REALIDADE nº 12. março de 1967
Ia tudo muito bem para João da Silva, brasileiro, até que, certa manhã no ônibus, veio o lunfa. Com a carteira, levou todos os seus documentos. João, um homem quase feliz, nem percebeu, pois estava muito preocupado, pensando nos planos, bem próximo de realização para atingir suas últimas e definitivas metas na vida: ter casa própria e comprar um automóvel.
Quando chegou à autoescola (já estava cuidando da carta de motorista) foi entregar os documentos e só então sentiu falta da carteirona, onde guardava toda a papelada.
Viu-se João sem título de eleitor, sem carteira de identidade, sem carteira profissional, sem certificado de reservista, sem a carteirinha de estudante de cursinho (ótima para pagar meia entrada no cinema) sem os cartões de visita, sem o bilhete de loteria para quarta-feira (ah, mas, se fosse premiado, pegaria o ladrão na hora de receber, se lembrava do número), sem o retrato da mulher quando era moça e sem o outro, colorido, ele em pé, a mulher sentada, uma criança ao lado de cada um. E, pior, sem o telefone daquela senhora muito jeitosa que, mesmo ao lado do marido, passou discretamente um papelzinho, enquanto João se ocupava em olhar as manchetes em uma banca de jornais, até muito inocentemente.
Mas, dinheiro, pelo menos, o ladrão não viu. João tinha muito pouco, e estava no outro bolso.
De como tudo se arruma com facilidade
João se sentiu nu, solitário e desprotegido. Agora, era um perigo andar na rua. Afinal, a qualquer momento poderia acontecer um atropelamento, uma briga, ou qualquer outra coisa, viria a polícia:
– O senhor é testemunha. Quedê os documentos?
– Ah, seu guarda, um ladrão hoje cedo, no ônibus…
– Pois vai provar isso na delegacia!
João lembrou que também não poderia mais tomar suas pinguinhas de noite no bar do Juca Português, perto da sua casa, pois lá, de dois em dois dias, baixavao comando, pedindo a carteira profissional de todo mundo que estivesse bebendo, único e real motivo pelo qual João carregava sempre esse volumoso caderninho de anotar empregos. Quem está bebendo e não tem carteira profissional é vadio. Vai para a Vadiagem.
Mas João da Silva, que não é bobo, tem um amigo investigador, um tira que já tinha passado por todas as delegacias, e foi procurá-lo com muito cuidado para não entrar em nenhuma fria em que tivesse que mostrar os perdidos documentos.
O tira explicou que seria muito difícil achar o ladrão, apesar da especializada do setor, com sua diligente equipe, prender muitos por dia. Ia depender muito do acaso, pois o João não se lembrava de ninguém dentro do ônibus com cara de gente que rouba. Aconselhou-o a visitar, vez ou outra, o depósito da Delegacia de Roubos, pois se o malandro fosse preso com os documentos no bolso, teria de entregá-los. João foi até a Delegacia de Roubos, não encontrou nada e foi informado pelos senhores investigadores que, se o ladrão só encontrou documentos, eles já deviam estar bem no fundo de algum rio.
João voltou ao tira amigo, chorou as mágoas: ia ter que tirar todos os documentos de novo. Mas o rapaz consolou o João. Aliás, tinha até um parceirinho, muito acostumado a lidar com papelada, que poderia arrumar tudo para ele, em dois dias, a troco de uma nota até que meio baixa.
— E você acha que eu sou otário de dar dinheiro para despachante? Pois vou é tirar tudo eu mesmo, honestamente. Se ele faz em dois dias, eu também faço. E depois, velhão, o papai aqui é vivo.
De como a coisa começa a ficar difícil
João, que já estava no DI (Departamento de Investigação) resolveu começar pela carteira de identidade. Foi até o balcão de informações, onde dois guardas e duas moças da Polícia Feminina tentavam atender, naquele exato momento, umas 50 pessoas, e a fila ainda estava aumentando. Mas, muito vivo, furou a fila e foi atendido por um guarda sorridente, de faixa verde-amarelo no braço. João explicou bem a história, contou do ônibus, do carro que ia comprar, do retrato colorido que custou caro (naquele tempo!) e até do telefone daquela senhora.
O guarda, muito gentil, explicou que, para tirar a segunda via da carteira de identidade, João só precisava trazer o título de eleitor, comprar um formulário na papelaria, comprar o selo estadual e pronto. Estava tudo resolvido.
João notou, portanto, que precisava primeiro do título de eleitor. Mas e se, lá, pedissem carteira de identidade para tirar título? —meditava João, enquanto ia para o Tribunal Regional Eleitoral. Quando estava a uns 50 metros da porta do TRE, teve que despachar vários sujeitos que diziam:
– Ei, moço, olha a carteira para o título!
– Proteja seu título com o novo plástico de fórmula americana!
– Fotografias na hora!
Na porta, perguntou o que tinha que fazer para tirar outro título. O funcionário perguntou em que bairro morava, ele respondeu e ouviu:
– Terceiro andar.
– Mas o que é que eu preciso levar?
– Terceiro andar, moço.
– E não precisa levar nada?
– Eu já não falei terceiro andar para o senhor?
Era mais político ir ao terceiro andar. João foi. Na frente dos elevadores, num corredorzinho bem apertado, outra fila enorme. E descobriu que, para felicidade dele, quem queria segunda via era só entrar direto na sala, não tinha de enfrentar fila.
– Moço, para tirar segunda via…
– É fácil, sai na hora. Quedê a fotografia?
– Bom, eu não trouxe, eu não sabia. Só precisa fotografia?
– Só.
João, aliviado pelo “sai na hora” do rapaz que atendeu tratou de ir tirar a fotografia, mas lembrou que o dinheiro não dava, tinha de ser no dia seguinte. E foi para casa, condenado a ver novela depois do jantar, pois como ir ao bar do Juca Português sem a carteira profissional?
As complicações continuam as mesmas
João entrou no fotógrafo às duas da tarde, depois de ter trabalhado de manhã e conseguido permissão na firma para tirar os documentos. O fotógrafo também era amigo dele e depois de ouvir toda a história dos documentos furtados, do empréstimoda Caixa Econômica e do vestibular que ia fazer depois de velho, sentou João na cadeirinha, acendeu as luzes e foi falando:
– Olha, o negócio é ir no despachante, senão você vai sofrer com esse trabalho todo. Ergue mais a cabeça. E se você não lembrar mesmo daquele telefone, ah, velho, vá para a tal banca de jornais e fique de plantão. Um dia ela passa de novo. Olha para a máquina. Uma vez aconteceu comigo e eu fiz isso que te falei. Pronto.
– Eu espero aqui?
– Só fica pronto daqui uma hora.
– Mas você não escreve lá fora que tira fotografias na hora?
— Eu tiro na hora, mas só entrego depois.
Já passava das três horas quando João chegou ao TRE. Desviou dos mesmos camelôs de fotografias e carteiras para proteger o título. Chegou ao terceiro andar e foi ao mesmo rapaz.
— Qual é o seu nome?
João deu, e dois minutos depois o rapaz já estava com sua ficha.
A coisa aqui funciona mesmo – pensou João.
– O senhor tem de pagar uma multa.
— Essa é boa, sou roubado e ainda pago.
— O senhor foi roubado?
Veio a mesma história. Contada que foi, João desceu ao térreo (pela escada, que o elevador é impossível) para pagar a multa. Foi rápido. Subiu de novo, esperando encontrar o título pronto. O moço entregou um papelzinho amarelo:
– Muito bem. O senhor pode voltar daqui 20 dias que o título estará pronto.
— Mas como? O senhor não disse que era na hora?
— É tudo na hora, o senhor não precisa esperar nem um minuto aqui. Mas para dar o título novo, precisa muitos despachos, sabe? E o Diário Oficial também precisa publicar. Demora uns 20 dias.
— Mas eu preciso tirar a carteira de identidade.
— Ah, com esse protocolo aí o senhor tira.
Onde se vê que a coisa não é bem assim
João chegou ao Departamento de Investigações atrás da carteira de identidade, pouco depois do meio-dia. Queria saber onde podia obter o formulário necessário. Uns dois ou três vieram falar com ele, oferecendo seus generosos préstimos, por módica quantia, a fim de conseguir qualquer documento em 24 horas. João dispensou todos e foi procurar a papelaria indicada. Encontrou alguns datilógrafos, e uma fila atrás de cada um. Chegou ao primeiro datilógrafo, pedindo formulário para requisição de segunda via, etc e tal.
– Entra na fila.
– Mas que fila? Eu só quero um formulário.
– E o senhor vai preencher?
– Claro, eu sou alfabetizado.
– Nós, aqui, só vendemos formulários preenchidos.
Depois de tomar um quarteirão de chuva, João achou uma papelaria que vendia formulários em branco. Voltou para preencher no próprio saguão do DI. Enquanto escrevia (teve que pedir uma caneta emprestada, pois sempre esquecia a sua), outros quatro ou cinco cavalheiros vieram se oferecer para fazer tudo em pouco tempo.
Afinal, João da Silva juntou o formulário preenchido, o protocolo do título e foi ao guichê, onde a fila, para felicidade dele, tinha apenas oito pessoas. Foi atendido por uma gorda senhora, que, muito solícita, perguntou se João tinha trazido a carteirinha velha. João disse que não havia trazido porque estava no ônibus e veio um… E a mulher interrompeu a conversa:
– Se o senhor perdeu a carteira, tem de por anúncio no jornal e esperar três dias. Além disso, esse protocolo aqui não vale nada. O senhor precisa provar que votou na última eleição, e não que está tirando a segunda via do título.
– Mas, dona, se eles vão me dar a segunda via…
– Tem que trazer uma certidão do diretor do TRE. O seguinte…
João voltou ao TRE, bravo com o rapaz que disse que o protocolo servia. O rapaz ficou bravo com a mulher que disse que o protocolo não servia. Mas a certidão saiu depressa, depois de ser paga no andar térreo mais uma módica multa. Depois João foi ao jornal tratar de publicar o anúncio. Isso foi bem depressa e pago adiantado.
De algumas coisas que saem no dia
João da Silva, muito vivo, depois de casado tinha achado que, para ser aquilo que se chama “alguém na vida”, precisava afazer um curso superior. Como tinha largado de estudar fazia seis anos, fez um ano de cursinho, para entrar numa faculdade. Os exames vestibulares estavam próximos e ele tinha ainda algum prazo para se inscrever. Mas, já que estava com a mão na massa e alguns dias de licença, resolveu cuidar também dos papéis para ser universitário. Foi à escola buscar a relação dos documentos necessários. Eram estes:
Certidão de nascimento, título de eleitor, certificado de reservista, ficha modelo 18 (conclusão do ensino básico), ficha modelo 19 (conclusão do ensino médio), atestado de idoneidade moral (que será isso?), carteira de identidade e requerimento dirigido ao diretor da Escola. Isto é, pediam apenas aquilo que João não tinha.
Tratou de começar pela certidão de nascimento. Foi procurar o cartório onde tinha sido registrado, passando sempre que possível, pela banca de jornais, ali pela hora do encontro com aquela senhora. Afinal, ela podia voltar.
Achou o cartório e, dentro dele, uma fila de 21 pessoas e outra fila de quatro pessoas. Muito vivo, escolheu a de quatro, mas logo soube que ali era para registrar recém-nascidos. Foi lá, recontou as pessoas, eram 21 mesmo. Ficou olhando, dois moços atendiam. Cada pessoa chegava, dava o dia em que nasceu. O moço levantava, procurava nas estantes e voltava com um livrão de meio metro de altura. Perguntava o nome, corria algumas listas, sentava-se e datilografava tudo a jato:
– Prontinho. Pode pagar no caixa. O outro…
Assim, até que ia depressa. O problema eram os velhos livrões. E João lamentou ter nascido em tempo tão antigo, quando se registravam as criancinhas inocentes em livrões daquele tamanho, que um homem quase não conseguia carregar. Nisso viu chegar a senhora que recebia os registros dos recém-nascidos na outra fila. Na sua mesa, ela abriu um livrão do mesmo tamanho dos antigos.
João, depois que conseguiu a sua certidão (demorou apenas 45 minutos e saiu no dia), foi embora pensando nos meninos que tinham nascido naquele dia. Dali a 30 anos, para conseguir uma certidão, em plena era atômica, teriam o mesmo trabalho? Mas não ligou e, como ainda dava tempo, foi até o colégio em que tinha feito o curso científico, providenciar suas fichas. Fez um requerimento, e ouviu a promessa de que estariam prontas no dia seguinte, mediante pequena taxa, paga na hora.
João da Silva já estava com saudades do bar do Juca Português e resolveu tratar logo da carteira profissional. Foi à Delegacia do trabalho tomar informações. Lá, pelo menos, encontrou um enorme quadro dizendo o que era preciso: duas fotos e um documento provando estar em ordem com as obrigações militares.
Quando foi até o quartel, conseguir a segunda via do certificado de reservista (indispensável para a carteira profissional) João já estava sentindo no estômago aquela dor, que sempre aparecia quando ele ficava nervoso. Ficou numa fila que ocupava metade de um quarteirão. No fim, recebeu também um protocolo, com data marcada para retirar o certificado alguns dias depois.
Mas quando, no dia seguinte, às seis da manhã, apareceu na Delegacia do Trabalho, notou que o protocolo fornecido pelo Exército era bem mais respeitado que o do Tribunal Eleitoral. A fila foi a maior que tinha enfrentado desde que começou a tirar os documentos. Ficou das seis às dez e meia da manhã, mas teve oportunidade de discutir o caso daquela senhora, que, desta feita, foi minuciosamente descrito. Apareceram até algumas pessoas que conheciam o lunfa, que naquele dia tinha “trabalhado” no tal ônibus. Depois de muita prosa, às dez e meia, de carteira na mão, despediu-se dos prestimosos amigos.
De como João quase pega cadeia
João, que nesse dia da carteira profissional pediu nova dispensa do serviço, viu que à tarde, teria tempo de cuidar novamente da carteira de identidade, pois o prazo do anúncio já tinha vencido.
Desta vez estava tudo certinho. O formulário, o recorte do anúncio, a certidão do TRE em dia. João escolheu outro guichê, não o daquela mulher ranzinza. Viu que o rapaz na sua frente na fila também estava tirando segunda via, mas não tinha anúncio. Aí, resolveu esconder seu anúncio, e ver se era preciso mesmo. O rapaz olhou os documentos. Tudo em ordem. Não pediu anúncio, olhou para ele.
– Como o senhor já foi identificado aqui, tem que tirar fotografia aqui mesmo. Mas precisa ser de paletó.
João lembrou que, como não tinha ido trabalhar, estava de roupa esporte. E explodiu:
– Mas vocês aqui estão é gozando a gente. Ninguém fala coisa com coisa. Por que ninguém me avisou disso? E aquela velha gorda ali que me mandou por anúncio no jornal? É uma cocoroca, pois você nem quis saber de anúncio.
A roda se formou imediatamente, gente perguntando o que houve. Vermelho João, vermelho o funcionário, branca a mulher gorda. Aí chegou o guarda:
– Que que houve, moço?
– É isso mesmo. Isso aqui é uma porcaria. Ninguém informa nada.
– Moço, isso é desrespeito à autoridade!
– E eu não quero saber. Eu quero é que as coisas funcionem.
– Ah, é? Pois tápreso. Quedê os documentos?
João acordou e amansou:
– Mas seu guarda, eu estou justamente tentando tirar os documentos. Eu não tenho. Eu sou honesto, eu trabalho. É que outro dia, no ônibus, eu ia indo para a auto-escola…
O guarda foi bonzinho e ouviu. Mas como tinha juntado muita gente, resolveram continuar no balcão de cafezinho do bar da esquina. João concordou plenamente com o guarda, de que não se deve gritar em público, aceitou, humilde, a sugestão para voltar de paletó no dia seguinte e conseguiu ir para casa.
No dia seguinte, voltou de paletó, resolvido a não fazer experiências com anúncios, lambuzou o dedo para a impressão digital, tirou fotografia e foi embora. Mas com o estômago doendo. Principalmente de ver tanta gente tirando a carteirinha para o dia seguinte e ele tendo de esperar dez dias, só pela teimosia de não querer um despachante.
De como provar ser verdadeira a assinatura
Passados os dez dias, apareceu a carteira de identidade. Passados os 20, apareceu também o título, e também o certificado de reservista.
Era preciso, agora, cuidar da inscrição nos vestibulares, coisa fácil: bastava levar os documentos à escola. Necessitava apenas reconhecer as firmas dos históricos escolares (ficha 18, do ginásio e ficha 19, do científico) do seu requerimento e do atestado de idoneidade moral, que João já tinha descoberto o que era. Bastava que alguém que tivesse um título, uma posição, declarasse que o conhecia há muito tempo e nada constava que o desabonasse. Havia até um advogado especializado em vender atestados como esse.
Mas as firmas do diretor do colégio eram num cartório. As do advogado, em outro. E as do João, em outro ainda. Mas João, com pressa, foi num quarto cartório, o mais próximo. Entregou todos os documentos e foram reconhecidas todas as firmas por um “escrevente autorizado”, de colarinho ensebado e letra enfeitada.
Na faculdade, João entregou radiante, os documentos. O funcionário pegou:
– O certificado de nascimento está certo. O título tem de ser fotocópia. A carteira de identidade também. Falta outra via da ficha modelo 19. E falta o certificado de conclusão do científico. Mas o senhor não sabe fazer nada certo?
A dor no estômago veio:
– Mas no prospecto não estava dito nada disso.
– E o senhor não leu as modificações no quadro de avisos?
João voltou ao colégio, pediu mais vias e um certificado, pediu fotocópias do resto. Dois dias depois, conseguiu se inscrever nos vestibulares. Estava exausto.
Onde as coisas ficam mais complicadas ainda
João, já bastante enjoado de repartições públicas, resolveu deixar com um advogado os papéis de compra de sua casa própria. A carta de motorista já ia ficar mesmo por conta da autoescola, que funciona sempre como despachante. Também, carta de motorista não é muito difícil: é só fazer um requerimento, uma planilha de dados sobre o candidato, juntar fotocópias do título, da identidade e do certificado de reservista e levar ao Serviço de Trânsito, depois de ser aprovado no exame médico. Depois de dez dias, mais ou menos, o exame é marcado para dali a cinco dias, mais ou menos. Se passar, dali a uns quatro dias recebe a sua mini carteira.
Quanto à luta para conseguir um empréstimo para a casa própria, João considerou que não tinha forças físicas, morais e mentais para enfrentar. Quando soube que seu pedido tinha sido aprovado, exultou de alegria. Foi até a Caixa, fez o depósito compulsório, como recomendava a cartinha que recebeu da Caixa.Perguntou ao homem do guichê o que devia fazer. O homem não sabia. Foi perguntando até chegar em altos funcionários. Soube que deveria esperar o Conselho aprovar novamente o seu pedido.
– Mas como, já não foi aprovado?
– Foi, mas será de novo.
Um mês depois, tendo frequentado os gabinetes quase toda semana, foi novamente aprovado o seu pedido, conforme soube através de informações esparsas, recolhidas aqui e ali, e fornecidas muito lacônicamente.
Foi informado que tinha de levar a escritura definitiva da casa, carteira de correntista da Caixa e outras coisas simples. João, que também tinha um amigo corretor, conseguiu logo seu sobradinho, deu um sinal em dinheiro ao proprietário e entrou com os papéis. Soube que deveria haver novas aprovações.
Estavam as coisas nesse pé, quando João conseguiu um tempinho para passar na Caixa, e ver o que deveria fazer dali para frente. Soube que, depois de examinada a planta, haveria nova aprovação. E, então, para conseguir que o avaliador fosse ver a casa teria de levar uma “montanha” de documentos. A relação dos documentos necessários estava num papel mimeografado. Quando João terminou de ler, a dor no estômago já estava a ponto de gritar. Imaginou percorrer cartórios imundos e repartições obscuras atrás de documentos que provavelmente já não existiam mais. E só depois daquilo e da avaliação é que o Conselho Deliberativo da Caixa autorizaria o empréstimo. E viria então a parte da escritura, esta feita pela própria Caixa, sem intervenção sua.
Naquele momento, João da Silva resolveu, de uma vez por todas:
– Nunca mais tiro um documento na minha vida. Para isso, existe despachante. Não tem importância que fique caro.
De como nem tudo termina quando João quer
Em casa, encontrou a mulher eufórica:
– João, ficamos ricos! Sabe aquele meu tio da Itália? Deixou um monte de dinheiro de herança para mim. Para nós. Chegou a carta hoje. Mandaram até passagem para a gente ir lá. Temos de receber na Itália.
Realmente, era um dia se sorte, pensou o João, considerando que quem nasceu com boa estrela sofre um pouco só, e lembrou, oportunamente, à mulher, que depois da tempestade vem a bonança. Uma herança depois de um chá de repartições públicas até que não era nada mau.
Se tinham de viajar, precisavam de passaporte. João, que já tinha aprendido, tratou de procurar um despachante no dia seguinte. Mas o homem queria cobrar muito caro, e pediu tantos documentos (para João mesmo tirar), que João achou, mais uma vez, que poderia fazer tudo sozinho. Afinal de contas, já estava até acostumado com isso.
Voltou João da Silva ao DI, foi ao mesmo balcão de informações, encontrou o mesmo guarda, que perguntou se João tinha tirado todos os documentos, se tinha encontrado aquela senhora. João contou da herança, o guarda lembrou que também tinha um primo rico na Espanha e deu uma lista dos papéis necessários para o passaporte: formulário, em duas vias, sendo a primeira com firma reconhecida; quatro fotos 7×5, de busto, com fundo branco; taxa do selo; atestado de antecedentes criminais; título de eleitor; certificado de reservista; e uma certidão negativa de imposto de renda.
João até que achou fácil. Tinha tudo, menos o atestado de antecedentes e a tal da certidão negativa (não sabia bem o que seriam esses documentos). Perguntou ao mesmo guarda. O atestado de antecedentes, tinha de ser tirado no DI mesmo. Era só comprar outro formulário, preencher, comprar mil selos e levar ao guichê. Com dois ou três dias ficaria pronto. João cuidou disso.
E foi tirar as fotos de tamanho diferente.
Foi também ao Imposto de Renda. Encontrou muitas filas, uma em cada guichê, e nenhum guichê para informações. Mas havia um guarda:
– Seu guarda, para tirar uma certidão negativa, o que é preciso?
– O senhor compra um formulário na papelaria ai em frente.
– Como, só isso?
– É isso. O senhor vai fazer declaração, não vai?
– Não sei. Eu quero a certidão negativa.
– Então tem que ter o formulário.
João comprou o formulário. Eram três folhas sobras e mais uns anexos dentro. Foi para o escritório preencher. Não entendeu nada. Não havia explicação alguma sobre onde João deveria colocar seu salário e o que foi descontado na fonte. Procurou um contador. O contador ensinou e ajudou a preencher. João foi para casa, encontrou a mulher preocupada: tinha chegado um telegrama, avisando que eles só tinham dez dias, para receber.
Dia seguinte, 12h30, João estava na porta do Imposto de Renda, esperando a porta abrir. Não foi o primeiro a ser atendido, porque a fila já era grande quando chegou. Mas entregou sua declaração, o funcionário leu, achou que estava em ordem, e entregou um papel qualquer.
– E a certidão negativa?
– Que certidão?
– A certidão, para o passaporte.
– Ah, moço, então não é assim. O senhor guarda essa declaração. Compra outro formulário lá na papelaria…
– Mas quantos formulários afinal, eu tenho que preencher?
– Olha, para dizer a verdade, eu não sei exatamente o que o senhor tem que fazer. É melhor procurar o seu Clóvis, no sexto andar.
Lá foi o João para o sexto andar. Descobriu então que tinha mesmo de comprar outro formulário. E nem precisava ter feito a declaração. Mas necessitava ainda juntar declaração das empresas onde tinha trabalhado nos últimos cinco anos, dizendo quanto recebia e quanto pagou nesse tempo. Essa declaração demorou um dia.E só no terceiro dia João recebeu a certidão. Faltavam sete dias para receber a herança. No quarto dia, tudo estava em ordem. Foi ao DI de novo, com toda a papelada, as fotos, os selos, as firmas reconhecidas verdadeiras.
Entregou e recebeu um protocolo.
– E o passaporte?
– Daqui oito dias.
– Mas eu preciso estar na Itália daqui cinco dias. Seis no máximo.
– Não é comigo.
Foi o grande martírio de João. Correu todas as pessoas importante que conhecia. Correu todo os despachantes, ofereceu fortunas. Gastou o que não tinha. Passou três dias nas salas escuras e sujas de repartições de cuja existência nunca tinha desconfiado. Viu aquela senhora do bilhetinho com o telefone, uma tarde, na cidade, mas nem teve coragem de se desviar do seu caminho. Tomou milhares de copos de leite, para o estômago. No nono dia, afinal estava com o passaporte na mão e visto par viajar. Tinha conseguido.
E foi ao médico, para uma consultinha, que o faria viajar tranqüilo. Estava um pouco desconfiado daquela dor de estômago.
– Seu João— disse o médico – o senhor precisa de repouso absoluto. Cama, leite e papinha. Não pode viajar. O senhor tem úlcera aguda que pode suporar a qualquer momento. O senhor teve alguma contrariedade ultimamente?







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