Yokaanam é um profeta

REALIDADE nº 13, Abril de 1967

A primeira vez em que os espíritos vieram falar com o mestre Yokaanam ainda não foi para avisar sobre a Cidade da Fraternidade Universal, onde hoje vivem 200 famílias, na terra sagrada. Aconteceu há alguns anos, quando o mestre era piloto civil e sofreu um acidente. Os médicos do mundo profano queriam amputar-lhe um braço e uma perna. E foi para isso que os espíritos vieram pela primeira vez: o venerando mestre não podia ser mutilado, pois tinha sua obra a cumprir. Então os espíritos lhe ensinaram que bastava torcer o braço e a perna de certa maneira, e ele ficaria bom. Os médicos aceitaram o autodiagnostico, fizeram como o mestre mandou- orientado pelos espíritos – e deu certo.

Foi a partir daí que o mestre nunca mais cortou o cabelo e a barba, passou a chamar-se Yokaanam, já que seu nome profano era Oceano de Sá, e resolveu dedicar-se inteiramente às causas espirituais e humanitárias.

Mestre Yokaanam não diz se desta primeira vez os espíritos vieram no disco-voador, como fizeram posteriormente e farão muitas vezes mais, para dar-lhe instruções sobre cartas coisas, algumas já acontecidas, outras ainda por acontecer.

No ano de 1966, pouco depois do acidente e da salvação, Yokaanam, que no mundo profano era também coronel-aviador da reserva, ex-comandante da Segunda Guerra e homem letrado, membro da academia, fundou no Rio de Janeiro a Fraternidade Eclética Espiritualista Universal. Para o mestre não existem diferença entre as fés, e seu movimento pretende unir todas as religiões do mundo.

Sempre instruído por forças extraterrenas, Yokaanam conseguiu milhares de seguidores para a Fraternidade Eclética. Até o dia em que os espíritos vieram avisar sobre a Cidade da Fraternidade Universal. Eles lhe forneceram as coordenadas da terra sagrada, onde deveriam ir viver o mestre e seus discípulos, em absoluta fraternidade, num sistema comunitário onde não houvesse ganância, nem ricos, nem pobres, nem dinheiro.

            E em janeiro do ano de 1956 Yokaanam partiu, para reconhecer as terras, anunciadas e descritas. Desceu em Anápolis, Goiás, andou de jipe, carro-de-boi, a pé, e identificou o lugar, em redor do monte sagrado, no planalto goiano, a 62 quilômetros do local onde, alguns anos depois, começaria a ser construída a nova capital brasileira. Yokaanam comprou as terras e, até agosto daquele ano, oito famílias espiritualistas ecléticas já estavam lá. Mas a grande viagem, do Rio ao planalto goiano, a peregrinação-êxodo, conforme a chamou o mestre, começou na hora zero do dia  1º de novembro do ano de 1956.

A multidão no pátio

Foi nesse dia que o irmão Siríaco ficou conhecendo irmã Noêmia, ainda na estação da estrada de ferro do Rio. Yokaanam tinha conseguido um trem especial para que os 415 primeiros peregrinos o seguissem. Pouco antes da meia-noite do último dia de outubro, ali estavam todos, no pátio da estação – homens barbudos, cabelos longos e olhar místico; mulheres recatadas, de longos vestidos, com suas crianças e suas malas pobres. A bagagem coletiva era enorme: alimentos, utensílios, ferramentas, barracas de lona onde morariam provisoriamente ao chegar.

– Salve irmã Noêmia.

– Salve irmão Jeremias.

Siríaco ouviu, a poucos metros de distância no meio da multidão, o cumprimento respeitoso que outro irmão dirigiu à Noêmia. Pegou a mala, subiu no vagão onde já estavam seus pais e irmãos, e acomodou-se. Em poucos minutos, todos os peregrinos o imitaram, porque estava na hora de partir. As despedidas, na plataforma, eram tão breves quanto as saudações quase em silêncio. A zero hora de 1º de novembro, o trem apitou. Um último passageiro ainda se despedia rapidamente de algumas pessoas e depois correu para o trem, já em movimento. Entrou no mesmo vagão e que Siríaco estava, e um peregrino o saudou:

– Salve, mestre Yokaanam.

Siríaco sentiu-se bem, ao saber que o mestre ia viajar ali, perto dele. Acomodou-se melhor no banco e logo dormiu, ninado pelo balanço do trem. Esqueceu-se até de pensar onde estaria a moça que vira momentos atrás, antes de embarcar.

A peregrinação-êxodo dourou tantos dias que Siríaco já nem se lembra. Naquela época ele não passava de um neófito e tinha também um nome profano: Celso Batista. Mas lembra-se que quando os peregrinos, ao fim da grande viagem, avistaram o monte sagrado, caiu um temporal forte, e assim mesmo todos começaram a trabalhar. Armaram 70 barracas de lona, uma delas o templo. Eram poucos abrigos para tanta gente, por isso nos primeiros dias os homens ficaram de um lado, as mulheres do outro.

Na manhã seguinte, de muito sol, a organização em que a Cidade Eclética vive hoje já começava a funcionar. Os irmãos passaram a cuidar, cada um, de seu setor. Uns foram procurar barro para a olaria, outros foram cuidar da terra para as plantações, este tratava das roupas, aquele da alimentação. Siríaco foi trabalhar na marcenaria. Noêmia, na cozinha geral, onde todos comem, porque ninguém lá cozinha em casa.

Em poucos dias, algumas construções de pau a pique estavam de pé, as paredes de bambu trançado e barro, os telhados de sapé.  Hoje eles têm 46 casas de alvenaria, dez estabelecimentos para o comércio exterior (com os vizinhos da Cidade Eclética), um templo, uma granja, cinco transmissores de rádio, a fazenda, a marcenaria, a carpintaria, olaria, oficina de ferreiro, posto de gasolina, hospital, dois colégios, farmácia, cooperativa, e vários outros órgãos funcionais. E agora são 1.110 habitantes: 528 crianças (300 delas órfãs recolhidas pela cidade), 267 homens e 315 mulheres. Nestes dez anos, muita gente não agüentou, foi embora. A família de Siríaco ficou. A de Noêmia também.

Os homens do mundo pecador e profano muito estranham que o povo da Cidade Eclética se dedique tanto a orar e pensar em sua salvação espiritual. Dizem mesmo que, se eles se dedicassem mais às coisas materiais, já seriam há muito um núcleo auto-suficiente em tudo. Mas os espiritualistas-ecléticos não pensam assim: eles têm a grave missão de esclarecer a humanidade sobre os perigos que corre.

O mestre já previu, faz muitos anos, que até 1978 mais ou menos vai aproximar-se da Terra um planeta estranho, que ele chamou de Bohan. Esse planeta já entrou na órbita do Sol. Muito depois do venerando mestre, com quatro ou cinco anos de atraso, os cientistas o descobriram e deram-lhe o nome de CTA-102. Segundo Yokaanam, Bohan, ou CTA-102, vai chegar muito perto da terra e levará dois terços das almas da humanidade. Só se salvarão os homens de boa vontade, ou puros de espírito.

E todos na Cidade são assim: oram pela humanidade, fazem caridade, adotam crianças, curam enfermos que os médicos profanos não conseguem curar, vendem remédios e gêneros mais baratos. Por isso, o hospital, a farmácia, a cooperativa, o bar, ficam do lado de fora da cerca que isola a Cidade da Fraternidade Universal do resto do mundo. São órgãos que fazem parte do seu “departamento de comércio exterior”. O povo das cidades e sítios vizinhos faz fila para ser atendido nesses estabelecimentos, um dos meios idealizados por Yakaanam e seus assessores para conseguir os fundos com que foi transformando a Cidade Eclética num regime comunitário-cristão cada vez mais perfeito.

A vocação de Siríaco

         Não foi fácil para Siríaco aproximar-se da irmã Noêmia. Além da timidez de quase adolescente – tinha 20 anos quando chegou à terra sagrada – precisava enfrentar as novas normas morais, bem diferentes das do mundo profano Pior ainda, era comum ver Noêmia trocando olhares furtivos com irmão Jeremias, quando se encontravam em algum lugar, mesmo fora do horário de namoro.

Um dia, depois de tanto insistir, Siríaco sentiu que ela já o percebia. E deixou-se levar pelo sonho, feliz. Na cozinha geral, buscava seus olhos escuros, que ela baixava logo. Mas havia sempre uma sombra: irmão Jeremias. Estariam pensando, os dois, em namoro? O acaso o favoreceu, depois de meses e meses de incertezas.

Fazia três anos que tinham todos vindo para aquele mundo de paz, trabalho, amor e caridade. Siríaco não era mais um neófito. Queria seguir mestre Yokaanam e já tinha passado vários estágios: era quase iniciado. Tudo o que se precisa para continuar seguindo esta vocação é vontade. E Siríaco tem muita.

Assim que terminou o primeiro estágio como neófito, de seis meses, pediu para fazer o estágio seguinte. Levou uma vida moral e espiritual perfeita, terminou o segundo de mais seis meses, e sentiu que já podia ser um adepto. Pediu por escrito ao venerando mestre e passou a ser um neófito-obreiro-interno, durante um ano, antes de ganhar a condição de adepto mesmo. Nesse ano, só tinha de trabalhar e produzir em seu setor, sem muitas obrigações espirituais. Passados os doze meses, pediu para entrar na EPAN – Escola Preparatória de Adeptos Noviços. O curso aí dura quatro meses, mas Siríaco fez os exames com apenas dois meses de estudos e pode vestir, orgulhoso, o balandrau, uma batina branca que se usa nos trabalhos. Só então era considerado um adepto. Para solicitar a iniciação, é preciso sentir muito desejo espiritual e ter certeza do que quer. Este desejo e esta certeza, Siríaco sentiu quando começou a perceber que gostava de irmã Noêmia.

Era nos dias de trabalho espiritual, ocasião em que vêm muitos estranhos – geralmente turistas de passagem por Brasília, que se hospedam no hotel, do lado de fora da Cidade Eclética. Como em qualquer dia normal – e tal e qual todos os irmãos ecléticos – Siríaco levantou-se as seis e meia. A cozinha geral já servia o café. Cada família tinha mandado um de seus membros ao prédio da alimentação, com um bule e uma bandeja, para buscar sua cota diária de café e pão (sem manteiga, que é difícil). Noêmia, os cabelos longos sobre os ombros, vinha saindo com sua carga quando Siríaco apareceu, de repente. Ele chegou a pensar em saudá-la: “Salve, irmã”, mas tudo foi muito rápido. Noêmia estacou para não esbarrar nele e um pouco de café escapou do bule, manchando-lhe a roupa. Ela deu um gritinho de susto e mal pode murmurar:

– Desculpe, irmão.

Siríaco, cheio de ternura, mas tímido e sem jeito, tentou consertar:

– Não foi nada, irmã Noêmia. Pena que acabei de retirar a roupa, limpinha, da lavanderia geral.

Arrependeu-se imediatamente da frase boba, mas não pode continuar falando. Noêmia já se afastava, tímida e sem jeito como ele. Estava, porém, criada alguma ligação entre os dois. Voltaram a falar-se várias vezes, nos horários próprios, e Siríaco logo soube, para muito alívio seu, que Jeremias tinha acabado de abandonar a cidade, por causa de um drama de consciência: conversando com um estranho que viera visitar a terra sagrada, contara-lhe mais do que o permitido sobre assuntos esotéricos, que devem ser mantidos em segredo pelos moradores da Cidade da Fraternidade Universal. Como já não vinha se adaptando às rígidas leis da cidade, Jeremias resolvera voltar para o mundo profano.

Foi o começo da época mais feliz na vida de Siríaco. Candidatou-se à mão de irmã Noêmia e ela concordou. Imediatamente, pediu e recebeu autorização por escrito do mestre, para namorá-la. Passava os dias trabalhando, estudando ou orando, e pensando nela, sonhando com as horas agradáveis do namoro.

O expediente sempre começou às oito horas. Ele ia para o seu setor, como todos os outros: irmão Arnóbio, o médico, receitando ou operando no hospital; irmão Áquila, o homem da imprensa, andando atrás do mestre, para receber os serviços que surgem; irmão Ciro, mulato barbudo que usa um chapéu igual ao quepe do Exército, recepcionando os visitantes e vendendo gasolina no Posto da Luz; na carpintaria, nos geradores, nas construções, em todo lugar já há trabalho às oito da manhã, a Cidade Eclética não para de crescer.

Ao meio-dia, quando o sino tocava anunciando o almoço, Siríaco podia ver Noêmia na fila, marmita na mão, esperando a vez de receber comida. Às duas, voltava ao trabalho e, às cinco, afinal, estava livre. Ia para casa, tomava banho, jantava e ia encontrar-se com Noêmia, na praça bem iluminada onde existe um monumento à Mãe Preta Universal, ou na casa dos pais dela, à vista dos irmãos – pois em outros locais e de maneira diferente não pode. Namoro é só para conhecer. Os jovens não podem ficar de mãos dadas, muito menos se beijar.

Isto foi há sete anos. Siríaco namorou Noêmia menos de um ano e uniu-se a ela. Foi à cidade do mundo profano e oficializou a cerimônia perante o Juiz de Paz. Mas o casamento que os moradores da Cidade Eclética consideram de verdade é feito lá mesmo, na lei deles.

Tudo se paga com trabalho

         A Fraternidade não vende lotes nem cobra aluguel. Morar lá é praticamente de graça, assim como comer, vestir, estudar e divertir-se. Assim, quando Siríaco casou, bastou pedir uma casa e os móveis, e prontamente  os recebeu. Tudo é pago com trabalho que cada um oferece à Fraternidade.Lá dentro não existe dinheiro, a não ser o obtido no comércio com o exterior, mais a renda angariada no quadro social (pessoal do rio ou Brasília que contribui mensalmente) e os proventos de aposentados e reformados que vieram morar na cidade. Os auxílios oficiais são poucos, mas em 1960 conseguiram uma modesta verba federal.

A receita assim obtida mal dá para cobrir os gastos com as escolas, o hospital, remédios, alimentação, combustíveis, estação de rádio, energia..

Fora roupas e assistência para as crianças órfãs.

Seu patrimônio, além das terras, é de três caminhões, uma perua rural, as 46 construções (uma média de 100 metros quadrados cada uma), o material de ensino dos dois colégios, o aparelhamento do hospital, o do templo, da granja e da casa de rádio. Em seus dez anos de existência, a Fraternidade comprou pouca coisa.

Os irmãos não falam muito sobre suas atividades. Siríaco, quando um estranho lhe pergunta coisas, desculpa-se:

– Nós temos de ter muito cuidado com o que falamos. Vivemos num regime socialista-cristão, sabe? E por causa disso vem muito polícia aqui. Já teve até um, fingindo de doente, internado no hospital, para investigar. Nós sabíamos, mas deixamos o homem aí, até ele enjoar. Nosso socialismo é o mesmo que se pregava no começo do cristianismo. Só querermos servir a deus e viver em fraternidade. E o soldado da Polícia Militar que serve de sub-delegado da cidade, aí do lado de fora, nunca teve trabalho com nossa gente.

Se o estranho insiste em querer atravessar a cerca para Vera a cidade de perto, Siríaco sorri:

– O irmão pode e não pode passar. Mas é melhor eu contar o que está para lá. Fica mais fácil. Não há nada de especial. Aquela casinha redonda, coberta de zinco, é a casa de rádio.Nos aparelhos de radioamador trabalham mestre Yokaanam e o irmão Áquila, chefe do departamento de imprensa. Os dois prédios grandes são os ginásios.

– Por que dois ginásios, se a cidade é tão pequena?

Siríaco acende um cigarro paciente (eles podem fumar e beber, desde que não seja em excesso):

– Irmão, são 528 crianças. A maioria, órfãos que os governos nos enviam, para cuidar. E todos recebem instrução, os órfãos e os nossos filhos (eu tenho três já). Até o ano passado só tínhamos grupo escolar. O ginásio começa este ano. As casas ao lado dos colégios são as residências dos irmãos. À esquerda da casa de rádio estão a casa de luz e força, oficinas e a residência das irmãs que ainda são solteiras. À direita, os almoxarifados e a cozinha geral.

O estranho nota que existe, ainda, uma barraca muito velha, do lado de lá da cerca.

– É a casa do nosso venerando mestre – explica Siríaco. Ele ainda não quis uma casa de tijolo.

E, na verdade, as preocupações do mestre Yokaanam são mais altas. Ele quer tornar a Cidade Eclética auto-suficiente em pouco tempo. Por enquanto é difícil, a produção é pequena. Para o comércio externo, plantam banana e fabricam sapatos e roupas. Depois vêm o feijão, hortaliças e algumas frutas. O gado é pouco, a carne é racionada: a cozinha geral fornece uma comida simples, quase só de vegetais. O leite vai para a creche e os adultos tomam leite em pó. Com mais freqüência comem carne de frango, pois a granja é mais rica que o setor pecuário.

Nosso mestre tem um plano diretor tão bem organizado como o de Brasília, prevendo soluções para todos os problemas que forem sendo criados, com o aumento da população. O projeto foi elaborado pelos próprios irmãos iniciados, entendidos em urbanismo.

A principal obra do plano é a catedral eclética, um templo para todas as religiões, que será construído na praça espaçosa onde já existe um marco, inaugurado por Yokaanam. Em volta da praça, serão construídas mais doze igrejas, uma para cada culto – de budismo ao catolicismo, das seitas mais conhecidas até as menos divulgadas e de poucos seguidores. A praça da catedral eclética será atravessada por duas grandes avenidas. Numa delas, que ficará dentro da cidade, estarão as casas comerciais e restaurantes para atender o público que comparece aos trabalhos espirituais. Cruzando com esta futura avenida, já existe a avenida São João, onde estão hoje a cooperativa, a farmácia e o hotel, fora do cercado que rodeia a cidade.

Siríaco cumprimenta com respeito outro irmão eclético que passa e explica porque as obras andam devagar:

– Tudo o que construímos até agora já está dentro do planejamento, mas faltam recursos, sabe? Acredito que seremos cinco mil habitantes dentro de cinco anos. Precisamos correr para abrigar em ordem tanta gente.

Irmão Siríaco está contente: por inspiração espiritual, seu desejo de seguir os caminhos do mestre cresceu. Ele comunicou á Yokaanamoe seu pedido foi aprovado. Agora está estudando ciências herméticas. O estranho quer saber detalhes. Siríaco desculpa-se mais uma vez:

– Ah, são ciências herméticas, irmão. Se eu pudesse contar, não seriam herméticas. Só os iniciados podem conhecer, estudando nos colégios, que são o nosso poder legislativo. Cada colégio estuda os problemas da comunidade, sempre presidido por um mentor, que deve ser do colégio de pelo menos um grau acima. No colégio do quinto grau, o presidente tem outro nome: hierofante. Nosso hierofante agora é o irmão Eutichio, que pertence ao colégio de sexto grau. Acima dele, só o Supremo Poder Legislativo, nosso venerando mestre.

Em cima do portão que dá entrada à cidade, o estranho vê uma placa: “É proibida a entrada de mulheres com trajes pagãos, vestidas de homem ou de colo nu”. Siríaco acende outro cigarro, mas está tranqüilo e mostra que pode continuar falando do que não for proibido.

– A ordem de promoções nos colégios vem do Supremo Poder Espiritual, que se comunica com a Terra através do mestre. Faz pouco tempo que veio a ordem para eu subir para o segundo grau.

O estranho olha de novo para dentro da cidade, além da cerca, e parece meio confuso. Irmão Siríaco adivinha suas dúvidas:

– Não precisamos de ordens do Poder Espiritual para construir nossas casas e administrar a cidade. Para isso, temos o Poder Executivo, meio complicado para o entendimento dos forasteiros. Subordinado ao Sacro Colégio (o conjunto dos seis colégios), vem primeiro o Departamento de Controle de Pessoal, com doze divisões, a prefeitura social, a assistência social, instrução, saúde, divertimentos, estradas, imprensa, disciplina, rádio, força e luz, águas e esgotos, e o Departamento de Arquiteto.

– Departamento de Arquiteto?

Ele está acostumado com o espanto dos outros.

– É o que cuida de suprir nossas necessidades. Por exemplo, se vai faltar arroz, o irmão arquiteto manda comprar fora. Se minha calça está estragada, peço a ele uma autorização para tirar outra na Costuraria ou no Almoxarifado.

Os irmãos estão salvos

São seis e meia da tarde. Na praça principal da Cidade da Fraternidade Universal, já iluminada, os primeiros namorados chegam para seus encontros de tímido amor. Irmãos protestantes, crentes, católicos, batistas, reúnem-se nas ruas para ir ao cinema, ver uma velha reprise. Em seu gabinete, cercado de peças e miniaturas de avião – um passatempo antigo –  mestre Yokaanam estuda os planos para explorar uma estação de rádio, já autorizada, e prepara um comunicado ao povo, recém-recebido do Poder Espiritual.

Por trás de Siríaco uma mulher se aproxima, contra a luz esmaecida do Sol. Tem os cabelos longos e os olhos escuros profundos. Siríaco vira-se, toma sua mão e a apresenta ao estranho:

– Irmã Noêmia, minha mulher.

O estranho a cumprimenta, ela curva levemente a cabeça. Depois, ambos – marido e mulher- despedem-se e afastam-se.

O jornal O Nosso, órgão oficial da Fraternidade, vai publicar no outro dia uma extensa reportagem com o título: “Contatos com os discos voadores”, contando as críticas de um habitante extraterreno à conduta moral da humanidade, e confirmando a aproximação do planeta Bohan, CTA-102 para os cientistas, daqui a dez anos. Irmão Siríaco e irmã Noemia estarão tranqüilos. Um terço, apenas, da humanidade se salvará – os homens de boa vontade, os puros de espírito. E eles sabem que a Cidade da Fraternidade Universal está dentro daquela terça parte.

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José Carlos Marão

Autor – José Carlos Marão (nascido em 11 de janeiro de 1941, em São Paulo), começou na imprensa… continuar lendo

Lígia Martins de Almeida

Editora do livro “Realidade Re-Vista”.

Sem o trabalho exaustivo de Ligia Martins de Almeida teria sido muito mais difícil a realização do livro “Realidade Re-Vista”… continuar lendo

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