REALIDADE nº 27, Junho de 1968
Grandes curas houve mesmo, pelo dizer de boca em boca que correu por aqueles morros de Atibaia. Até do Rio de Janeiro veio gente, procurar padre Antonio Rosa, humilde sitiante, mas bom curador e milagreiro, por força de abençoadas ervas e da fé em Santa Isabel, a santinha, no falar de seu devoto. Esse tanto-contar-de-curas chegou logo aos jornais e à televisão, que mais ainda contaram e mais gente levaram para o sítio do Padre Rosa, em Atibaia, cidade e estância do Estado de São Paulo.
Acabou indo também, com mulher e dois filhos, Seu Manuel, português passado dos trinta, comerciante estabelecido. Nem bem chegado, encontrou a fila já muito grande, com suas setecentas pessoas, mais ou menos. Umas duzentas que haviam passado a noite no sítio mesmo, dormindo pelas gramas, e outras que foram aparecendo mal o sol nascia. E fora da fila circulava quase outro tanto de pessoas, motoristas, comerciantes, curiosos, tudo gente bem-humorada, muito contadeira de casos e milagres.
Seu Manuel, a voz meio medrosa, chegou num grupo desses:
– Ai, meu Deus, como vai o meu filhinho de dez anos ficar na fila, se desde que nasceu não pode andar?
– Ah, é paralítico? Então não tem fila. Às 3 horas o padre atende tudo quanto é paralítico. É só ficar sentado lá na escada da capela.
Seu Manuel pegou no colo o mais velho, sua mulher carregou o outro, ainda novinho de uns dois anos, e explicou num meio sorriso.
– Ainda é de colo, mas trouxemos também. Já tem as perninhas moles, o pobrezito.
Caminharam uns 100 metros a pé, até a escada anunciada, passando pelas barracas de ervas, garapa, café e Coca-Cola, especialmente abertas no meio do sítio depois de corrida a fama de curador do Padre Rosa. Encontraram a escada já cheia – débeis mentais, acidentados, velhas histéricas, aleijados – mas, no meio disso, alguns sorrisos de compreensão. Olharam uma velha não paralítica, que estava só aproveitando a sombra da capela, e um deles arriscou:
– Ele cura mesmo?
– Ah, ontem uma menininha que nunca tinha andado saiu andando. Eu não vi, mas minha amiga, que já foi embora, viu. Todo mundo chorou.
Alguns em volta de benzem, outros abaixam a cabeça, rezam suas esperanças e sempre também se fala:
– É um santo.
– Deus ajude meus dois filhinhos.
– Eles vão sair andando, o senhor vai ver.
O português olha o povo em volta, ameaça chorar, abaixa os olhos.
Uma chegada
Enquanto Seu Manuel ficou ali pela escada, no alto, atrás da capela, um pouco à esquerda, Seu Gomes, de dentro do balcão de sua barraca de santinhos e imagens, explica a uma senhora curiosa:
– Minha senhora, eu já vi coisas de chorar, aqui.
Ar compungido, dos dois. Continua:
– Um menino que se arrastava saiu andando. Um moço de 27 anos morreu de emoção, quando viu sair andando uma moça que entrou carregada. Coisas de chorar, por aqui.
Seu Gomes e o sócio Darci chegaram por lá logo após as primeiras notícias de cura, com os santos, quadros, garrafas de plástico para levar água que o padre benze, chapéus, chaveiros, terços. Com eles, chegaram outros também empenhados em abastecer com imagens a fé do povo. Todos eles conhecedores de muitos milagres do Padre Antonio e também bons divulgadores.
As conversas iam assim, na escada, na barraca do Seu Gomes, nas barracas de café do Seu Zequinha e do Seu Benedito, estes dois os primeiros a saber do padre e também por ali residentes, quando uma voz forte dominou tudo:
– Meus ermãos! Silêncio!
E fez-se o silêncio, mas não muito.
– É o padre.
– Ele vai falar.
– Parece que ele está bravo.
Na porta da capelinha, não a dos paralíticos, na outra, quase em frente, em plano inferior, aparece uma figura de altura média, batina preta, idade ali pelos cinquenta.
– Meus ermãos! Eu preciso de um escrivão. Um profissional. Não adianta aparecer quem não seja profissional de escrivão.
Alguns se ofereceram, o povo comenta:
– Que será que houve?
Um motorista de táxi, também beneficiário dos milagres, pois nunca antes teve tanto trabalho, explica:
– Não é nada, não. O padre só quer uma pessoa para tomar nota das receitas, diz que não tem tempo de escrever todas.
– Ou não sabe?
Mas os comentários terminam, pois outra coisa de chamar atenção acontece. Todo mundo olha para um Galaxie que vem chegando, o que por si só é coisa muito corriqueira ali, onde, no meio dos duzentos ou trezentos carros estacionados, há até um Cadillac último tipo com motorista. Mas o que chama atenção é uma moça de uns vinte anos, cabelo preto, olho pintado, dirigindo. Do lado dela, um rapaz cabeludo, bigode preto de boa espessura e presença. Vão estacionar lá atrás da capela onde o padre atende. Alguém carrega o rapaz no colo, até a escada dos paralíticos. Outro leva uma cadeira de rodas e ele se instala.
O povo não perguntou nada, poucos chegaram perto. Ninguém sabe como começou o falatório.
– É o irmão do Roberto Carlos.
– Não, é filho de um médico.
– Diz que, se curar, ele deixa o carro ai, pro padre.
Virou o caso de provável cura mais comentado do dia.
Umas consultas
Quem vai procurar o Pedro Rosa informa-se em Atibaia. Anda uns poucos quilômetros de estrada de terra, até chegar num campo de futebol, onde estão estacionados alguns carros. Entra à direita e roda uns 500 metros, até encontrar, à direita, uma barraca bem construída em madeira nova, com um também novo letreiro de Coca-Cola. Aí, vira à esquerda. São os 190 metros que faltam até as capelas, os mesmos que seu Manuel Português desceu com os filhos.
À direita desse caminho está a casa do bispo. Uma casa grande, desocupada, onde morou antes um bispo chileno que tinha se desligado da Igreja Católica Romana, mas foi novamente aceito pelo Papa e hoje não quer mais nada com o Padre Rosa. Em frente da casa há um pátio calçado, retangular, talvez uns 7 metros por 6. Na margem do pátio em frente à casa está a capela onde o padre atende. À esquerda está uma estrada larga e, acima dela, a outra capela. É onde os paralíticos esperam.
A fila sai da porta da capela das consultas, dá a volta na casa do bispo e estende-se por onde der e for necessário. O padre atende trinta de cada vez e os primeiros oitenta sempre se comprimem, no pátio. Nesse bolo de gente, um rapaz de Santo André explica:
– Os médicos operam e matam. Diz que tem motivo, não sei, mas matam. É por isso que Deus, de vez em quando, manda um homem como esse, como o Arigó e outros.
– Mas uma receita do Arigó dá mais de 100 contos.
– É, mas ele não cobra nada, nem aceita presentes.
Era uma moça falando. No fim, viu-se pelos comentários que quase todos já tinham ido a outros curadores. Nisso, a conversa foi interrompida pela voz baixa, respeitosa e compungida do padre, pedindo:
– Mais trinta pessoas.
Os trinta vão entrando, um soldado na porta conta as pessoas, quando a delegacia manda soldados. Se não, um dos vendedores de santinho ajuda. Os clientes passam pela pequena capela, em cujo altar há uma infinidade de notas, desde mil até 10 mil cruzeiros. Alguns deixam mais algumas.
Lá dentro, juntos os trinta, tem mais conversa:
– Meus ermãos! A Higiene teve aqui hoje. Ele quer que haja mitórios públicos. E tem razão. Como é que toda essa gente aí pode ficar sem mitórios? É para vocês mesmo. Por isso, ermãos, eu peço uma ajuda de 10 cruzeiros novos, para quem puder dar. Quem não puder, dá o que pode.
Explica que não dá para anotar o nome e a doação de cada um, mas vai gravar, para que todos fiquem sempre lembrados. Pega um microfone, de um velho amplificador quebrado, sem gravador, e começa a cantar:
– Lapa, 10 cruzeiros; Espírito Santo, 20 cruzeiros; Avaré, 10 cruzeiros: Rio Grande do Sul, 5 cruzeiros; Taubaté, 10 cruzeiros; Bairro do Limão…humm… bom, também é dinheiro, Limão, 1 centavo.
Umas receitas
Terminada a coleta, olha, olhar de quem se sente muito seguro.
– A senhora.
– Preciso dizer o que eu tenho, padre?
– Claro! Com tanta gente aí para atender, acha que eu vou ficar fazendo testes em todo mundo?
– Bom, padre, acho que é do fígado.
– Chá de carqueja em jejum. Arruda, alecrim, guiné, às 10 horas. Chá de suínã à noite. Trinta dias.
– Mas padre, eu tenho uma dor aqui do lado.
– Não precisa me dizer! Eu sei que a senhora tem. Banhos com mentrasto, cinza e sal à noite.
Um escriba, também cliente colhido ao acaso por ser alfabetizado, toma nota, depressa e entrega a receita. Quem já foi consultado sai por uma porta dos fundos.
– O senhor. Chá de arruda, alecrim, guiné, às 14 horas. Chá de suína às 10 da manhã. O senhor anda muito nervoso. Tome isto que vai melhorar. São trinta dias.
– Mas, seu padre, eu bebo, sabe? Eu queria parar.
– O senhor é capaz de fazer um juramento? Mas olhe, um juramento só se deve fazer quando vai cumprir.
Ameaça alguns castigos para juramentos quebrados. Pega uma cruz e faz o moço repetir uma série de palavras.
Depois, olha a clientela. Escolhe um rapaz, com jeito de atleta, jogador de futebol. Sorri o sorriso de quem sabe muito, fala, tentando fazer um ar de adivinho:
– O senhor aí. O senhor tem uma cicatriz na perna, não tem?
– Han, eu ? Bão, é…
– Não tem? Tem ou não tem? Se não tem, fale!
Os gritos deixam o rapaz com um pouco de medo.
O padre aproveita a indecisão:
– O meu raio X, aqui da cabeça, mostrou que o senhor tem uma cicatriz na perna. Pode mostar, quero que todo mundo veja como é o raio X do Padre Antonio, vamos.
– É um pouco pra cima.
– Então é isso mesmo. Levante a calça e mostre!
– Em vez de levantar a calça, o rapaz começou a soltar a cinta. O padre viu, emendou:
– Bom, se é assim, não precisa mostrar. Todo mundo já sabe que a cicatriz está aí, na sua coxa.
– Não tem importância não, padre. Dá pra mostrar sim.
E o moço, já desinibido, mostrou uma cicatriz no abdome, mais ou menos onde ficam as cicatrizes de apendicite operada.
Umas conversas
Fora, sol de quase 11 horas, o movimento continua. Os comerciantes de santinhos, que todas as noites dormem por ali mesmo, vão pegar o almoço lá em cima, na barraca bonita com o letreiro da Coca-Cola. Barraca que foi armada depois da estrada, fora do terreno do padre, pois se diz por lá que dentro do sítio só podem trabalhar os primos e irmãos do milagreiro Padre Rosa.
O almoço custa 3 cruzeiros novos: arroz, bife, tomate, feijão, sortido no prato feito. É também a única barraca com bebida gelada.
Noutras barracas, bem ao lado da casa onde mora o milagreiro (à esquerda da estradinha que leva à casa do bispo, na mesma altura), há pedras de gelo para misturar nos refrigerantes, frituras, bolinhos, café. São donos dela o genro e as duas filhas do padre.
À medida que, lá embaixo, vão saindo os consultantes, os motoristas gritam, numa concorrência que parece a da saída de futebol:
– Lotação para Atibaia, 2 mil.
– Para São Paulo, mais um lugar.
– Faltam dois para Atibaia.
Na escada dos paralíticos, algumas pessoas rezam. Na fila, as pessoas começam a comer. Maçãs, laranjas ou melancia, compradas na Kombi de frutas, que todo dia vem de Atibaia. Pratos de comida das barracas ou trazidas de casa. Outros comem dentro dos automóveis. E, para outras premências orgânicas, há matos bem cerrados por ali.
Lá dentro, consultas:
– Padre, eu queria engordar.
– Água de pau de bananeira nanica, à noite.
– Padre, minha filha vai ficar boa?
– Ela já saiu? Então eu vou falar.
O ar de preocupação da mãe encoraja o raio X:
– Há quanto tempo ela está com esse câncer no estômago?
– A chapa deu no pulmão, padre.
– Não! Eu sei! No pulmão ela só tem uma vibração. O meu raio X viu.
Seu Manuel, lá fora, traz comida para o menino na cadeira. O menino sorri, confiante. Vai andar. O rapaz do Galaxie agora com o olhar um pouco irônico, mas não sem esperança, é carregado para o carro, onde certamente vai comer também. O povo olha e comenta.
Umas visitas
De repente, sai de dentro da capela o padre, puxando pelo braço um mulato alto:
– Meus ermãos! Esse moço não enxergava. Agora ele vê. O que é aquilo ali, na mão daquela dona?
– É uma garrafa.
– Uma garrafa ou um garrafão?
O mulato, assustado, confirma tudo. Um motorista comenta:
– Mas esse cara passou a noite aqui, eu também. Ele enxergava, só dizia que tinha a vista um pouco embaçada.
Chega a hora da benção do meio-dia. O padre, que nessa hora também tira 20 minutos para almoçar, sobe no teto da casa do bispo. O teto é uma laje plana, sem telhas. O povo sai da fila, se junta no pátio. O padre faz um discurso. Alguns comerciantes de santinhos são os primeiros a se ajoelhar, de mãos postas. O povo imita, reza e crê. Antonio Rosa pede que pensem nos que estão nos hospitais, etc. E benze, jogando a água com gesto de quem joga uma pedra.
O borburinho volta, cada um vai procurar seu lugar, a ordem na fila é respeitada. Nem dois minutos depois, o padre está lá em cima da casa, de novo. Do seu lado estão uma velha chorando e um rapaz de dezoito anos, também chorando.
– Meus ermãos! Esse moço tava trevado pela pilepsia. Na hora da benção, graças à santinha, ele foi curado. Olhem aí, está em pé, direito.
Um dos vendedores de santinhos aplaude e grita:
–Viva Santa Isabel!
O povo responde ao viva, alguns choram, mulheres caem de joelhos, rezando. Os vendedores de santinhos começam a espalhar:
– Ele não andava direito.
–Andava como um macaco.
– Era todo torto.
Os vizinhos perguntam para a mãe do curado:
– Que que aconteceu?
– Foi curado?
– Graças a Santa Isabel. O padre deu a benção, ele começou a chorar.
– Mas o que ele tinha?
– Epilepsia.
–Mas andava torto mesmo?
– Não, andar sempre andou direito.
Informação que ficou apenas para os privilegiados vizinhos de fila que mesmo assim criticaram o mal-agradecimento dessa mãe que, depois de conseguir as graças, negava os anteriores defeitos do filho.
Uns convites
Logo depois do almoço, apareceu um Aero-Willis com seis pessoas. Um padre, de barba branca, ar de santo. Um senhor de seus quarenta anos, muito semelhante a um guarda-costas. Mais dois, como ele. Um motorista, o perfeito sacristão. E um outro, com clergyman cinza e vermelho, dos bispos, cara bem suada e vermelha, gordo, barba sem fazer. Desceram todos, o bispo foi para uma sombra e o padre barbado foi procurar o Padre Antonio.
– Um príncipe da Igreja quer falar com o senhor.
– Um momento. Chá de primavera, às 10 horas. Trinta dias. Pois não?
– O bispo Dom Luigi Mascolo, da Igreja Católica Brasileira, veio fazer uma visita para o senhor.
Padre Antonio interrompeu as consultas, foi para sua casa, onde atendeu o bispo. Da conversa ninguém soube. Mas à noite, na hora da outra benção, ele diria:
– Santa Isabel concedeu hoje para nós mais uma graça. Padre Antonio subiu mais um degrau na Igreja.
Para entender algumas coisas como essas, seria preciso saber um pouco da vida de Antonio Rosa, ou Antonio da Costa Vicente, nascido na Lapa, em São Paulo. Quando ainda era menino, encontrou um velho muito mal, num ranchinho de sapé. No outro dia, voltou lá para ver e o velho estava são, fazendo café e agradecendo o chá de arruda que o menino lhe dera no dia anterior. O menino ficou moço, casou, teve duas filhas, era borracheiro, mas continuava com a irresistível vocação para curar pessoas. Até que desistiu da primeira profissão:
– Escolhi um lugar para fazer bem à humanidade, a Rua Goiás, em São Caetano.
De lá, não se sabe bem quando, nem como, foi para Atibaia, no sítio onde tinha parte, por herança que ainda está em inventário. Cerca de quinze anos atrás, foi preso, por prática ilegal da medicina. Cumpriu três meses de cadeia, em Nazaré Paulista.
Mais ou menos por essa época, bom puxador de votos, apareceu vestindo a batina preta e livre da cadeia, dizem que por influência de políticos. A batina era por ser irmão leigo da Ordem de Santo André, fundada por um bispo católico, que então era dissidente de Roma.
Adotou o título de padre, sem ser padre.
A graça que o Padre Antonio Rosa anunciou no dia da visita do Aero-Willis seria, por dedução de conhecidos seus, a sua ordenação como padre da Igreja Católica Brasileira. Em troca, construiriam juntos, ele e o bispo, um grande templo nos terrenos ali perto do sítio.
Nos dias seguintes, na hora de pedir dinheiro, o padre diria:
– É para vocês mesmos, ermãos. É para construir um grande templo naquele campo de futebol, lá em cima.
E Padre Antonio tinha comprado, antes, uma área de terra vizinha ao sítio. A escritura foi passada na presença de todos os fiéis, com discurso do padre. Os vendedores assinaram com o dedo polegar, receberam 1.000 cruzeiros novos de entrada e mais três promissórias de 1.000 cada uma.
Padre Antonio comprou as terras em seu nome, inspirado por outra visita que tinha recebido, de representantes da Igreja ABCD, também paracatólica. Isso criou alguns problemas com a Igreja Católica Apostólica Brasileira (ICAB).
Até que num domingo, dia 21 de abril, esteve com a Igreja ABCD. Ele seria padre, mas teria que atender lá no ABCD (Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema), e recolher ali as ofertas. Voltou aos católicos brasileiros, na Vila Formosa, em São Paulo, onde exploram a imagem de Santo Antonio do Caritigiró, que dizem também muito milagroso. O padre ficaria em Atibaia, mas todas as propriedades deveriam estar no nome da Igreja Católica Apostólica Brasileira.
Na segunda-feira, Irmão Antonio Rosa, irmão e não mais padre, apareceu num programa de televisão, denunciou veladamente os bispos e anunciou a fundação de sua própria igreja.
Mas isso foi alguns dias depois desse da visita de Dom Luigi Mascolo, no mesmo dia em que Seu Manuel Português esperava curar os dois filhos, em companhia de outros paralíticos, entre eles um rico rapaz de bigode.
Umas ajudas
Demorou e atrasou as consultas, a entrevista com o bispo, mas quando saíram estavam ali por perto do Aero-Willis episcopal alguns comerciantes O bispo admirou-se do povo, sorriu, acenou com a mão. Um dos comerciantes, baixinho, fez, para o ar, uma sugestão:
–Por que o bispo não dá uma benção geral?
O bispo concordou, avisou que ia dar a benção. O mesmo vendedor de imagens explodiu um viva a Santa Isabel e puxou as palmas.
A ajuda dos comerciantes de santinhos não foi muito bem aceita, de começo, por Padre Antonio. Mas logo se viu ele muito bem assessorado, pois, um pouco inexperiente no tratar com a fé de muita gente junta, percebeu a vantagem de ter do seu lado homens que sabiam a hora certa de gritar ou bater palmas. Todos estes muito experientes, vindos, na maioria, de Aparecida do Norte, onde têm suas lojas e fábricas, mas com movimento fraco agora, pela inauguração da nova basílica, longe do centro em que fazem suas vendas.
– Isto vai ser uma nova Tambaú.
Essa opinião e desejo ao mesmo tempo, falada com olhos de um pouco de esperança e muita cobiça, foi de um deles, na sua primeira viagem, para conhecimento do mercado. Trataram os comerciantes de divulgar todos os milagres do padre, que sempre tinha ouvido contar, nunca visto, apesar de estarem constantemente ao lado do milagreiro.
Um deles, vendedor sem barracas, esperava a hora dos paralíticos, muita gente para ser curada, e chegava perto com pequenas gravuras de Santa Isabel, emolduradas em metal fininho e barato. Em dois dias, vendeu trezentas dessas a 1 cruzeiro novo cada uma e voltou a São Paulo para buscar mais.
Outro ajudou um casal de argentinos a furar a fila. E com muito gosto e satisfação contou ele no dia seguinte:
– Olhei aqui no bolso, o argentino tinha escorregado uns Tiradentes. Vou partir pra outras, o que que há?
Umas verdades
A tarde passa. Seu Manuel, suado, espera. Depois daquela turma, o padre vai atender os paralíticos. A cadeira de rodas do rapaz do Galaxie já está em posição. Lá dentro, o padre termina a última receita:
– Leite fervido com erva-de-santa-maria, à noite. Sessenta dias.
Chegou a hora da verdade. Padre Antonio, ar bravo, cansado, chega na porta:
– Os paralíticos entre aqui de cinco em cinco.
Padre Antonio, por método e segurança, primeiro examina os doentes dentro de casa, depois os faz andar em público. Por isso gritou:
– Abram um espaço aqui no pátio, meus ermãos. Senão, o Padre Antonio cura, mas eles não têm espaço pra andar, como vamos fazer?
A piadinha fez alguns rirem. Os comerciantes correm, fazem um cordão de isolamento. A multidão, meio nervosa, se afasta um pouco da porta da capela, deixando um bom pedaço de pátio vazio. Um dos comerciantes controla a entrada dos paralíticos na capela.
Entram cinco, que usam bengala, ou muletas, ou são ajudados por outra pessoa. Padre Antonio, de olho clínico, precisa que o primeiro caso seja um bom caso, e escolhe uma velha, que entrou ajudada pelo marido:
–A senhora anda?
– Só apoiando na parede, ou na mão de alguém.
O padre estica as duas mãos, segura as mãos da velha.
– Venha!
O comerciante, ao lado, sugere baixinho:
– Fé em Santa Isabel.
O padre grita:
– Fé na santinha!
Caminha com ela dentro da capela, onde o povo não vê. Percebe que a mulher consegue andar uns passos sozinha, e que com um pouco mais de confiança, andará bem. Leva-a para fora e, lá, faz o mesmo. Vem puxando a velha, até que solta as mãos.
A velha, que normalmente andava já seus passos sozinha, segue uns 2 metros, capengando, assustada com tanta gente em volta.
Não dá mais tempo para se ver nada. Um comerciante, ali junto do padre, levanta o braço, dando sinal para outro colega seu, que está em cima da casa do bispo. Esse, então, começa a bater palmas com força. Ainda lá em baixo outro puxa o viva para a santa. Algumas mulheres que estão atrás e não viram direito caem de joelhos.
– Milagre!
– Ela andou!
O cochicho de alguém mais esperto, interessado:
– Entrou carregada.
– É verdade, entrou carregada.
E o povo vai repetindo e aumentando a história. A velha vai embora, apoiada no braço do marido, levando uma receitinha na mão, os dois chorando, sem conseguir dizer nada.
Umas mentiras
Seu Manuel com os dois filhos está na fila e vai entrar com os próximos cinco. Mesma turma em que, por coincidência, está também o rapaz que veio no Galaxie. A atenção dos assistentes está toda nos dois. São os únicos casos mais graves, os únicos reais de paralisia.
Sai o padre da capela com uma criança no colo:
– Ermãos! Esta boneca nós não podemos fazer andar. Ela é muito novinha. Mas a mãe dela está impressionada por que ela esticou as pernas.
Estouro de aplausos, vivas, rezas.
E assim atende todos os primeiros cinco o Padre Antonio. Todos curados com palmas e louvores, sempre gente que já andava um pouco antes, embora os fiéis não acreditem nisso, pois sempre há gente de respeito que viu todos entrarem carregados.
Sai o último dos cinco. Um mulato, que sempre andou direito, mas, de um dia para outro, começou a andar agachado, quase de cócoras, só conseguindo ficar em pé com uma bengala. Atravessou triunfante o corredor de gente, depois de “curado”, recebendo aplausos e incentivos.
– Fé em Deus.
– Fé na santinha!
E chegou a vez de entrarem outros cinco, dois na cadeira de rodas, o rapaz de bigode, os filhos de Seu Manuel, um no colo, e mais dois velhos, mas andando.
Os cinco lá dentro, o padre sente o difícil da situação, mas lembra também que uma cura ali seria a consagração final. Vai direto no rapaz do Galaxie.
– O que é que ele teve? Já andou alguma vez?
– Foi um tiro no peito, saiu na espinha. O médico disse que ele vai andar, mas daqui a mais tempo, com massagem e exercício.
– Lá fora, a expectativa.
– É o irmão do Roberto Carlos.
–Trouxe um montão de dinheiro, para deixar aí.
– Fez promessa de voltar a pé até Atibaia.
O padre aparece na porta da capela. O povo silencia. Duas pessoas seguram o rapaz pelos ombros, em pé. O padre segura as mãos do rapaz, para tentar puxá-lo, seu método preferido. As pernas não se mexem. Os dois pés continuam juntos, meio pendurados no ar. Todos entram de novo na capela, o padre volta, sozinho.
– Ermãos, o que é, é. O que não é, não é. Deus não quis essa cura.
Do mesmo jeito, palmas. Os comerciantes são ativos.
Seu Manuel, olhos vermelhos, já sente dúvidas. Chega a vez do seu menino maior. O padre, já dentro, olha a cadeira de rodas. Pergunta ao pai:
– Já andou antes?
– Não, senhor padre, nunca andou antes.
Antonio Rosa, conhecedor desses casos, que tantos já viu, coça a cabeça. Abaixa-se, pega a perna do menino, verifica a articulação do joelho. É dura. Faz força, quase quebra, o menino geme, baixinho. O padre desiste. Precisa haver alguma coisa, para mostrar ao povo, que essa alguma coisinha logo se transforma em milagre, pelo fim da fila. Tenta um movimento:
– Mexa as pernas.
Nada.
– Mexa as pernas.
Nada.
Gomes, o comerciante, ajuda, baixinho.
– Como se fosse andar de bicicleta.
À imagem da bicicleta, os olhos do menino se abrem, olhar alegre. As pernas dão três balançadinhas, pra frente e pra trás. O padre manda levar a cadeira de rodas para fora:
– Ermãos, esse menino ainda não pode andar.
Seu Manuel, olhos vermelhos, olha o filho.
Ele ainda não está desenvolvido para andar. Mas ele vai andar. O padre já conseguiu alguma coisa. Querem ver? Mexa as pernas como se fosse andar de bicicleta.
O menino mexe, o pai não estranha, sempre mexeu, a multidão aplaude, entusiasmada por alguns que sempre sabem a hora certa de fazer barulho.
Chega a vez do menino mais novo.
– O pobrezinho ainda é muito novo para andar, mas parece que já tem as perninhas moles, padre. Ao menos esse.
Antonio Rosa segura as perninhas, sente os ossos. Sai lá fora com a criança, Seu Manuel junto. Põe a criança em pé, segurando pelos ombros.
– Vem nenê, vem com o padre.
– Vai filhinho, vai.
O padre segura o menino apenas para equilibrá-lo, mas deixa-o apoiar-se nas pernas. A criança chora, de dor. Os minúsculos ossos não agüentam. Seu Manuel a solta o choro que segurou o dia todo. Chora de emoção ou desespero. O padre grita:
–Viram, ermãos? Ele ficou em pé, quando chegar a idade vai andar.
Palmas bem puxadas. Choros. Vivas.
Assim trabalha Antonio Rosa, padre porque escolheu o título. Ou Irmão Antonio Vicente da Costa, título e nome que de fato recebeu. No meio do povo, vem vindo o rapaz do Galaxie, na cadeira de rodas. A moça que estava junto, e que se torceu toda quando o padre aplicava seus métodos no moço, vem e pergunta:
– O que você achou, meu anjo?
– O que eu achei? Uma vigarice!.
PARA QUE SERVEM OS REMÉDIOS DO MILAGREIRO
A maior parte dos “clientes” de Antonio Vicente da Costa, vulgo Padre Rosa, não sofre de mal nenhum, a não ser da sugestão de que estão doentes. Os remédios que ele usa para todos são da antiga medicina caseira do Brasil, com base nos chás de ervas mais conhecidas. Em cima de sua mesa, onde atende aos doentes, está um Formulário de Chernoviz, ou Dicionário de Medicina Popular, de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, Doutor em Medicina, Cavalheiro da Ordem de Cristo, editado em Paris, em 1862.
Um médico, que entrou no “consultório” de Antonio Rosa como jornalista, observou seu trabalho e estabeleceu um relacionamento entre os sintomas apresentados pelos clientes e os medicamentos receitados pelo milagreiro. Mas houve duas grandes dificuldades. A primeira, que Antonio Rosa não faz diagnóstico. Apenas diz, muito genericamente, “aparelho digestivo”, ou “o senhor vai mal dos nervos”, ou “isso é da coluna”. A segunda são os remédios, que nos alfarrábios medicinais chegam a ser citados, com condições também muito vagas.
Para eczemas, por exemplo, indica banho de taperoba, erva citada no Chernoviz como boa para inchaço dos pés. Receita também mistura de enxofre com vinho branco. É mais ou menos correto, porque o enxofre dissolve as crostas nas moléstias de pele. Para dores de reumatismo recomenda banhos de mentrasto, com cinza e sal. O mentrasto, preparado feito com folhas de hortelã, pode provocar o aumento da circulação do sangue no local onde é aplicado e melhorar certos casos de artrites. Recomenda chá de guiné, que, segundo autores de cinqüenta anos atrás, também melhora certos casos de reumatismo.
Para o estômago recomenda o chá de carqueja, que também “serve” para tudo: é antifebril, tônico para o estômago, corta a diarréia e é bom para o fígado e para o baço. Para um caso de câncer receitou chá de primavera que, segundo os livros antigos, “seca as umidades do cérebro”, frase que, hoje, parece não ter nenhum sentido médico. Um dos chás mais receitados é guiné. A arruda era boa para “fortificar o cérebro, agir contra os gases intestinais e paralisias” Os mesmos livros dizem que o alecrim “age sobre o cérebro, nervos e coração, desfaz os maus humores, purifica o sangue, dissolve os sais e areias do rim, tonifica o útero”. Guiné é indicada para reumatismo. Além do Chernoviz, também a Photographia ou Botânica Brasileira aplicada às medicinas, às artes e à indústria, de Mello Moraes, editada no Rio em 1881 e o Dicionário de Medicina Popular, de Huascar Pereira, editado em 1929, falam das mesmas ervas.
Antonio Rosa também receita alguns medicamentos que ele chama “de farmácia”. Os mais falados foram Ultracarbon, Midron, Pankreon, Ethaverine, Micronutron, Pantepe e até Emulsão de Scott.






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