Três histórias de desquite

REALIDADE nº 10,. Janeiro de 1967

Não havia divórcio. As separações legalizadas tinham o nome de desquite. E não permitiam um segundo casamento. A mulher desquitada era discriminada e isolada. Um segundo casamento só podia ser oficializado no exterior. Em casos mais raros, uma segunda união era aceita em círculos sociais mas não em clubes ou hotéis. Estas três histórias resumem as diferentes situações enfrentadas pelas desquitadas.

Primeira história

Nos seis anos após o desquite, Elisa morou sempre com os pais. Já pensou em sair de casa e viver sozinha. Mas depende economicamente deles. É funcionária e ganha pouco. O marido abandou-a e vive hoje com outra. Elisa não faz o mesmo por pressão da família. Mas principalmente por algumas coisas que vai contar:

“Este é meu diário. Nele eu sempre escrevi, para mim mesma, aquilo que nunca tive coragem de dizer a ninguém. Espero que a publicação de algumas coisas seja útil. Mesmo que não me ajude, que ajude outras pessoas, no futuro.

Agosto – Será que nunca um homem vai olhar com respeito para uma mulher desquitada? Hoje o T. me convidou para jantar. Eu aceitei e perguntei se dona M., a esposa dele, estava prevenida. Ele respondeu que nós íamos jantar fora, que nesses jantares assim esposa não entra e os filhos não ficam sabendo. E disse que tinha um bom programa para depois do jantar.

Eu fui chorar no banheiro.

Janeiro – Hoje sofri muito. Primeiro de ansiedade e vontade de encontrar N. amanhã. E, em segundo lugar, porque já me viram na rua com o rapaz. Dona F. veio aqui em casa hoje e perguntou, como quem não quer nada, para a mamãe: “Tem algum parente da senhora na cidade, dona Antonia?” E aí explicou: “É que eu vi a Elisa ontem junto com um moço muito bonito, sabe?”

Não tinha contado nada à mamãe. Ela não admite que eu saia com ninguém. Quando cheguei do serviço brigou comigo.

Amanhã eu saio com o N., de qualquer maneira.

Janeiro – Foi horrível.

  1. levou-me de automóvel até São Paulo. Jantamos, num restaurante bonito e foi delicioso conversar com ele. Depois, levou-me a uma boate. Lá também estava muito gostoso. Estava feliz.

Depois da boate, ele me levou até uma casa bonita. Queria que eu descesse do carro. Ai percebi. Nós discutimos. Ele disse que se estava saindo comigo era para isso mesmo. (“Ou você pensa que é moça donzela e eu vou casar com você?”) Por fim ele me trouxe de volta, correndo muito pela estrada. Quando chegamos já era tarde, meu pai estava esperando a gente na esquina. Foi um escândalo.

Ele disse que era desquitado só para se aproximar de mim. Era tudo mentira. Nunca mais quero vê-lo.

Fevereiro – C.L. hoje foi um pouco inconveniente. Está tentando se aproximar muito. Mas continua fazendo declarações. Eu acredito.

Março – Faz tempo que C.L. não aparece. Será que ele não quer mais nada? Amanhã mesmo vou procurá-lo. Afinal, ele me prometeu muitas coisas. Se não está mais interessado, devia avisar. Não pode me deixar assim, esperando seus telefonemas.

Março –  Fui procurar o C.L. no próprio consultório. Ele demorou para me atender. A enfermeira disse que ele estava muito ocupado. Mas eu queria esclarecer tudo. Saber se ele queria continuar comigo ou não. Enfim, tirar da cabeça uma coisa que me preocupava. Aproveitei um momento em que a porta estava entreaberta e disse: “C.L., eu preciso muito falar com você”. E ele respondeu: “Sei muito bem do que você precisa. Mas você não quer aceitar esse remédio”.

Estou chocada até agora. Faço o possível para me acalmar, mas não consigo. Minha mãe acha que a culpa de tudo é minha.

Março – Acho que estou me acostumando com a vida de mulher desquitada. Os rapazes do ginásio, que me olham como se eu fosse uma prostituta, e às vezes me ofendem com palavras feias, já não me irritam mais.

Março – Eu sei que o povo fala de mim, mas a minha consciência está limpa. Hoje, sai do trabalho junto com minha amiga, desquitada como eu. Ela também tem a consciência limpa. Mas nós duas escutamos, com muita clareza, quando dois rapazes que passaram por nós disseram: “Olha as duas biscatonas da cidade”.

Abril – Sei que muitas desquitadas casaram-se de novo. Também quero casar de novo. Será que minha mãe vai deixar?

Abril – Ansiedade. Solidão.

Acho que estou doente. Estou sentindo tonturas. É uma dor que não localizo. Mas não quero ir ao médico.

Abril – Hoje eu me senti mal na repartição. Não me lembro como foi, devo ter desmaiado. Sei que fui socorrida por um rapaz desconhecido que estava lá, chamado Olavo. Ele me trouxe de carro até em casa.

Abril – O Olavo não sabe que eu sou desquitada. E não vou contar. Meu Deus, como achar uma pessoa que não ligue para falatórios? Uma pessoa que aceite uma mulher desquitada.

Eu só quero receber as atenções e carinho que todas têm direito de receber.

Abril – Saímos. Foi maravilhoso. Mas durou só uma hora. Eu tinha que chegar cedo. Será que eu achei uma pessoa que me aceita?

Abril – O Olavo me telefonou logo cedo. Fiquei satisfeitíssima com sua atenção e delicadeza. Há muito tempo que ninguém me tratava assim. Ele é advogado e trabalha para uma firma da cidade.

Abril – Eu não me importo mais com as discussões da minha mãe. Estou apaixonada. Acho que ele está também. Hoje saímos de novo. Não fizemos nada de especial. Só demos uma volta. Mas só de me sentir querida foi o suficiente. Cheguei em casa e ouvi as repreensões de costume da minha mãe, porque eram oito e meia, e eu tinha saído do serviço às seis e meia.

Abril – O namoro está ficando firme. Olavo quer conhecer meus pais.

Falei com a mamãe que vou trazer um colega meu aqui, sábado. Parece que ela gostou da idéia.

Ele ainda não sabe que sou desquitada. Só vou contar depois que tiver certeza que ele gosta de mim. Estou contente.

Maio – Amanhã Olavo vem aqui em casa. Minha mãe já está perguntando se é colega mesmo ou sé é “algum galho”. Gritei que também tenho o direito de namorar, procurar companhia e casar de novo. Ai ela ficou quieta.

Eu passei por cima da pergunta dela. Estou ansiosa para sair mais uma vez com o Olavo. Amanhã ele vem aqui, entra, toma um café, e depois nós vamos passear, como sempre. Anda tenho algumas dores e tonturas. Será que eu serei feliz desta vez?

Maio – Minha vida está arruinada. Eu sou uma infeliz.

Meu Deus, que crime  comete uma mulher ao se desquitar?

Hoje, acho que detestei minha mãe. Foi só o Olavo entrar, ela começou a perguntar: “O que é que o senhor quer com a minha filha?” No fim acabou contando que eu era desquitada. Fiquei contrariada,  mas acabei achando que um dia ele teria de saber mesmo.

Saímos. Ele era outro homem. Seu comportamento tinha mudado de uma vez. Fomos jantar num lugar escuro, onde ele nunca tinha me levado antes. Depois do jantar, no carro, vieram as propostas, que eu já estava temendo. Resisti. Ele me xingou. Disse que eu já não era mais moça, para que resistir? E falou também que se eu pensava que ele ia casar com uma mulher desquitada, estava muito enganada.

Queria descer do carro e voltar de ônibus. Mas ele me trouxe até em casa, sem falar uma palavra.

Minhas dores e tontura voltaram.

Junho – Acho que estou muito doente. Quase não consigo trabalhar mais. Marquei consulta no médico para amanhã.

Junho – O doutor Pena me conhece há muito tempo. É amigo da família. Examinou-me hoje e receitou muitos remédios. Li as bulas e estou preocupada. Ele não me disse o que eu tenho. Amanhã eu vou voltar lá para perguntar que doença é essa que precisa de tantos remédios.

Junho –  Acho que não foi desrespeito do doutor. Afinal é nosso amigo. Mas o que ele disse me assustou e irritou. Ele teve de me dar um calmante. Quando perguntei o que eu tinha, respondeu: “Dona Elisa, a senhora, na verdade, não tem nada. Mas já faz muito tempo que está separada do marido. Isto pode ter conseqüências físicas também. A senhora me entende?”

Quando eu já estava saindo, ele ainda disse: “Largue brasa, dona Elisa!”

Julho – Eu já perdi qualquer esperança de ser feliz. Perdi a fé em todos os homens. Sei que eles só querem se aproveitar de mim.

Não tem importância. Estou pensando em arrumar um amante. Um homem casado que anda me fazendo galanteios. Talvez eu possa até gostar dele. Pelo menos, será o remédio que o médico recomendou. Certamente viria encontrar comigo depois do serviço. Ficaríamos juntos por uma meia hora, cada vez. Talvez no escritório dele. Ou em algum apartamento fora da cidade. Depois da meia hora, ele iria para casa, diria à esposa que trabalhou muito e estava cansado. Eu iria para a minha, ouvir minha mãe dizer que estão falando muito mal de mim.

Não, não! Assim eu não quero! Meu Deus, até quando eu terei de viver sozinha?

Segunda história

Dagmarzinha tinha 17 anos no dia em que entrou em casa, correndo e chorando, sem querer dizer a ninguém o que tinha acontecido. Dona Dagmar, desquitada havia algum tempo já, muito carinhosa com a filha, foi saber o que acontecera. A menina respondeu que tinha brigado com o namorado. Para dona Dagmar foi um alívio. Se era só isso, podia chorar.

Mas a menina continuou chorando. E por fim, acabou contando à mãe a causa da briga e do choro. O rapaz, numa discussãozinha, dissera:

– Ah, sua mãe é desquitada, e filha de peixe, peixinho é.

Para mãe e filha aquilo era muito triste, as duas choraram juntas. Mas não era a primeira, nem seria a única vez, que cometiam injustiças com dona Dagmar.

Dona Dagmar, na época do desquite, morava num bairro do Rio de Janeiro. Tinha muitos amigos e todos concordavam que o comportamento de seu marido não era dos melhores. Até achavam que ela devia largá-lo. Mas quando isso aconteceu, todo mundo mudou de opinião.

– Eu passei a ser olhada pelas mulheres como um espécime diferente. Acho que elas me consideravam uma inimiga, que a qualquer momento pode tomar os maridos horríveis que elas têm.

Dona Dagmar é secretária e ganha cerca de 600 mil cruzeiros. Tem 20 anos de serviço na mesma empresa. Mudou do bairro onde morava, quando era casada, para um apartamento que comprou com muita dificuldade. Está desquitada há seis anos.

– Acho que já me acostumei. No começo foi muito difícil. Eu sempre achei, enquanto casada, que estava preparada para viver sozinha. Mas por mais que a gente ache que está preparada, não está. O choque da separação é muito grande. Meu marido não dormia em casa. E também nunca dava um tostão para as despesas. O comum era o contrário: levava dinheiro meu, para jogar. Eu pensei muito, todos falavam mal do desquite, mas quando não suportei mais precisei legalizar a separação.

Dona Dagmar teve dificuldades econômicas, logo que se desquitou. A menina estudava em colégio caro. Havia a prestação do apartamento. Ela começou a trabalhar mais, fazia horas extras no seu emprego e auxiliava na contabilidade de uma pequena indústria. Mas esses trabalhos nem sempre foram bem interpretados pela vizinhança.

– Um dia, um colega me trouxe de carro. Eram oito e meia da noite. No dia seguinte, o bairro inteiro queria saber quem era o senhor que tinha me trazido. Como ninguém acreditava que fosse um colega de serviço, que simplesmente me trouxera por já ser tarde, cada um tratou de inventar sua própria história.

Muitas vezes em que dona Dagmar trabalhou até tarde, voltou no automóvel de algum colega. Os falatórios continuavam.

– Felizmente, eu tinha algumas amigas que compreendiam. Tinha também minha filha e minha mãe. Elas sempre me ajudaram muito. Mas era difícil, mesmo assim, suportar quando minha mãe vinha dizer o que lhe falavam as vizinhas. Era assim: “A Dagmar trabalhou até mais tarde ontem, não é?” “Ah, sabe, dona Amélia, eu vi sua filha com um homem, ontem”. No meu trabalho todos sempre me respeitaram. Não tinha problemas. Mesmo quando me desquitei. Nunca na minha vida, tinha sido tão agradada como então. Eu achei que fosse compreensão, que todos estavam sentido tanto quanto eu o meu problema. A minha primeira estranheza foi quando percebi que só os homens eram compreensivos. As mulheres continuavam iguais. Toda hora alguém vinha me presentear com um bombom, uma bala ou qualquer coisa assim. Convites para cafezinhos, então, nem se fala. E todo muito sempre muito atencioso, muito gentil. Até que começaram a vir os convites para jantar. Eu sempre achei que os convites eram para algo mais do que jantar e conversar. Mas naquela época comecei a refletir e a me perguntar se eu não estava sendo injusta. Talvez os convites fossem mesmo só para jantar e conversar, trocar idéias. Nem todos os convites, é claro. O seu Antonio, que sempre me respeitou muito, começou a insistir em conversar comigo. Disse que tinha problemas semelhantes ao meu. E coisas assim. Pensando naquilo da injustiça, depois de adiar um pouco, resolvi aceitar seu convite para jantar.

Dona Dagmar saiu com seu Antonio. Passearam, jantaram e conversaram bastante. Dona Dagmar já tinha quase certeza de que era injusta, julgando mal os convites. Mas depois do jantar, veio a pergunta:

– Você, moça e bonita, como pode viver assim, tão sozinha?

– Eu vivo bem assim. E tenho minha filha para cuidar.

– Eu sei, mas ficar só é horrível. Eu também tenho problemas, minha mulher não me compreende. Verdade que eu não posso largar dela, mas preciso de alguém fora de casa, que preencha este vazio. Dona Dagmar desconversou. Fez de conta que não entendeu nada do que ele queria e foi embora. Certa, então, de que não era injusta com ninguém.

Depois de quatro anos de desquitada, dona Dagmar também começou a sofrer sua solidão. Por essa época, encontrou Pedro, um amigo que tinha trabalhado com ela, na mesma firma, tempos atrás. Estava apaixonado por uma moça também conhecida dela, e tinha acabado de romper o namoro.

Usou dona Dagmar como confidente e os dois começaram a sair juntos. Pedro nunca mostrou nenhum sentimento, a não ser amizade por quem ouvia seus problemas. Com o tempo, ele começou a tornar-se também confidente de Dagmar. E ela percebeu que estava gostando dele.

– Mas eu tenho um problema muito sério comigo. É minha filha. O meu comportamento tem de ser perfeito, para que ela tenha bons exemplos. Eu nunca poderia viver com outro homem, se não pudesse casar com ele legalmente. Mas, no Brasil, isto é impossível. Se houvesse a possibilidade de um segundo casamento legal, eu já teria me casado. Pois com esse tipo de casamento eu não prejudicaria a formação de minha filha.

Num dos encontros com Pedro, Dagmar disse-lhe que não poderia mais vê-lo. Seu interesse estava aumentando. Explicou a Pedro que seu destino era mesmo cuidar de Dagmarzinha, sempre (ela está estudando química industrial e tem um noivo). Precisava cuidar da casa, levar uma vida simples, e não passear, se divertir. Muito menos gostar de um homem: não tinha esse direito. E explicou por fm:

– Não quero, nunca mais, que alguém repita para Dagmarzinha: “filha de peixe, peixinho é”.

Terceira história

            – Foi bem no dia do aniversário do Oscar. Eu confesso que estava com um pouco de medo de conhecer a família dele. Medo da reação. Tanto assim que ele deixou para eu escolher: ou vamos comer bolo lá em casa ou vamos jantar fora. Eu preferiria jantar fora, por timidez. Mas escolhi ir à casa dele. Eu sabia que o Oscar gosta de passar o aniversário com a mãe, os irmãos e os sobrinhos.

Dona Emília, sentada na sala de seu apartamento ao lado de Oscar, vai contando como conheceu a família do seu segundo marido, de vez em quando interrompida pelos dois filhos, que estão brincando por perto.

– E como a família do Oscar recebeu a senhora, dona Emília?

– Bom, eles sabiam que eu era desquitada. Sabiam também dos meus dois filhos. Isto me preocupava. Mas só de chegar lá eu perdi a timidez. Fui muito bem recebida. Encontrei logo uns conhecidos, tudo foi muito bem. E o Oscar tem nove irmãos, sabe? Eu me dei bem com todos eles.

Mario e Maria das Graças entram na sala, um pouco espalhafatosamente, rindo alto, fazendo piadas sobre futebol com o pai adotivo.

– Filho, deixa a mamãe conversar.

– Nós queremos conversar também, mãe.

O menino e a menina saem rindo como entraram. Não querem saber de conversa de gente grande. Estavam só brincando.

– E como a senhora o conheceu, dona Emília?

O próprio Oscar se encarrega de responder:

– Ah, ela é minha velha conhecida. Nós formávamos par fixo, nos bailes de antigamente, quando éramos adolescentes. Depois ela casou a primeira vez, e eu fiquei muito tempo sem vê-la.

E entra dona Emília:

– Bom, eu já estava separada do meu primeiro marido fazia uns três anos, e encontrei o Oscar na rua, quando estava saindo do emprego. Foi como vai daqui, como vai dali, e tem uma festa na casa do fulano, que tal a gente dançar de novo como dançava antes, e coisas assim. Para virar namoro foi fácil. Bastou nos encontrarmos naquela festa.

Emília tem 34 anos e está desquitada desde 1960. Mas a separação foi em 1958. O primeiro marido não trabalhava. Quando conseguia dinheiro, gastava com outra mulher. Nessa época, eles moravam numa cidade do interior. Quando se separou, foi com os dois filhos para Santos, cidade em que moravam seus pais. E começaram nessa época suas maiores dificuldades.

– É muito ruim ser desquitada, dona Emília?

– É a pior coisa do mundo. Para começar: os meus parentes menos próximos começaram a me evitar. Pelo menos até eu me unir com o Oscar. E para arrumar emprego, então? Nem fale. Eu não tinha dinheiro e precisava trabalhar. Sai por todas as firmas que anunciavam vagas, mas ninguém me queria.

– A água está fervendo, Emília.

Dona Emília levanta-se e vai para a cozinha coar o café. Oscar vai explicando outras coisas. Nem todos aceitam o casamento deles, não “legalizado”. Mas, o importante – diz  ele – é que as pessoas de quem eles gostam, os filhos, as famílias dos dois aceitam, compreendem e apoiam.

Volta dona Emília, com o café.

– Por que não queriam a senhora como empregada,  dona Emília?

– Olha, nunca ninguém me disse nada, mas nós sabemos o que acontecia. Eu fazia os testes, ia bem. Os chefes já começavam até a me explicar o que era o serviço. Mas, quando liam minha ficha, esfriavam. E perguntavam: a senhora é casada e está procurando trabalho para ajudar em casa? Eu respondia que era separada do marido, em processo de desquite, e que trabalhava não para ajudar em casa, mas para manter a casa, os filhos. Mas sempre outra candidata ganhava o emprego. Isso aconteceu em três firmas. A quarta é onde trabalho hoje. Tenho sete anos de serviço e já sou diretora de vendas.

– E aí nessa firma aceitaram a senhora imediatamente?

– Bom, aceitaram. Mas só agora, que tenho um cargo de confiança, eu sei o que aconteceu. O dono da firma tinha trazido chefe de pessoal da matriz, para examinar e escolher os candidatos. O homem hoje é meu amigo, leu os testes, não leu as fichas. Eu fui a única escolhida. Então houve um caso interno: o dono da firma e o departamento do pessoal aqui da sucursal não me queriam, por causa do meu estado civil. Mas o patrão não poderia diminuir a autoridade do homem de confiança vindo de fora. E fiquei eu, contra a vontade de muita gente. Hoje, pelo menos diz o dono da firma, a escolha não poderia ter sido melhor.

– E como a senhora teve tanto êxito no emprego?

Dona Emília ri gostoso, fazendo ar de quem não sabe e de quem está perguntando deve saber a resposta melhor do que ela. Mas fala:

– Bem, uma mulher que trabalha, principalmente entre homens, é sempre vista com olhos diferentes. E se o trabalho é de vendas, a situação então é pior, pois os clientes estão sempre com outros interesses, além da compra. Olha, para usar uma expressão de gíria, a mulher que trabalha no mesmo setor que eu trabalho, onde as mentalidades não são muito evoluídas, não pode dar bola para ninguém. Nem um pouco. Outras que trabalharam  comigo acabaram atrapalhando o serviço porque aceitavam convites para jantar ou almoçar, faziam outras coisas, e os chefes foram perdendo a confiança nelas.

– A senhora acha que a razão do seu sucesso é essa mesmo? Não terá sido porque a senhora é uma boa funcionária?

Dona Emília ri de novo:

– E, sem muita modéstia, acho que essa razão é a mais importante.

As crianças passam de novo sem ligar muito para os que estão na sala.

Dona Emília mexe-se um pouco na cadeira, como receando que as crianças atrapalhem a conversa.

– E o casamento, vai bem?

– Ah, vai muito bem – dizem os dois.

– Briga não tem?

– Ah, muitas. Mas eu brigo sozinha – diz dona Emília. O Oscar não abre a boca. Ele sabe quando estou nervosa. E não liga quando eu começo a falar. O normal mesmo aqui em casa é o bom humor. Nós brincamos muito, um com o outro, com as crianças e as crianças com a gente. Quando eu venho do serviço para casa já venho rindo das piadas que o Oscar e as crianças vivem fazendo. E também entro na brincadeira.

– E as crianças?

– Para as crianças, o meu segundo casamento foi uma beleza. Eles ganharam um pai que nunca tiveram. O Oscar leva os dois à praia, ao clube e lugares onde eu não posso ou não gosto de ir. Eu pensei que não deixassem, por causa da nossa situação não-regularizada. Mas os diretores, nossos amigos, passaram por cima disso. E as crianças precisam muito de um clube.

– Elas gostam muito do seu Oscar?

– Demais. É como eu disse, o pai que eles não tiveram. No começo, eles chamavam o Oscar de tio, sabe? É porque o Oscar tem muitos sobrinhos, e os dois brincavam com ele. Mas, com seis meses de casamento, Oscar não estava em casa, eles me chamaram e perguntaram:

– Mamãe, nós podemos chamar o tio de pai?

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José Carlos Marão

Autor – José Carlos Marão (nascido em 11 de janeiro de 1941, em São Paulo), começou na imprensa… continuar lendo

Lígia Martins de Almeida

Editora do livro “Realidade Re-Vista”.

Sem o trabalho exaustivo de Ligia Martins de Almeida teria sido muito mais difícil a realização do livro “Realidade Re-Vista”… continuar lendo

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