinha do navio, pelos cozinheiros do navio, fato que ninguém se lembrou de observar. E ali pelas nove da noite estava todos comendo o peixe, segundo o costume da população amazônica, de tradição indígena: sem talheres, com a mão e com farinha, que substitui o beiju, dos índios.

Rivalidade: corrida até Manaus

Na manhã de domingo, Catarino resolveu fazer a última tentativa, pois ao meio-dia estaria em Manaus. Procurou um tripulante:

– Moço ou preciso ir até Porto Velho, mas a passagem só dá até Manaus. Eu tenho um broche para vender, sabe. Não dá para pagar a passagem com ele?

– Pagar com ele não dá, mas tem gente que compra.

– Já falei com todo mundo.

– Então fala com aquele marujo ali. Ele tem namorada em Manaus.

Enquanto Catarino tentava de novo sua venda, no navio havia quase uma euforia, por ser domingo e estar anunciada com muita segurança a hora da chegada. Último dia da viagem.

A presença de gente, nas margens, já começava a ficar mais constante. De 500 em 500 metros, mais ou menos, havia uma casa de caboclo, onde sempre a família sai para ver o navio passar.

Jorge, afinal, conformou-se de perder a namorada e Anísio levantou triunfante, para procurar Rosa, mas não encontrou:

– Será que essa mulher vai ficar enfiada no camarote até Manaus?

O maquinista Itamar, que estava com gripe desde o conserto da popa do navio, conversava, deitado em seu camarote, com um colega, lamentando a gripe que o impediria de passear em Manaus. E falava também de outras gripes.

– Uma vez tive de mergulhar três dias inteiros para limpar a hélice do navio, também peguei uma gripe assim, de jogar no chão. Se não fosse por toda essa gente, que precisa terminar a viagem, eu não trabalharia fora do meu turno. Mas essa gente precisa.

E foi mais ou menos por essa hora que vieram avisar: o Lauro Sodré, navio igualzinho ao Augusto Montenegroestava chegando de Iquitos, no Peru, e vinha alcançando, naquela entrada de Manaus, o Augusto, ambos já no rio Negro. Itamar não teve dúvidas. Levantou, vestiu a farda, esqueceu a gripe e desceu às máquinas. Mandou dar toda a força.

– Se o Lauro Sodré pegar a gente, é só por causa dessa porcaria cheia de carga que estamos levando. E ele vem vazio, olha!

A torcida foi grande. Os dois navios deram tudo. Andaram emparelhados, por alguns quilômetros, os passageiros gritando e torcendo, como em qualquer corrida. Se houve apostas, ninguém ficou sabendo. As máquinas trepidavam e cada embarcação jogava na marola da outra. Mas, para tristeza dos passageiros do Augusto, o Lauro Sodré foi passando.  Primeiro, devagar. Depois deslanchou e sumiu da vista na primeira curva do rio.

Chegada: nasce um garimpo

Catarino entrou triunfante na terceira classe, sorrindo.

– Vendeu?

– Vendi.

– Vai ser sapateiro mesmo em Porto Velho?

– Ia ser. Agora vou ser garimpeiro. Estou vendo que quase ninguém usa sapato aqui. Que lucro eu vou ter?

A maioria da terceira classe tratava de desarmar suas redes, arrumar sua bagagem. O navio ia ficar quase vazio, mas outros iam subir, outros que já tinham tentado a sorte em Manaus e iam agora tentar em outro lugar qualquer. O navio deixaria esperanças e receberia esperanças na sua terceira classe.

Lá em cima, na primeira, as malas já estavam todas fechadas. Começaram a aparecer no convés as primeiras mulheres, que, misteriosamente, estiveram a manhã toda trancadas em seus camarotes. As que apareceram, estavam com seus vestidos de domingo e todas penteadas, pois havia a bordo uma moça que tinha curso de cabeleireira.

– Só a Rosa não aparece. Será que se jogou na água?

Anísio não participava muito da euforia geral.

Augusto Montenegro já estava bem próximo de Manaus. A todo instante cruzava com canoas de remo, pequenas embarcações a motor, barcos que eram instrumento de trabalho e residência de muitas famílias. Navios maiores também já apareciam e, ao longe, podia-se ver uma grande embarcação da Marinha de Guerra. Pois no Amazonas navegam embarcações de qualquer calado. A tripulação, muito cuidadosamente, também se preparou para a chegada. Todos vestiam a farda branca, de gala. Menos o segundo maquinista:

– Não sou moça.

Pescada Preta, todo elegante, olhou Manaus de binóculo. Identificou os navios do porto, todos seus velhos companheiros, os tripulantes, até dos tempos em que ele era segundo-piloto nos petroleiros da FRONAP, linha dos Estados Unidos. Já se podia ver a cidade, os prédios, os restos da extinta cidade flutuante, cujas casas subiam ou baixavam com o rio. Os passageiros juntaram-se todos a estibordo, pois Manaus estava do lado direito e todos queriam ver.

Pescada Pretacomandou, com toda classe, a atracação. Ele e os práticos apareceram na ponte de comando e foram vistos por todo o povo que esperava no porto.

Os primeiros a desembarcar foram os da terceira. Ceará, que ia descer em Manaus, resolveu continuar viagem, pois o preço da passaram era a cama e comida mais barata que poderia encontrar no Amazonas. Além disso, o negócio estava indo bem. Cada um com suas trouxinhas humildes, foram todos descendo. Almino, sua mulher Nazaré e os onze filhos, um de colo, saíram perguntando onde era a pensão de dona Maria, lugar em que poderiam ficar por preço barato.

Na terceira, os poucos que iam continuar se despediam dos amigos.

Só nessa hora, Anísio localizou a moça:

– Rosa, eu quero falar com você.

– Agora? Já é tarde. Está vendo aquele rapaz lá no cais, de chapéu? É o meu marido.

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José Carlos Marão

Autor – José Carlos Marão (nascido em 11 de janeiro de 1941, em São Paulo), começou na imprensa… continuar lendo

Lígia Martins de Almeida

Editora do livro “Realidade Re-Vista”.

Sem o trabalho exaustivo de Ligia Martins de Almeida teria sido muito mais difícil a realização do livro “Realidade Re-Vista”… continuar lendo

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