Pobre menina miss

REALIDADE nº 5, Agosto de 1966

Às oito da noite, 40 mil pessoas já estão no Maracanãzinho, pois nada mais importante existe para eles que um concurso de Miss Brasil. O ginásio está explodindo em gritaria e aplausos, a cada “miss” que dá a paradinha, o rodopio e manda dois beijos para o público.

De repente, a Polícia resolve entrar também na “passarela”. As “misses”, assustadas, saem correndo e dando gritinhos desesperados. Os guardas, todos de mais de 1,90 m de altura, lutadores de judô, karatê e outras lutas, são mais velozes. Alcançam as “misses” menos espertas, que esperneiam, gritam, mas não adianta nada. Levantadas no ar, indefesas, pequeninas diante do tamanho dos guardas, são levadas para algum lugar misterioso. O cimento armado do ginásio do Maracanã quase cai, nessa altura, com o volume da vaia que a Polícia recebe.

É o fim tradicional do desfile dos bonecas, ou transviados sexuais, que todo ano, em algum pedaço vazio da arquibancada, precede o desfile de verdade, no concurso de Miss Brasil.  O público gosta muito do desfile dos bonecas, pois todos os 40 mil estão lá sentados desde sete horas. Quem chega depois dessa hora não encontra lugar. Como a mostra feminina só começa lá pelas dez da noite, o público se contenta muito bem com uma mostra de qualquer sexo, para passar o tempo.

E gostam muito também desse desfile extra, os organizadores, pois evita a gritaria de reclamação, que acaba sempre por irritar os delicados responsáveis pelo torneio. Mas, neste ano, em virtude da eficiência dos fortíssimos homens do pelotão especial treinado pelo Capitão Jorge, a reclamação não pode ser evitada. Às nove e cinco, o povo gritava:

– Co-me-ça! Co-me-ça!.

O desfile dos bonecas está longe de ser o único ridículo de um concurso de Miss Brasil. Há muitos outros ridículos, que as mocinhas do interior, cobiçadoras da glória de ser rainha, têm de enfrentar, quando chegam ao Rio de Janeiro, depois de já terem passado pelos desfiles de seus Estados.

Na hora em que descem do avião, acompanhadas de suas orgulhosas mamães, encontram logo os donos do concurso: organizadores, “guardiãs”, instrutoras, cicerones e, entre esses, um senhor de proeminente barriga, paletó jaquetão e bigodinho à antiga, que, desde a segunda-feira, quando elas chegam, até o sábado do concurso, comanda militarmente e aos gritos todas as moças, com exceção das suas preferidas. Com toda a pose e o ar de dono das misses, consegue deixar com medo as mais bobinhas. Mas outras, que não conseguem entender melhor o homem, não têm muito problema em rir dele, aos primeiros gritos.

Esse senhor de jaquetão e bigodinho, dito por si mesmo temível colunista social, é eficientemente auxiliado na sua tarefa de comando por outro membro da comissão organizadora, por nome Arnaldo.

O primeiro trabalho dos dois é conhecer o melhor possível, entre o aeroporto e o hotel, no dia da chegada, as misses e acompanhantes:

– Pois, afinal, precisamos saber com quem vamos tratar.

Chegam as misses ao hotel e, na porta, já está uma multidão curiosíssima para vê-las. É o primeiro contato delas com os bonecas, que, a partir desse dia, fazem ponto fixo na porta do hotel, tomando conta de toda a calçada e espantando os hóspedes, que querem sossego.

Lá dentro, os organizadores já estão dando ordens ao pessoal de serviço no hotel, acompanhando o preenchimento das fichas das candidatas (as ficham que podem ler, eles lêem), e acompanhando as candidatas aos seus apartamentos.

Quando as mocinhas e mamães sonhadoras estão instaladas, recebem alguns impressos da comissão organizadora: programa, regulamento do concurso, instruções para o comportamento dentro do hotel e informações – estas só para as acompanhantes – de como acompanhar as candidatas à Miss Brasil.

O programa, cheio de festas, coquetéis, passeios e coisas que as mocinhas na maioria nunca viram, entusiasma a todas, mas só antes de começar a ser cumprido. Lá pelo segundo ou terceiro dia, além do cansaço – que este ano deixou algumas de cama – já começam a perceber que nas festas estão apenas sendo mostradas para pessoas em quem os organizadores têm interesse, e acaba o entusiasmo pelo programa.

Enquanto isso, no hotel onde elas se hospedam, com paredes rachadas e enormes salões vazios, o pessoal de serviço não está absolutamente contente:

– Essa turma de concurso dá serviço e não dá gorjeta. A gente não pode servir direito os que dão gorjeta e passamos uma semana ruim.

Em duas salinhas sujas e cinzentas, funciona, o ano inteiro, a Comissão Central do Concurso Miss Brasil. O emprego é até bom, pois concurso só há uma vez por ano.

Lá, as senhoras organizadoras preparam os regimentos, onde exigem das candidatas, entre outras coisas, “reputação moral ilibada”. O item 8, sozinho, exige cinco compromissos da privilegiada. O primeiro é cumprir rigorosamente o programa. O segundo é mais sério: não pode fazer propaganda de nenhum produto comercial, a não ser o dos patrocinadores do concurso. Compromete-se, também a, caso eleita Miss Brasil, assinar um contrato de “prestação de serviços” por seis meses, sem dizer nem com quem, nem que serviços devem ser prestados. Mais um compromisso: se não for eleita Miss Brasil, não pode participar de nenhum anúncio de produto comercial do patrocinador do concurso no seu Estado.

E esclarece bem o regulamento: a miss, ao embarcar para o Rio, deve levar na mala um vestido de gala e um traje típico. Antes de viajar, elas recebem 200 mil cruzeiros dos organizadores como “ajuda de custas”.

Para as excelentíssimas senhoras acompanhantes, a comissão esclarece que deverão pagar todos os serviços extraordinários (lavanderia por exemplo) pois os organizadores garantem apenas cama e comida. O horário do programa deve ser cumprido e qualquer dúvida, se não souberem resolver, será levada ao Bigodinho-Jaquetão, que resolve tudo.

Bengala faz a marcação

Miss tem que saber desfilar, para não dar vexame. E vão para as mãos de dona Maria Augusta, que tem uma escola de modelos, e há nove anos acompanha o concurso de Miss Brasil, ensinando andar, parar e rodopiar. Comanda tudo com uma bengala, e umas batidas no chão:

– A marcação da bengala é a marcação internacional. As moças saem daqui já sabendo desfilar como nos outros países.

Na terça-feira depois da chegada, há o primeiro encontro contato entre as mocinhas e Maria Augusta, para as medidas. Ela mesma, ou uma sua auxiliar, tira as medidas – busto, cintura, quadris, coxa, tornozelo, altura e peso – só na presença de senhoras, em lugar onde ninguém mais pode entrar. Nesse dia, as candidatas fazem seu desfilezinho inicial, para Maria Augusta ver qualidades e defeitos.

Na quinta-feira, misturadas com os coquetéis e visitas, as misses têm um ensaio de manhã, outro à noite. Começam a aprender a andar ao som de bengaladas, já no próprio Maracanazinho. Às vezes não deixam a imprensa assistir aos treinos, porque “as moças estão inibidas”.

Na sexta-feira, o ensaio é geral. As mocinhas já aparecem de maiô, como vão desfilar na contenda do dia seguinte. Já há público, imprensa e também as misses internacionais, chamadas pelos senhores organizadores para desfilar no dia do concurso e entreter assim o ávido público, enquanto as senhoritas brasileiras trocam de roupa.

E o primeiro ensaio, também, para as vaias e aplausos, pois a presença dos interessantissimos bonecas e de alguns repórteres tão interessados quanto eles garante uma prévia que, em geral, coincide com o resultado e com suas torcidas no dia seguinte.

Duas fora do páreo

            Na sexta-feira do ensaio geral, já é feito o primeiro concurso.

De repente, aparece um cidadão, distribuindo papeizinhos em branco para os fotógrafos:

– Olha, é para escolher a Miss Fotogenia.

– Já ou depois do ensaio?

– Já.

– Mas como, se eu não sei como elas vão sair nas fotos?

– Ah, que é isso? Coloca qualquer nome rapaz.

Ai um deles diz que fulana é fotogênica, os outros acreditam e ela acaba ganhando. Alguns fotógrafos atrapalham um pouquinho a democrática votação:

– Olha companheiro, eu não sei bem em que votar. Você põe aí o nome que achar melhor. Eu concordo.

A Miss Simpatia é eleita na mesma base, com votação um pouco mais ampla. E as duas recebem a faixa durante o ensaio e vão embora, levando a certeza de que não estão entre as favoritas.

Maria Augusta, de muita experiência, diz que é assim. Quando as moças recebem um título antes, já estão fora do páreo.

            – Minha filha não recebeu ajuda de ninguém, nem do Governo, nem dos organizadores. Além disso, está muito maltratada. O senhor acha que nós estamos aqui para aguentar maus- tratos?

Na quarta-feira da semana do concurso, a mãe de Miss Guanabara, depois eleita Miss Brasil, estava falando assim. É que o Bigodinho-Jaquetão e o sr. Arnaldo estavam gritando muito. E Miss Guanabara ameaçou abandonar o concurso, se o tratamento não melhorasse.

A queixa aconteceu no dia em que as moças têm de posar para as “revistas especializadas em miss”. Aí são levadas em ônibus para uma praia, convidadas a trocar de roupa atrás de uma pedras, para, depois, tirar as fotos nas mesmas poses em que se vê fotografias de miss nas revistas, há dez anos mais ou menos. E ai da moça que se atrasa um pouco. Ouve o que não quer.

Com Miss Guanabara, além dos gritos, houve mais um problema: foi a que ficou mais perto das ondas, veio uma das fortes e lá se foi seu penteado. Na volta, abandonou a “caravana da beleza” (dois ônibus comuns) para fazer penteado novo.

O fato é que, no dia seguinte, os jornais concorrentes do jornal que promove o concurso saíram com manchetes aproveitando a ameaça da candidata carioca de se retirar do concurso. E, num deles, um dos títulos de primeira página era assim: “Homem que beijou miss quase leva Ana Cristina a renunciar”. Era só o título, a notícia não fazia nenhuma referência a beijos.

A torta de Miss Bahia

Quando chega o sábado, dia do concurso, misses e acompanhantes já não se aguentam em pé, de tanto que tiveram de andar, passear e mostrar-se. Só não estão muito cansados os organizadores, que podem revezar-se na tarefa de fiscalizar as moças.

            Na sexta-feira à noite, no ensaio geral, as candidatas desfilaram como se já fosse o dia do grande concurso. E desfilaram também, sob vaia, as misses internacionais, que a organização trouxe, para “dar brilho à grande festa”.

As moças estrangeiras ficaram por conta do Arnaldo, auxiliar do Bigodinho-Jaquetão. Andou com elas de automóvel para baixo e para cima, pela cidade toda e a imprensa só conseguiu se aproximar quando ele não estava por perto.

Arnaldo chegou a tirar a caneta da mão de Miss Argentina que estava dando autógrafo a uns estudantes, para colocá-la dentro do automóvel, e deixá-la lá, esperando um motorista que demorou bastante a aparecer.

Mas o Bigodinho-Jaquetão também teve a sua oportunidade de mostrar autoridade às misses internacionais. Na sexta-feira do ensaio, Miss Argentina e Miss Bahia, por força de cumprirem à risca o “muito humano” programa criado pelos organizadores, chegaram para jantar alguns minutos depois das outras.

Bigodinho, muito bravo, começou a correr pelo restaurante do hotel, chamando garçons e mandando as duas comerem depressa. Miss Argentina, coitada, acreditou no homem e nem comeu direito. Foi logo para o ônibus que levaria as misses para o ensaio. Mas Miss Bahia, um pouco mais esperta, tratou de comer o suficiente pelo menos para ter forças para ensaiar. Quando terminou, o Bigodinho quis fazê-la levantar-se, mas não adiantou. A coisa já tinha virado briga e ela decidiu comer sobremesa. E o Bigodinho resolveu então gritar com o garçom, que pagou o pato:

– Oh, seu moleza, quer trazer logo uma torta!.

Começa o grande dia

            O programa do sábado diz: “manhã e tarde livres para preparação de vestidos, cabeleireiros, manicure, etc”.  Mas de manhã, miss nenhuma consegue levantar, tentando recuperar o sono perdido nos dias anteriores.  As acompanhantes, menos cansadas, vão tratando dos vestidos, dos sapatos e outros pormenores.

À tarde elas vão aos cabeleireiros, instalados no quarto andar do próprio hotel. Ficam  guardadas por duas guardiãs, que não deixam homem nenhum entrar, a não ser o Bigodinho-Jaquetão, o Arnaldo, ou algum outro “organizador”.

As misses deveriam estar no Marcanazinho às cinco e meia da tarde. Ás quatro, o Bigodinho anunciava, no quarto andar do hotel, em altos brados que, desta vez, não ia haver atraso. Quem não estivesse pronta, ia para o ginásio despenteada, descalça, ou como estivesse. O Arnaldo falando mole e mal disfarçando uma certa dificuldade para andar – consequência de um bem regado almoço – não teve participação ativa. Foi apenas capaz de impedir que os fotógrafos entrassem no salão dos cabeleireiros.

Lá pelas seis e quinze, contrariando todas as disposições desses dois senhores, as misses saíram do hotel em um ônibus, as acompanhantes em outro. Chegando no Maracanazinho, o porteiro deixou as misses entrarem, mas complicou bastante com as acompanhantes. E a acompanhante de Miss Brasília, que tinha perdido sua identificação, teve de esperar muito tempo, segurando na mão a mala com os vestidos, até aparecer alguém da “comissão” que amansasse o porteiro.

– Maria Helena, quantos anos você tem?

Maria Helena, Miss Brasília, não consegue falar. A resposta é uma choradeira. A moça foi acusada de ser menor de idade, pela segunda colocada no concurso, lá em Brasília. Conseguiram até uma sentença judicial, afirmando que a certidão de Maria Helena estava rasurada e que ela tinha 15 e não 18 anos.

No sábado, desceu no Rio de Janeiro a segunda colocada do concurso Miss Brasília, disposta a desfilar, esperando a desclassificação da outra. Mas o presidente da comissão, chamado doutor Adilson, e seu secretário, chamado major Amado, decidiram que seria uma desumanidade impedir a moça de desfilar. Aí, alguns jornalistas que acreditam na seriedade dos concursos de miss e que acompanhavam o caso, comentaram:

– Pode ter 15anos, mas é cara de 25.

Sobre irregularidades desse tipo e algumas outras, a atriz de televisão WiIlza Carla – participante permanente de concursos de fantasia e que, anos atrás, disputou a coroa de Miss Guanabara – diz que conhece muitos segredos, pois os juízes das misses são quase os mesmos dos concursos de fantasias:

– Esses homens usam o concurso para conseguir mulheres ou outras coisas. Sei que sou prejudicada, dizendo essas verdades, mas acho que é meu dever.

Wilza Carla previa então que Miss Guanabara não ia ser eleita, porque estava descobrindo marmeladas e ia denunciar tudo. Mas Wilza Carla errou e Miss Guanabara virou Miss Brasil.

“Ta na hora, plá-plá-plá”

            Às oito e meia, o Maracanazinho lotado, começa uma briga (só de boca não de tapa) bem na entrada da passarela.

A briga foi assim: os jornalistas sempre consideraram o curralzinho reservado para eles no meio da passarela como o pior lugar para assistir aos desfiles. Esse lugar comporta 15 pessoas e recebe normalmente umas 60. Neste ano, os fotógrafos decidiram que os redatores atrapalham muito, na hora de tirar fotos, e conseguiram que um dos “organizadores” proibisse a entrada de quem não tivesse máquina.

Os redatores sempre detestaram assistir dali o concurso, mas resolveram que, neste ano, só dali teriam boa visão. E começou a briga. Grita daqui, grita dali, vem a Polícia, vêm os organizadores. A Polícia fica esperando a “comissão” decidir, mas os organizadores também estão divididos, entre fotógrafos e não-fotógrafos. Por fim, entrou quem quis entrar no curralzinho, jornalista ou não.

Essa briga só deu para divertir o público que estava mais próximo.

Os de longe não conseguiram perceber tudo o que se passava. Nessa altura, pouco mais de nove horas, a turma começou a gritar, com louvável fôlego, que resistiu até 15 para as dez:

– Ta na hora. Plá-plá-plá. Ta na hora. Plá-plá-plá.

Alguns organizadores gritavam junto.

Até que enfim, entre vaias e aplausos, surgem um ator e atriz de televisão. O moço começa a falar em “nata das beldades verde-amarelas” e coisas assim. Aí chega Maria Augusta, com sua bengalinha, dá uma batida no chão, as meninas obedecem prontamente e começa o desfile.

Numa das mesas, um senhor – apesar da cara de conquistador de mocinhas bonitas – lembra, um pouco irônico, a opinião do Arcebispo de Cuiabá, dom Aquino, sobre concursos de misses:

– “O que é um concurso de beleza, senão a exposição e feira de belos animais, que disputam entre si o prêmio por seus mais belos músculos e robustez?”

Nessa hora o locutor começa a ler as medidas das moças que, com o “traje de gala”, desfilam todas de uma vez, depois uma por uma. São vaiadas e aplaudidas, intercaladamente, conforme o nome do Estado seja simpático ou não ao público da Guanabara. Miss Guanabara, pela beleza e pelo bairrismo, é a mais aplaudida. Miss Pernambuco – que não tem culpa de se chamar Raiolândia Castelo Branco – recebe a mais violenta vaia da noite. Mas mantém a classe, aguenta quase até o fim, quando começa a correr e é levada aos camarins nos braços de Maria Augusta.

Miss São Paulo muda o passo

Os homens do concurso, não satisfeitos em fazer as moças desfilar com um vestido enorme, pesado (para martírio das candidatas de Mato Grosso, que operou o pé; do Espírito Santo, com o dedão do pé inchado; e de São Paulo, que estava com febre), e depois de maiô, obrigam também as sonhadoras mocinhas a usarem um traje típico.

Miss Brasília, a dos prováveis 15 anos, entrou carregando flores por todo o corpo. Miss Minas Gerais estava fantasiada de “esmeraldas e ouro”, uma roupa curtinha, tipo maiô, coberta de placas verdes com uma bolinha amarela no centro. Outras carregavam cestas de flores, generosamente distribuídas, para conseguir um pouco mais de torcida. Miss São Paulo não conseguiu desfilar no mesmo passo que as outras: estava com macacão estilizado de operário, mas carregando na cabeça uma peneira enorme, com maquetas de prédios em cima. Depois que desfilou, foram necessários dois policiais para carregar a peneira com os prédios.

Os trajes típicos são criados por costureiros, criadores de fantasias de carnaval. Mas como por traje típico entende-se, normalmente, traje que se usa na região onde foi eleita a miss, muita gente pode ter saído do Maracanazinho pensando que as moças de São Paulo vão trabalhar com prédio na cabeça e que as senhoritas sergipanas, nos seus passeios, carregam uma torre de petróleo embaixo do braço.

E tudo vai começar outra vez

Das 26 mocinhas simples, de respeitosas famílias do interior ou das capitais, que estão ali sonhando com a glória de ser a mais bonita, oito ganham o apelido de finalistas. As outras 18, tristíssimas, são obrigadas a ficar ali, em pé, curtindo mágoa e assistindo à glória das escolhidas. É quando já sabe que não vai mesmo ganhar que a miss sente todo o cansaço da “agradável semana da beleza”, como dizem os senhores que cuidam do concurso.

Antes dos jurados chamarem as oito do fim, todas as moças são obrigadas a cantar, em coro, uma música chamada Hino das Misses. Mas todas desafinam e o que salva é o disco, tocado de fundo, prevendo mesmo as desafinações. Só que o artista-apresentador leva o microfone pertinho de cada miss, para que se perceba como desafina cada uma delas.

Maria Augusta não entende os desmaios, depois de anunciadas as finalistas:

– As moças querem chorar depois do concurso. Não sei por que.

Mas as moças sabem: querem chorar todos os ensaios, todos os desfiles porque passaram, desde que foram candidatas a rainha de beleza do seu Estado, até a exibição final, no Maracanazinho.

O fim é rápido. Os alto-falantes anunciam o nome de Miss Brasil e os das segunda e terceira colocadas. Depois, Miss Brasil é levada para os estúdios das revistas especializadas, instalados no próprio Maracanazinho. A festa acabou-se; às derrotadas resta ouvir os estouros do champanha que não vão beber; com as três vencedoras fica a certeza de que tudo vai recomeçar, em outros lugares do mundo, onde locutores dirão em inglês – e em polegadas – quando mede cada parte dos seus corpos.

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José Carlos Marão

Autor – José Carlos Marão (nascido em 11 de janeiro de 1941, em São Paulo), começou na imprensa… continuar lendo

Lígia Martins de Almeida

Editora do livro “Realidade Re-Vista”.

Sem o trabalho exaustivo de Ligia Martins de Almeida teria sido muito mais difícil a realização do livro “Realidade Re-Vista”… continuar lendo

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